quinta-feira, 9 de março de 2017

Balelas nos sites de emprego

O que mais me fascina na frase “Vergonha é roubar e ser apanhado” é o facto de o ponto final não estar colocado logo a seguir a “roubar”. Segundo este dizer, senhoras e senhores, roubar não é mau. Mau é ser néscio, laparoto, neca, babana ao ponto de se ser apanhado. Uma pessoa que rouba é uma pessoa que faz pela vida. Mas uma pessoa que é apanhada a roubar é alguém com quem não gostaríamos de casar um/a filho/a.

Bom, a avaliar pelo histórico português de eleições autárquicas, mesmo ser apanhado não quer dizer que se perca popularidade e que se seja um mau partido. E se o nosso/a filho/a estiver encalhado/a há muito tempo, até podemos esquecer o facto de a pessoa com quem o/a vamos casar ter sido apanhada a roubar. No caso de o pretendente se tratar de um banqueiro, a comunhão de bens pode ser uma óptima solução.

Vem esta introdução algo desinteressante e um pouco fatalista a propósito de uma tendência que acho preocupante nos sites de emprego: muitas empresas não dizem o que querem. Há uma espécie de complexo que leva a que não se diga qual a função para a qual há uma vaga. É como se se tivesse vergonha de dizer qual a função. É como quando alguém quer acabar uma relação e não sabe como: anda-se ali à volta com coisinhas e não se diz logo tudo de uma vez. Exemplifico.

(Véronique Debord-Lazaro/Flickr)

Precisa-se vendedor porta-a-porta
Trabalho tão respeitável como qualquer outro, e infinitamente mais respeitável do que roubar (ser apanhado é opcional), para este tipo de trabalho, as empresas anunciam vaga para algo como “comunicadores” ou “dinamizadores comerciais, junto do cliente final, de marcas, bens e serviços”. Pergunto eu: se pedissem vendedores porta-a-porta, não teriam uma melhor triagem dos candidatos? Candidatava-se quem queria, quem não queria não ia ao engano. Até porque os “dinamizadores comerciais, junto do cliente final, de marcas, bens e serviços” podem não estar interessados no porta-a-porta.

Precisa-se de funcionário da limpeza
Para as empresas que, imagine-se, vendem serviços de limpeza, trabalhar na limpeza não é digno. É tipo vender droga: dá dinheiro, mas é feio. Nada mais errado: a limpeza é essencial, na vida, no trabalho, nas zonas púbicas ou num bordel. Sendo assim, podem pedir “funcionários de limpeza” nos anúncios, e não “operadores de logística higiénica”. Facilitavam a vida a toda a gente.

Precisa-se de canalizador
A canalização é como o intestino: só lhe damos valor quando a matéria empanca. Sendo assim, as empresas que vendem serviços de canalização podem solicitar, nos sites de emprego, canalizadores, em vez de “pipelining problem solvers”. É a mesma coisa, mas facilita a vida a um canalizador que procure trabalho. Por vezes, a um canalizador desempregado, é mais difícil encontrar trabalho do que um objecto que esteja a obstruir um cano. Tudo por culpa do pipelining das empresas.

Precisa-se de construtor civil
O que seria de nós se não houvesse gente de fibra que, à chuva e ao sol, com calor e com frio, nos construísse as casas e as infraestruturas necessárias à nossa vida? Pois bem, colocar um anúncio para “construtor civil” seria uma boa ideia para as empresas de construção civil. Mas há sempre alguém com uma ideia melhor: porque não pedir um “operário concretizador de concepções arquitectónicas”?

Outra tendência tem a ver com o facto de haver muitos jornalistas desempregados. Por este motivo, toda a gente desatou a pedir o seu jornalista, nos sites de emprego, para desempenhar as mais diversas funções, todas elas respeitáveis, mas que nada têm a ver com jornalismo. Deixo alguns exemplos.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para fazer telemarketing, mas as suas “skills” ao nível da escrita podem ajudar a escrever alguns e-mails.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para trabalhar como “operário concretizador de concepções arquitectónicas”, mas pelo meio, sempre pode dizer notícias aos colegas, como se estivesse na rádio. E fazer relatos de futebol.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para motorista de pesados. Mas as suas capacidades de comunicação podem ajudar na relação com os clientes.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para trabalhar no “Correio da Manhã”.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Quando não havia emojis, mas havia música na MTV

Como dizia Lavoisier, “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Dizia Lavoisier, mas também o senhor Alfredo, da tasca “O Pepino”, em Guilhofrei, que recolhia cirurgicamente os restos de vinho das mesas para um recipiente grande, onde esses restinhos de vinho misturados davam origem a novas e, por vezes, deliciosas “castas”, capazes, não só, de embebedar com eficiência, mas também de destruir um fígado em seis semanas.

Vem isto a propósito de eu não ter grandes ideias sobre como iniciar este texto, mas também desta nova moda de, do velho, se fazerem velhos em quantidade suficiente para vender. Não, não estou a falar sobre cirurgia plástica, esse domínio da Medicina que tanto faz pessoas velhas com aspecto jovial como, em casos de menor acerto, excelentes bonecos de cera para museus. Eu sei, estou a ser injusto, com esta comparação: há bonecos de cera com uma vida demasiado activa para serem comparados com pessoas velhas.

Do que eu quero mesmo falar, quando parar de engonhar, é desta tendência recente da tecnologia para recuperar aparelhos do passado. No Natal, foi a Nintendo NES que fez as delícias dos nostálgicos. Vivemos um tempo que as consolas são tão evoluídas que, se jogarmos FIFA e tivermos o Cristiano Ronaldo na nossa equipa, durante aquele tempo, deixamos de saber dizer “oleosidade” e fotografamo-nos abundantemente em cuecas. Mesmo assim, muita gente comprou a Nintendo NES, cujos jogos são uma mistura de quadradinhos coloridos e música foleira. Ou seja: parecem aquelas discotecas que abrem ao Domingo à tarde. Ou um casaco do Goucha.

O mesmo está a acontecer com os telemóveis: a Nokia anunciou que vai relançar o 3310 e a Internet explodiu. Num tempo em que os telemóveis têm ecrãs maiores do que um espelho de casa-de-banho e mais RAM do que a que existia nos computadores todos de Portugal, em 1990, preparamo-nos para o sucesso de uma carcacinha com botões.

(raindog808/Flickr)

Apesar de tudo, há uma diferença fundamental entre estes dois exemplos: enquanto que muitos vão conseguir reeditar os êxitos que tiveram na Nintendo NES, na sua juventude, poucos irão repetir os êxitos que tiveram aos comandos de um Nokia 3310, nomeadamente no envio SMS de cariz romântico. No máximo, irão recuperar o recorde do jogo da cobra.

[Durante esta pausa, fica no ar a ideia de que eu poderia fazer um trocadilho de cariz sexual, com a expressão “jogo da cobra”, mas importa reforçar que eu não sou tão ordinário como vocês pensam.]

Pegando nesta moda de recuperar coisas do passado, passo a propor algumas que gostaria que voltassem.

Quem gostava de comer comida tradicional podia fazê-lo abertamente
Hoje, se quiseres comer arroz de cabidela ou papas de sarrabulho, tens que o fazer às escondidas. Caso contrário, podes ser apanhado e punido por grupos extremistas incrivelmente perigosos, como os “Caçadores do Glúten”, a “Brigada do Tofu”, o “Esquadrão Curgete”, a “Força de Intervenção Alface” ou os “Cortadores de Tomates”. (Como é óbvio, esta sequência de nomes ia acabar com um que desse para um trocadilho de cariz obsceno, mas eu não sou assim tão ordinário.) Caso sejas um destes grupos, vais desejar ter nascido frango do campo e ter acabado numa panela de arroz de cabidela.

Os seres humanos conseguirem pensar em mais do que 140 caracteres
Isto do Twitter é muito bonito, mas é bom para pessoas com pouca memória RAM. Eu sei, hoje em dia, ter pouca memória RAM não impede ninguém de ser, por exemplo, Presidente dos Estados Unidos, mas houve um tempo em que um ser humano sabia, em média, mais do que 36 palavras.

Não era preciso usar emojis
Em tempos, os seres humanos tinham palavras que designavam coisas. Por estranho que pareça, os seres humanos recorriam a essas palavras, e não a bonecos, para se fazerem entender. Para encontrarmos emojis na nossa linguagem, temos que recuar ao tempo das pinturas rupestres. Mas, nesse tempo, os seres humanos andavam semi-nus, pelo que se perdia na comunicação, mas se ganhava na interacção.

A MTV passava música
Eu sou do tempo em que a MTV era arrojada ao ponto de, não só, passar música, como também de transmitir programas sobre música. Não se entendia, de facto. Felizmente, alguma mente mais atenta mudou essa estratégia e hoje a MTV só transmite “reality shows”. Ainda assim, enquanto que a TVI tem a Teresa Guilherme, a MTV tem miúdas giras em bikini em locais paradisíacos. Por outras palavras, a MTV ainda não desceu ao nível TVI.

Quando um amigo viajava, mostrava-nos fotografias só quando voltava        
Hoje, começamos logo a ver uma fotografia da asa do avião, no nosso Facebook, ainda o veículo se encontra no chão. Para além disso, os seres humanos, nas viagens, contavam experiências. Hoje, contam likes em selfies. Agora que penso nisso: os seres humanos, hoje, passam mais tempo de costas para os locais que visitam, por causa das selfies. Mas isso não muda grande coisa: dantes, as pessoas diziam “Que fixe, fui ao Louvre!”, enquanto que hoje fazem tudo nas redes sociais para que lhes digam “Que fixe, foste ao Louvre!”.

Nas discotecas, os slows eram do Prince
…e outros artistas do mesmo nível. Hoje, os slows são kizombas. Nada contra, para quem pratica os slows, até fica uma parte dos preliminares já feita. Mas para quem, como eu, não dança slows, perde-se na qualidade musical. Mas quem vai a uma discoteca por causa da qualidade musical não merece nada. É como ir a uma sucata procurar arte contemporânea. Mau exemplo: muita da arte contemporânea é feita de sucata. Enfim, vocês entenderam-me.

Podem acrescentar outras sugestões, nos comentários a esta pequena dissertação. Eu prometo que leio, quando acabar este programa que estou a ver na MTV.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Por políticos que joguem à "sueca"

Entregaram, ao Presidente da República, uma lista com 15 propostas sobre como melhorar a relação entre políticos e cidadãos. Adoro a ideia. Isto é uma espécie de arranjinho, como aqueles que os casais fazem para juntar dois amigos. Esses arranjinhos servem dois propósitos fundamentais. Um deles é aumentar o leque de opções que os casais têm para sair ou jantar aos fins-de-semana. Todos os casais têm alturas em que já não têm paciência para estar a sós, pelo que, poderão minorar o sofrimento partilhando-o com outro casal. Outro dos propósitos fundamentais é o “babysitting”. Elas querem ir às compras mas não têm com quem os deixar: deixam-nos a tomar conta um do outro. Eles querem ir à bola mas não têm com quem as deixar: deixam-nas a tomar conta uma da outra.

E o que estas 15 propostas tentam é conseguir um bom arranjinho entre políticos e cidadãos. Até porque o político tem dificuldades em arranjar relações duradouras: ora se dá bem com um construtor civil, ora se dá bem com outro construtor civil. E isto das aventuras é giro, mas toda a gente gosta de assentar.

Já sei, há meia dúzia de lunáticos que defendem que a melhor maneira de os políticos se darem melhor com os cidadãos é através da política, propriamente dita. Mas isso é malta ingénua, que acredita que, se partilhar uma publicação no Facebook a dizer que ninguém pode copiar as suas fotografias, ninguém pode mesmo copiar as suas fotografias. Ou que se publicar uma fotografia num grupo secreto, ela é mesmo secreta. Políticos e cidadãos só vão lá com um bom arranjinho.

Um “Reality Show”
Ora, a minha ideia é contribuir para este arranjinho. Dado que toda a gente vê “reality shows” e há mais pessoas a comunicar com extra-terrestres do que a ver a “Assembleia da República TV”, proponho a criação de um programa de televisão com os políticos menos conhecidos da Assembleia da República. Nós temos 230 deputados e convidamos para este programa só os menos conhecidos, só aqueles quase anónimos. Ou seja, uns 210. E não esticamos muito o conceito, fazemos só 20 temporadas.

(fdecomite/Flickr)

Neste programa, os políticos vão discutir grandes temas da actualidade, como o Orçamento de Estado, o Serviço Nacional de Saúde, a Taxa Social Única, o uso das proteínas para o aumento da massa muscular ou a colocação de silicone em partes do corpo. Vão realizar tarefas diversas, tais como elaborar um plano para a Educação, para os próximos 20 anos, discutir o orçamento para o Ministério da Cultura, organizar uma festa temática sobre anos 80 ou fazer concursos de karaoke só com canções do David Carreira e do A. G. I. R. Finalmente, vão fazer coisas que realmente tenham importância para os restantes cidadãos, tais como falar mal dos outros, embebedar-se e ter relações sexuais.

Isto tudo, sem nunca esquecer o mais importante, aquilo que a maioria dos nossos deputados faz quando está na Assembleia: impedir que o se acumule pó no mobiliário e levantar-se da cadeira quando os mandam (neste caso, será a Voz a fazê-lo).

No fim, quem ganhar será premiado com um prémio simbólico: justificação para três meses de faltas às sessões na Assembleia.

Com este plano, os cidadãos poderão acompanhar de forma apaixonada a intriga de um “reality show”, ao mesmo tempo que formam opinião e se envolvem nas grandes questões dos nossos dias, tais como “Quem vai acabar na cama com quem?” ou “Qual o candidato que deve sair esta semana?”.

Assessores nomeados pelas Juntas de Freguesia
Outra das críticas feitas aos nossos políticos tem a ver com o facto de eles nomearem demasiados assessores oriundos dos seus partidos. Ou das suas famílias.

Quanto a isto, é simples: para cada lugar de assessoria que esteja livre, sorteamos uma freguesia que irá nomear o respectivo assessor. A freguesia vai a votos e será eleita uma pessoa cuja popularidade já foi testada entre a população local.

Em pouco tempo, teremos, certamente, um corpo de assessores que saberá jogar à “sueca”, que frequentará tascas e que terá participação assídua nos melhores torneios de futebol de salão. Que saberá mudar uma correia de distribuição num automóvel ou consertar um rádio transístor. Não demorará muito até que, enquanto um ministro discursa sobre o ordenamento do território, na inauguração de um centro de saúde, os jornalistas que acompanham o evento estejam apenas interessados em documentar a participação do assessor do ministro num grandioso torneio de “sueca”. Não faltarão directos sobre a ingestão de chouriço assado e de broa caseira, sobre a possibilidade de um dos jogadores ter feito uma renúncia ou uma passagem de ás, sobre o arremesso de uma caneca de vinho, por parte de um jogador a um adversário, nem faltarão, no final, as “entrevistas rápidas”, como fazem os treinadores, no final dos jogos.

Só temos a ganhar em tornar a política mais apaixonante, no fundo, mais parecida com o futebol e os “reality shows”. Até para que se fale menos de futebol e de “reality shows”.

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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Espere dois minutos sem explodir

Antes de elaborar sobre um tema que está no centro do debate político e, até filosófico, nos nossos dias, solicito ao leitor que aguarde dois minutos. Durante esse período, não pode fazer coisas que se fazem em dois minutos. Como abrir outra página. Ou  jogar no telemóvel. Ou limpar o pó, aspirar, mudar a cama, tirar os cortinados para pô-los a lavar, levar um casaco à lavandaria, pagar as contas do mês e arrumar aqueles papéis que estão na sua secretária desde 1932.

O tema que está a marcar a actualidade é, como toda a gente sabe, a incapacidade que o ser humano de hoje tem para esperar. Sim, esperar. Vivemos num tempo em que o Homo Sapiens Sapiens se está a transformar em Homo Sapiens Sapiens Non Esperens.

(Doug Waldron/Flickr)

Antigamente, os seres humanos viviam em pacatos aglomerados, muitas vezes sem luz eléctrica, e os cerca de 17 minutos por dia que tinham em que não estavam a trabalhar ou a cuidar dos seus 12 filhos, eram passados a contemplar a Natureza, a conversar à luz do candeeiro a óleo ou a assassinar o vizinho por causa de uns palmos de terreno. Tratavam-se, portanto, de seres humanos fundamentalmente contemplativos.

Hoje, o ser humano vive em aglomerados cheios de luz, onde há cada vez menos filhos e cada vez mais aparelhos eléctricos cheios de potencialidades, que permitem consultar a Internet e, com isso, aprender em vários campos do conhecimento científico, jogar, ver filmes e séries, ouvir música ou, num ou noutro raríssimo caso, quase já sem expressão estatística, ver pornografia.

Com tantos estímulos à sua inteligência, o Homo Sapiens Sapiens perdeu a capacidade para esperar e, por isso, tem que estar permanentemente a ser estimulado. Vou fazer uma pequena pausa, para que as mentes mais elaboradas façam um trocadilho sexual de qualidade fraca a moderada em torno da expressão “ser estimulado”.

[Início de pausa – Fim de pausa]

O ser humano moderno vai a um centro comercial e há fila para entrar no parque: pega logo no telemóvel para verificar se, nos oito minutos e meio em que esteve longe do aparelho, aconteceu algo extraordinário. Aparece um lugar para estacionar mas há alguém à sua frente que vai ficar com o lugar: o ser humano moderno pensa logo em quatro maneiras de matar essa pessoa, só para poder estacionar o carro. Entra numa loja e todos os funcionários estão com outros clientes: o ser humano moderno tem uma perda selectiva de memória, que apaga, fundamentalmente, as memórias relativas às normas de educação, e começa a ser arrogante e a dissertar sobre a gestão da loja, que passa a precisar, segundo os seus conhecimentos sobre gestão, de cinquenta funcionários adicionais.

O ser humano moderno vai viajar e tem que esperar no aeroporto. Felizmente, existem telemóveis com câmara e redes sociais, meios através dos quais o ser humano moderno passa o tempo a avisar os outros seres humanos modernos de que vai viajar de avião. O código usado para o efeito é incrivelmente simples: fotografa um avião. Se quiser ser mais misterioso, fotografa só a asa. E assim passa o tempo que, caso estivesse livre de ocupação, poderia levá-lo a iniciar uma série de homicídios na sala de embarque.

O computador demora um bocadinho mais e o ser humano moderno começa a barafustar, cuspindo assim em dezenas de anos de evolução tecnológica e esquecendo-se de que, há meio século, um computador ocupava um bairro inteiro, tinha menos memória do que um dente do siso do seu telemóvel e demorava seis semanas a calcular o resultado de seis a multiplicar por quatro.

O problema não está só nos seres humanos modernos adultos que desaprenderam de esperar: as próprias crias dos seres humanos modernos já são tranquilizadas com o seu ecrã táctil, onde podem sorver conteúdos da net, ao contrário das crias antigas, que passavam o seu tempo a destruir coisas de que os adultos precisavam, a olhar para caixinhas de música foleiras ou a ingerir ranhos.

Estamos a criar bombinhas-relógio. A próxima guerra mundial não se dará por divergências ideológicas ou por falta de recursos: vai acontecer porque alguém se vai cansar de esperar.

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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Partilha e não ganhes um iPhone

Todos os anos, é a mesma coisa. Chegado o Outono, as andorinhas partem em busca de um lugar onde tenham um clima agradável, uma vida mais tranquila e uma taxa de desemprego menos preocupante.

Peço desculpa, inadvertidamente, acabei por utilizar um parágrafo que estava planeado para um texto no qual iria dissertar sobre a migração da andorinha. Vou recomeçar.

Todos os anos, é a mesma coisa. Chegada a altura das promoções de Natal, os parques de estacionamento dos centros comerciais parecem saídos do filme do Godzilla, com pessoas a correr de um lado para o outro em pânico, carros a circular sem rumo e um adorável dinossauro a devorar pessoas na zona do parque denominada “Margarida Azul”. Mas esta parte do dinossauro é um pouco aborrecida.

Do que eu gosto mesmo, na altura das promoções de Natal, é da onda de partilhas que surge, no Facebook, de fotografias publicadas por páginas falsas de empresas de comércio de tecnologia que, supostamente, estão a oferecer iPhones. Basicamente, temos que colocar “Gosto” nessas páginas falsas e partilhar uma fotografia com a indicação, na legenda, da cor que queremos para o telefone. Depois, há um sorteio, realizado na cave do Centro Comercial de Engodos de Cima, situado ao lado do Supermercado “Oh Tário”, com presença de membros dos extintos governos civis e um gajo bruto que, caso alguma coisa corra mal, telefona a meia dúzia de amigos violentos.

(www.apple.com)

E aqui, a Internet desilude-me, não porque as pessoas sejam inocentes ao ponto de acreditarem numa trafulhice destas, mas porque ninguém escolhe cores exóticas. Toda a gente diz “Preto”, “Branco”, “Dourado”. Não se encontra uma alminha que escolha um telefone “verde ranho”, “azul cueca” ou “dourado dente d’ouro”. Nada. Esperava mais da Internet.

Voltando à inocência: acreditar que empresas da dimensão da Worten, da FNAC ou da Media Markt, que gastam fortunas em publicidade, nos mais diversos meios (entre eles, o Facebook), estariam na disposição de oferecer um iPhone em troca de partilhas, é o mesmo que acreditar que um país que tenha bombardeiros, caças, navios de guerra e mísseis esteja disposto a pagar por uma fisga. Ainda que a fisga seja de pau-brasil, bastante bem cotado no mercado, não justifica.

Meus amigos, quando uma empresa como estas quer divulgar uma mensagem, põe-na na televisão, na rádio, no Facebook, no YouTube, e ainda paga a uma velhinha adorável que irá tocar à tua campainha, para te oferecer um fresquinho bolo de chocolate e te avisar de que vai haver promoção no fim-de-semana.

Confesso que também esperava mais da parte de quem inventa estas páginas falsas. Não se vê uma página falsa de produtos de bricolage. “Partilha a foto e vamos sortear um jogo de chaves de fendas espectaculares, para desmontares o teu Opel Corsa de 98 ao Sábado de manhã.” Não se vê uma página falsa de produtos de higiene. “Partilha a foto e vamos sortear 286 sacos grandes de papel higiénico de seda, tripla folha.” Não se vê uma página falsa de serviços de acompanhamento emocional. “Partilha a foto e vamos sortear uma pessoa afável para te dar um ombro amigo.” Nadinha. É só iPhones.

Espero que esta moda acabe e que avancemos para um nível diferente: páginas de boas pessoas. Eu explico. As publicações dirão sempre “Eu sou uma boa pessoa e, se me deres todos os teus dados do cartão de crédito, para um estudo que estou a fazer e que visa determinar quantas pessoas têm um número do cartão terminado em 82, eu dou-te um iPhone".

De cor “dourado dente d’ouro”.

Aponto para 22 mil seguidores, na primeira semana.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Questionário para encontros sexuais de uma noite

Há dias, um amigo meu passou por uma situação muito complicada. “Foi assaltado?”, perguntam vocês. Não, não foi. “Foi atropelado?”, perguntam vocês, tão chatos que estão hoje, sempre a interromper, sempre a interromper. Não, não foi atropelado.

O meu amigo teve uma aventura sexual de uma noite e acordou, no dia seguinte, sem bateria no telemóvel e sem carregador compatível. Segundo o próprio, estava sozinho numa casa que não conhecia, situada numa rua que não conhecia, e onde não havia carregador de iPhone. O meu amigo confessou ter-se sentido completamente isolado no Mundo, sem saber se estava em Braga ou na Eslováquia, e deu por si perante uma decisão difícil: ir embora e parecer um insensível ou esperar pela miúda com quem tinha estado, mesmo não podendo contactar ninguém durante várias horas. Com o sentido de humor que o caracteriza, disse-me que, a partir daquele dia, iria perguntar sempre a uma miúda se tinha carregador de iPhone, antes de passar a noite com ela.

(jinterwas/Flickr)

A pensar neste caso, e em muitos outros que, infelizmente, acontecem todos os dias, sem que o Manuel Luís Goucha ou a Júlia Pinheiro dêem conta disso, ignorando completamente este flagelo, decidi criar um questionário. Depois de muito ter pensado, e de ter reduzido ao máximo o número de palavras, decidi dar-lhe o nome de “Questionário que deve anteceder um encontro sexual de uma noite que implique dormir em casa de uma pessoa estranha”. É um bom nome, tem algo de poético. Eis algumas das questões-chave.

De que marca é o teu telefone?
Não vale a pena explicar a importância desta pergunta.

Qual a tua opinião sobre o Governo?
Pode, aqui e ali, surgir um tópico sobre política em conversa de circunstância (a quem nunca aconteceu?) e é importante saber o que podes dizer sobre o Governo sem estragar o ambiente.

Qual o teu grau de preocupação com as questões ambientais?
Podes ir beber um copo de água ou comer uma peça de fruta e constatas que a pessoa com quem vais passar/passaste a noite não separa o lixo. Fica logo aquela sensação de repulsa no ar.

Qual a tua posição sobre as políticas relacionadas com a fiscalidade?
Imagina que, a dada altura, te apetece dizer que “Isto era taxar os ricos, que só sabem andar aqui a meter pó bucho” e não sabes se os pais da pessoa com quem vais passar/passaste a noite são magnatas.

Qual é o teu clube de futebol?
Imagina que, na jornada anterior, houve um lance polémico que dividiu o país a meio, nas discussões sobre arbitragem. É importante saber se te vais chatear por causa da opinião da pessoa com quem vais passar a noite.

Preferes cereais com leite quente ou com leite frio?
É uma questão que já vários pensadores colocaram e que deve manter-se na agenda, se queremos uma sociedade mais recomendável. Há pessoas que tomam cereais com leite quente e pessoas que tomam cereais com leite frio. Mesmo que não comas cereais (é o meu caso), deves ter uma opinião clara sobre o tema (na minha opinião, aquecer o leite é uma cobardia para com os cereais e quem o faz deveria ser punido). Não deves passar a noite com uma pessoa que não partilha a tua opinião sobre este tema.

Tencionas realizar alguma tarefa doméstica amanhã de manhã?
Imagina que te apetece dormir e a pessoa até se quer levantar cedo e aspirar. Vai dar chatice.

Tens lugar para estacionar? A tua rua é segura?
Ideal para evitar multas e/ou assaltos.

Tens alguma cadeira onde possa colocar a minha roupa?
Imagina que és muito picuinhas e não gostas de deixar a roupa no chão. Providenciar-te uma cadeira é o mínimo que a pessoa com quem vais passar a noite pode fazer.

Tens animais em casa?
Há pessoas que não ficam muito à vontade com animais por perto. Há pessoas, como eu, que adoram animais, mas são alérgicos (no meu caso, ao pêlo de gato). Aviso já que uma pessoa com o nariz a pingar perde uma boa parte da sensualidade. Pode nenhuma destas hipóteses se verificar, mas podes querer apenas precaver-te de que a pessoa com quem vais passar a noite possa ter um imponente Labrador que, para além de querer dormir contigo, tente ter relações sexuais com a tua perna. Ou mesmo contigo todo. Pode, ainda, nenhuma destas hipóteses se verificar e a pessoa com quem vais passar a noite fazer uma criação de tarântulas ou de cobras e esquecer-se de te dizer que duas delas desapareceram do terrário, no dia anterior.

Tens TV no quarto?
Importante para quem não dispensa cinco minutos de televisão antes de dormir.

Estas ou outras perguntas que te pareçam pertinentes devem estar gravadas no teu telemóvel e, uma vez que podes ficar sem bateria, numa grelha de Excel impressa, que podes usar nessa e noutras noites. Se isto não é serviço público, então não sei o que é.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Não queremos direitos a mais

O mundo, caro leitor, caminha para um futuro assustador, no qual estaremos entregues à nossa sorte, abandonados perante os caprichos do destino. Imaginem o que um tribunal do Reino Unido teve o desplante de fazer: condenou a Uber a pagar salário mínimo e férias aos seus motoristas.

(Nicki Mannix/Flickr)

Que horror. Como é que, em pleno século XXI, um tribunal comete a barbárie de atacar, com tamanha violência, uma empresa que trabalha de forma séria para garantir a sua sobrevivência. Mas esta canalhice não se fica por aqui: o tribunal, não contente com o grau de violência do seu ataque, foi mais longe, e determinou que o tempo de trabalho fosse contado atendendo ao tempo em que o motorista está disponível na aplicação, e não através da soma das durações das viagens. Sim, senhor, que bonito exemplo, senhor tribunal.

Quer dizer, uma empresazinha avaliada em mais de 40 mil milhões de euros esforça-se para ganhar a vida e vem um tribunal inventar regras tão século XX. Uma empresa “trendy”, com uma aplicação móvel toda “fancy” e carros todos “cosy”, voltada para o futuro, ainda tem de lidar com regras tão do passado.

Como é óbvio, a Uber quer recorrer. Estou a torcer para que consiga ser bem sucedida. E para mostrar como estou a torcer, vou tentar ajudar a Uber, propondo algumas ideias por cuja implementação a empresa deve lutar. Por um futuro melhor!

Horário
Para não dizerem que estamos a ser tendenciosos, o tempo de trabalho deve ser contado tendo em conta um qualquer factor externo. Por exemplo, o tempo de rotação de um planeta. Assim à sorte, Neptuno, que demora 16 horas a girar sobre si mesmo. A sério, foi mesmo à sorte. O horário deve ser tão flexível quanto possível. Ser flexível é ser capaz de dobrar. Logo, o horário deverá, por princípio, ter horas a dobrar. Mas ser flexível é, também, ser capaz de dobrar sem partir. Logo, o trabalhador deve dobrar as horas sem partir para férias. E deve estar contactável 24 horas por dia. Tipo James Bond, mas sem as mulheres bonitas e as armas sofisticadas.

Remuneração
O trabalhador tem direito a uma remuneração digna e deve receber tudo até ao último cêntimo. No entanto, e como as empresas modernas se preocupam com os seus trabalhadores, o trabalhador irá receber numa conta bancária que só a empresa controla e que será gerida por um grupo de gestores espectaculares. Desta forma, os trabalhadores não gastarão o dinheiro em coisas inúteis, como em jantaradas, copos ou água canalizada.

Aumentos salariais
Os aumentos serão alinhados, não só, com a inflação, mas também com a Bolsa de Tóquio, o casino Bellagio, em Las Vegas, o valor de mercado do ouro, dos diamantes e do passe do Cristiano Ronaldo. Mesmo que todos estes indicadores apontem para um aumento, este só acontecerá se a empresa tiver crescido, no ano anterior, 15000%, de forma a evitar problemas de tesouraria que coloquem o futuro da empresa em risco. Nenhum trabalhador quer que a empresa feche…

Negociações
Os trabalhadores poderão, em qualquer momento, negociar com a administração da empresa que os emprega. Porém, para garantir que transmitirão a mensagem da melhor maneira, a empresa contratará um assessor de comunicação. Este irá convencer os trabalhadores de que terão mais benefícios, por exemplo, ao emitirem um comunicado a dizer que estimam as qualidades pessoais e profissionais dos administradores, do que a fazerem coisas sem qualquer sentido, como pedir melhores condições de trabalho.

Greve
Os trabalhadores têm direito à greve. Já as manifestações, como dão cabo do trânsito (e a Uber preocupa-se, particularmente, com a questão do trânsito), deverão ser realizadas no “Manifestódromo”, um recinto que será construído pelas empresas, nas Ilhas Phi Phi (Tailândia), para garantir todas as condições necessárias a uma manifestação como deve ser.

Baixa
Quando um trabalhador estiver doente, receberá o salário na íntegra. Mas, como a doença poderá diminui-lo das suas faculdades mentais, o dinheiro será gerido por um “gestor de desgraças”, que comprará medicamentos, mantinhas, bolachas e chá, entre outros bens, e que fará companhia ao doente, enquanto este vê o futebol ou a novela da noite. O dinheiro que sobrar, no fim da baixa, ficará guardado pela empresa, durante 30 anos, porque o trabalhador poderá ter uma recaída.

Despedimento
Sempre que uma empresa quiser despedir trabalhadores, os trabalhadores poderão lutar pelo seu posto de trabalho. Nomeadamente, num concurso televisivo, tipo “Jogos sem Fronteiras”. Ganham todos: o trabalhador pode safar-se do despedimento; a empresa consegue uma boa fonte de rendimento, ao vender os direitos televisivos.

Eu sei, eu sei, estas ideias são utópicas. Mas eu não desisto de lutar por um mundo melhor, por um mundo em que uma empresa modesta, com o a Uber, pode trabalhar sem ser incomodada. Não desistamos, camaradas, até porque o nosso camarada Donald Trump pode vencer as eleições.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O Facebook é um creme de notícias

O Facebook, para mim, é uma espécie de creme de notícias. Passo a explicar: estão a ver aquela sopa passada, cheia de nível, que servem nos casamentos, antes do prato de peixe, do prato de carne e daquele primo da noiva deixar cair um bocado de vinho na camisa? Sim, o creme de legumes. O Facebook é um creme de notícias. Mas sem o nível do creme de legumes.

(Silke Remmery/Flickr)

Percorrendo o nosso feed, podemos ficar a conhecer “notícias” com bem díspares graus de interesse e de credibilidade. Podemos ficar a saber mais sobre o Orçamento do Estado, sobre a situação entre os Estados Unidos e a Rússia, ou sobre o facto de um especialista em gastronomia achar que o prémio Nobel da Literatura poderá vir a ser atribuído a um funcionário de um restaurante, pelo facto de ele declamar, como se fosse poesia, quais os pratos do dia e em que consiste o “Bacalhau à Gomes de Sá”, o “Polvo à Lagareiro” ou a “Lampreia à Bordalesa”.

Antigamente, as pessoas que queriam saber as notícias eram umas malucas e iam aos sites de notícias. Agora, vão ao Facebook. Só que ir ao Facebook para saber notícias é o mesmo que ir ao talho para comprar uma escultura: no fim, não trouxemos escultura nenhuma, mas sempre se arranjaram, por excelente preço, duas costeletas e um bife da rabada.

Vamos fazer de conta que o espaço que se segue é um feed do Facebook e vamos simular uma possível sucessão de “notícias”.

“PS, Bloco e PCP chegam a acordo sobre Orçamento para 2017”

“Comer nozes ao pequeno-almoço reduz a irritabilidade”
O estudo da Universidade de Ésmesmoparvo, na Roménia, conclui que comer nozes ao pequeno-almoço também reduz a vontade de comer nozes durante a manhã.

“Empresário avança com 10% acções do Novo Banco para pagar a compra de um restaurante”
Esta nota-se logo que é falsa, porque com 10% das acções do banco, o deputado apenas conseguiria pagar as azeitonas.

“Ler ao lado de um gato aumenta os níveis de concentração”
Um estudo da Universidade de Nãotensmaisnadaparafazer, na Noruega, conclui que, caso seja alérgico ao pêlo de gato, o leitor também aumenta os níveis de concentração de muco nasal.

“Cresce a tensão entre Estados Unidos e Rússia”

“Homem descobre 82 rubis num armário no sótão”
Afinal, eram baratas.

“Escócia pondera referendar a saída do Reino Unido”

“A Apple vai oferecer 150 iPhones aos primeiros a partilharem esta publicação”
Esta é das minhas preferidas. Uma das mais valiosas empresas do Mundo precisa mesmo que as pessoas partilhem uma publicação no Facebook, para obter algum ganho de marca… A minha dúvida, quando as pessoas partilham este tipo de campanha fraudulenta, é se elas me dariam o seu dinheiro todo, se eu lhes batesse à porta a dizer que vinha aí uma invasão de espanhóis e que eu tinha um sítio seguro onde guardar o dinheiro.

“Hillary Clinton à frente nas sondagens”

“Ar de Pequim está tão poluído que um homem dissolveu-se em plena rua. Clica para que se abram seis janelas de spam, se instalem quatro spywares no teu computador e possas, enfim, ver o vídeo”
O povo depois vê um vídeo em que não acontece nada e está tão disposto a acreditar que diz “Não se vê o homem, é porque já se dissolveu”.

“Primeira-Ministra britânica anuncia plano para o Brexit”

“Abraçar pessoas gordas reduz os níveis de CO2 na atmosfera”
Um estudo da Universidade de Sóumpalermacainisto, em Itália, diz que, se todos os chineses abraçassem um gordo, todos os dias, não precisávamos de limitar a emissão de CO2. O professor que conduziu este estudo pesa 136 Kg.

“Depeche Mode em Portugal, em 2017”

“Depois de queimado com ácido sulfúrico, homem melhora com chá de cidreira”
Melhora da ardência no estômago, provocada pelos fritos que comeu, porque o braço queimado foi quase para o galheiro.

“Tesla lança o novo carro eléctrico”

“Comer cebolas de manhã reduz o máu hálito matinal”
Substituindo-o pelo máu hálito de fim de almoço.

“Jogar à malha é melhor do que ir ao ginásio”
Um estudo da Universidade de Tuquereséborga, na Alemanha, concluiu que a malha permite queimar mais calorias do que uma hora de ginásio. Se os ginásios sabem disto, acrescentam, às aulas de cycling, bodycombat, pipelining, soft printing, stupid jumping e cream cracking, as aulas de malha. Peço desculpa: aulas de “malhing”, assim é que está certo.

Partilhar, de forma acrítica, qualquer tralha que apareça no Facebook até me parece inofensivo. Sobretudo, se comparado com acender um isqueiro para encontrar uma fuga de gás.

domingo, 23 de outubro de 2016

A Loja dos Cidadãos

Se as lojas de brinquedos vendem brinquedos, a Loja do Cidadão deveria vender cidadãos. Não, não estou a falar de tráfico de seres humanos. Para isso, bastam as juventudes partidárias, que pegam em jovens imberbes inconscientes e formam-nos, até eles se tornarem barbudos inconscientes detentores de cargos públicos, com direito a assessor e ajudas de custo.

O que eu pretendia era que a Loja do Cidadão, para além de nos permitir fazer o Cartão do Cidadão, tratar de papelada, pagar contas e conhecer uma vasta gama de odores oriundos do corpo humano, vendesse pessoas artificiais. Não, não estou a falar da Maria Leal. Falo de algo que parecesse humano, mas não fosse. Não, não estou a falar do cabelo do Donald Trump. Refiro-me a robôs humanóides.

Poderíamos, em qualquer situação, e sem sair do lugar, encomendar um cidadão artificial, através de uma app. Era tipo Uber, mas sem nos arriscarmos a levar na tromba de um taxista que estivesse a passar. Para que serviria esse cidadão? Pois bem, para tarefas várias.

(Jiuguang Wang/Flickr)

Viajar ao lado de um passageiro chato
Estás a viajar de comboio e ao teu lado está uma senhora adorável que já te mostrou as fotografias dos filhos e do neto, trocou três vezes os nomes deles, falou-te do canário amarelo que canta em Dó sustenido, disse seis vezes que “isto é uma vida” e quatro que “ele dá chuva para amanhã”. Já te perguntou três vezes qual o teu nome, disseste nomes diferentes em todas elas e ela respondeu sempre que tinha um sobrinho com esse nome. Estás farto de a aturar e só querias ler o teu livro. Requisitas um cidadão artificial para a estação seguinte. Ele entra no comboio, vai para o teu lugar e tu para o dele. Três estações depois, ele atira-se à linha, mas como é um robô, pode ser reparado.

Passar a ferro
Chegas a casa e tens uma dúvida existencial profunda: será que o número de escalões do IRS é adequado para que se garanta uma maior equidade fiscal? Sem resposta a esta dúvida, avanças para outra: ver um episódio da tua série do momento ou passar a ferro? Fácil: encomendas um cidadão artificial para passar a ferro e tu vais ver a série. Importante: não deixar que o cidadão artificial passe a ferro na mesma divisão da casa em que vês a série, senão, um dia, chegas a casa e ele está a ver a série, enquanto enche o teu sofá de migalhas de batatas fritas e já depois de ter fumado dois cigarros lá dentro.

Ir às compras
Não te apetece andar de carrinho, de um lado para o outro, e passar pela secção dos lacticínios, pela das massas, pelo talho e pela peixaria, por aquele senhor gordo que ocupa mais espaço do que o carrinho, por aquele puto que está a colar ranhos na fruta, por aquela senhora que já tirou a carta de ligeiros, mas não de carrinhos de supermercado. Só tens que mandar um cidadão artificial. Mas cuidado, especifica que não queres um vegetariano. Senão vais passar uma semana a mandar tofu e soja para o bucho.

Jogar à bola
Quem já jogou à bola com amigos, sabe como é dramático faltar um jogador. Até se pode realizar o jogo, mas jogar contra uma equipa que tem um jogador a menos é como roubar fruta no quintal de uns velhotes: nem dá pica, nem te podes gabar dos teus feitos. O cidadão artificial requisitado para ser o jogador que faltasse seria como o FIFA: daria para regular o grau de dificuldade. Ou seria possível, também, pô-lo à baliza o jogo todo sem que ele se queixasse. Com tempo, poderia vir a substituir definitivamente aquele que é, notoriamente, o pior jogador do grupo (há sempre alguém assim).

Ir ao cinema
Uma das minhas convenções sociais preferidas, depois da obrigatoriedade de dizer alguma coisa, quando alguém espirra, é que não se pode ir ao cinema sozinho. A não ser que se pretenda praticar a chafurdice de cariz sexual (e mesmo assim, o cinema pode não ser o local ideal, porque ficar com pipocas na virilha deve ser desagradável), numa sala de cinema é suposto estar-se hora e meia/duas horas, em silêncio, a olhar para um ecrã. Ao lado, é igual estar uma pessoa amiga ou uma réplica da Estátua da Liberdade (com os dois braços para baixo, senão o pessoal da fila de trás não vê). Mas se, surpreendentemente, precisasses de companhia para ir ver aquele filme independente produzido na Mongólia e que retrata a colheita de arroz no Vietname, requisitavas um cidadão artificial. E poderias escolher um que não gostasse de pipocas, para não teres que as dividir.

És obsessivo-compulsivo, mas estás com preguiça
Contratas um cidadão artificial e ele organiza os teus livros por ordem alfabética, a tua roupa por cores, as tuas plantas por espécie, a tua despensa por tipo de produto e data de validade e os filmes que tens no computador por género. Só não organiza os filmes de pornografia porque estão num disco externo escondido.

Fazem-te a pergunta mais irritante de sempre que, como toda a gente sabe, é: “E de resto?”
Dizes “Espera um bocadinho” e requisitas um cidadão artificial. Activa-lo para a função “E de resto?” (todas as unidades virão preparadas para essa função) e o cidadão conta, à pessoa que te fez a pergunta, a história do Universo, com todos os detalhes matemáticos, físicos e químicos que marcaram a sua evolução, sem esquecer as diversas civilizações e dinastias que a História costuma destacar. Falará, também, um pouco de Filosofia, para dar conta das principais correntes do pensamento humano, e terminará com breves apontamentos de Economia, tão úteis para entendermos o mundo em que vivemos. Depois desta compilação de oito horas, a pessoa que te perguntou “E de resto?” nunca mais cometerá essa atrocidade.

Já sei, já sei. Está tudo a pensar “E sexo? O cidadão artificial não poderia ser requisitado para praticar sexo?”. Não, seus ordinários, pela simples razão de que, se o Estado se metesse nesse negócio, teríamos os donos dos bordéis nas ruas. E uma jornada de luta dos bordéis causaria mais congestionamento do que uma greve dos transportes.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Mundify: playlists com pessoas a debater cenas

Hoje em dia, temos acesso fácil a tudo: há milhares de vídeos de gatinhos fofos no Youtube, uma infinidade de discografias no Spotify, carradas de documentos de pessoas que fogem ao fisco, nos “Panama Papers”. E uma nova perspectiva do rabo da Kim Kardashian, todos os dias.

Uma vez que o rabo da Kim é como um dicionário, definindo-se a si mesmo, gostaria de elaborar um pouco mais sobre o Spotify. Esta bonita plataforma tem, logo à partida, a vantagem de não colocar os taxistas a varrer tudo ao pontapé. Logo aí, ganha pontos ao Uber.

Depois, permite explorar discografias de grandes nomes, como U2, Queen, Rolling Stones ou os D.A.M.A.; David Bowie, Frank Sinatra, Nina Simone ou o A.G.I.R.

Já agora: D.A.M.A. e A.G.I.R.? Que treta é esta das siglas? Não bastava os músicos da nova vaga terem música difícil de se gostar, também tinham que ter nomes difíceis de entender? Uma coisa é certa: se desaparecerem da ribalta, na música, pelo menos já têm bons nomes para movimentos cívicos. Movimentos que lutem, por exemplo, contra músicas como aquela que diz “ela é linda sem makeup”.

Inspirado no Spotify, gostaria de apresentar uma ideia para que alguém com conhecimentos técnicos, dinheiro e parvoíce suficientes possa realizar. Falo do Mundify, uma plataforma com playlists de pessoas a falar sobre todos os temas possíveis. Tudo isto, sem o pessoal que trabalha no Spotify faça um protesto em que ande com tudo ao pontapé.

(TVZ Design/Flickr)
O Mundify seria um espaço incrivelmente democrático, onde as pessoas poderiam falar até de assuntos dos quais não percebem nada. Como, por exemplo, o Cristiano Ronaldo a falar de literatura, a Ana Malhoa a falar do problema do Médio Oriente ou o Passos Coelho a falar de política. Neste ponto, Miguel Sousa Tavares não poderia de falar de um assunto do qual não percebesse nada, pela simples razão de que ele é extraordinariamente versado em todos os temas.

Poderíamos ouvir, por exemplo, Jorge Jesus a ler Shakespeare em Inglês. Do séc. XVII. Poderíamos ouvir uma aula de uma das maiores personalidades do meio académico português. Falo, obviamente, de Miguel Relvas, que tira uma licenciatura e meia enquanto Jorge Jesus lê o “Hamlet” (em Português da Amadora do séc. XXI). Poderíamos ouvir uma playlist do PCP, que consistiria em ouvir sempre o mesmo discurso, mas dito por vozes diferentes, como se fosse o Google tradutor (discurso esse que teria, muitas vezes, o mesmo sentido que as traduções feitas no Google tradutor). Poderíamos ouvir a malta do CDS a defender grandes causas do nosso tempo, como os direitos dos grandes capitalistas oprimidos pelos governos de esquerda, a importância das touradas para as ganadarias ou a crise da equitação nos colégios privados.

Mas o que tornaria o Mundify verdadeiramente democrático seria a possibilidade dejuntar os cidadãos anónimos ao coro de vozes participantes. Imagina que podias desafiar o teu tio Júlio a criar um podcast sobre temas fracturantes, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o aborto, a eutanásia, a despenalização das drogas leves ou a importância de ter um tio Júlio, sem poder utilizar expressões como “isto é tudo um bando de [completar]” ou “era metê-los num barco”. Imagina desafiares a tua tia Ermelinda a dissertar sobre as festas de “swing” e os bares de strip sem poder utilizar a expressão “pouca vergonha”.

O Mundify seria um sucesso. A Kim Kardashian talvez não achasse, mas isso é porque não é preciso falar para mostrar o rabo a milhares de pessoas. É tão fácil como ter uma conta no Instagram. Ainda bem.