segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Queimar notas faz calor

Luoyang é uma cidade chinesa onde é utilizado um método pouco convencional de obtenção de energia: icineração de notas que já estão fora de circulação. Uma investigação do Texto Incompleto permitiu descobrir que houve um longo processo, durante o qual foram testadas várias formas de produzir energia, até ser descoberta esta técnica.

(Thomas's Pics/Flickr)

Primeira fase: muitos habitantes a correr em cima de passadeiras
Esta fase até começou bem. Dava para alimentar a cidade e vender alguma energia à cidade vizinha. Depois, acabou o Verão e o pessoal começou a desleixar-se, a não querer saber se tinha mais um bocado de barriga, e começou a ficar com preguiça. Em pouco tempo, apenas duas pessoas corriam nas passadeiras. E só para provar que, mantendo aquele movimento infinitamente, uma atrás da outra, nunca iriam colidir.

Segunda fase: todos os habitantes davam um salto, às 10h30 e às 18h30
Nunca chegou a correr bem: o pessoal tinha os relógios dessincronizados. O que acabou por provocar vários terramotos, tanto em Luoyang como nas cidades vizinhas. Gerou energia, mas gerou mais estragos.

Terceira fase: tudo a dançar kizomba, às 10h30 e às 18h30
Esta técnica foi a que mais produziu calor, mas teve que ser abandonada, porque produziu, sobretudo, muitos bebés. Este pessoal asiático, pouco habituado à sensualidade das danças africanas, reproduziu-se desenfreadamente. Os responsáveis políticos da cidade fizeram as contas: mais energia, mas mais povo para aquecer, se calhar, não compensava.

Quarta fase: toda a gente fazia um churrasco ao mesmo tempo
Esta técnica até teve algum ganho energético, mas foi desastrosa para a saúde pública. Os autocarros e as carruagens do metro tiveram que ser aumentadas, porque todas as pessoas ficaram gordas. Gastava-se imensa gasolina nos transportes. Tiveram que esperar pelo Verão, para que toda a gente voltasse às passadeiras.

Um dia, um líder local, multimilionário, vinha bêbado pela rua e começou a queimar notas, virado para um bar, para mostrar que era muito rico. Estava uma noite de Inverno e algumas pessoas aproximaram-se da fogueira, por causa do calor.

- E se usássemos notas para produzir calor? – Perguntou um gajo.

- Ei, pois é, queimávamos notas velhas. – Respondeu uma mulher.

- Eu estava a pensar em usar as notas para comprar aquecedores, mas tiveste uma boa ideia. – Respondeu o gajo.

Hoje, o método é um sucesso. Mas ainda há duas pessoas nas passadeiras, a tentarem provar que não vão colidir, mesmo que corram para sempre.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Quero todos os legos do planeta

As mulheres querem ser mães porque a Natureza as programou para tal. Querem passar pela extraordinária experiência de ter, dentro do seu corpo, uma nova vida a desenvolver-se. Querem ter o bebé no colo, querem aquela cumplicidade inquebrável entre mãe e filho. Querem ser mães, ponto.

Um gajo quer ter filhos para ter uma boa desculpa para voltar a comprar brinquedos. 

Ontem estive numa loja de brinquedos, para comprar a prenda de um sobrinho e, tal como tinha decidido, procurei brinquedos da Lego.

(Do-Hyun Kim/Flickr)

No momento em que entrei na respectiva secção, a minha vida mudou. Apeteceu-me comprar todos os legos, ir para uma ilha deserta e passar o resto da vida a construir naves e carros de Lego.

Claro que esta ideia é estúpida: se fosse para uma ilha deserta, deixaria de poder voltar a comprar Lego.

Fiquei a pensar que o Mundo seria um lugar mais agradável se todas as pessoas brincassem com Lego. Primeiro, porque todos teríamos com quem construir cidades e castelos. Depois, porque as pessoas teriam menos stress.

Imaginem o Presidente dos Estados Unidos, no meio de uma reunião de crise, a dizer: “Meus senhores, sei que temos mísseis apontados a Washington, Nova Iorque e Los Angeles, mas já combinei com o Presidente da Rússia e não vai haver lançamento durante o dia de hoje, porque vamos fazer uma competição de construção em Lego”.

O Mundo teria menos problemas.

Um Primeiro-Ministro revelaria que duas grandes obras tinham sido canceladas, por falta de verbas, mas acrescentaria: “Nem tudo está perdido, acabámos de comprar vinte mil baldes de Lego, pelo que haverá sempre algo para construir”.

O Mundo teria menos problemas.

O presidente de uma empresa gigante, depois de um dia de queda na bolsa, reunia com a administração e dizia: “Pessoal, temos um assunto muito importante para discutir. Preciso de tomar uma decisão crítica. Não sei se construo, em Lego, o carro do Batman ou uma nave do Star Wars. E não saio desta sala enquanto não houver uma decisão”.

O Mundo teria menos problemas.

Talvez o Mundo tivesse um problema, se o Lego sempre tivesse existido: Leonardo Da Vinci, Galileu, Einstein ou Salvador Dalí não teriam tido tempo para revolucionar a Ciência e a Arte.

Mas teriam feito umas casas bem fixes. Ou naves, no caso de Da Vinci. Ou coisas, no caso de Dalí.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Um dia na vida de um cão

O silêncio de um sono profundo. O barulho horrível de um despertador. O Bobby acorda e olha para a cama do dono. Começa um dia, na vida de um cão.

(Mattias Handley/Flickr)

“Não percebo esta gente. Têm aquilo a tocar de manhã, que seca, podiam pôr durante a tarde. Pensando bem, de tarde eu durmo, também ia incomodar. À noite é chato, porque eles tentam dormir. Mas aquilo é uma boa porcaria. Apetecia-me roer aquele despertador. Se não tivesse apanhado um choque, ao roer o fio das luzes do pinheiro de Natal, quando era pequeno, roía-o já. E também já não tenho os dentes de um cão com dois anos. Naquele tempo é que era: roía as pernas das mesas e das cadeiras. Agora, até a comida de cão tem que ser passada. Faz-me lembrar o Farrusco, ali da esquina, que já usa placa. Noutro dia, ficou com os dentes espetados numa bola de borracha. Os gatos brincaram com os dentes dele toda a tarde.”

O dono sai da cama e vai para o banho.

“Os humanos são misteriosos. Inventaram os carros, as naves espaciais, a internet e o telemóvel, mas acordam com uma caixa barulhenta e vão para a banheira, logo a seguir. Nunca percebi para que serve tomar banho. Levar com água no focinho. Os tubarões cheiram a peixe e são os reis do mar. Os ursos não tomam banho e deitam árvores abaixo só com um peido. O leão não toma banho e come zebras. Os humanos tomam banho e têm gripes. Sou só eu a ver as evidências?”

O dono toma o pequeno-almoço.

“Vá lá, dá-me um bocado de pão. Eu sei que faz mal, mas tu também fumas e isso é pior do que pão. Deixa-me os sofás a cheirar a tabaco, ainda por cima. Já não durmo naquele sofá há quase um ano. Se não tivesse ficado mal disposto, quando comi uma almofada, em pequeno, roía o sofá. Vá lá, dá-me um bocado de pão.”

O carteiro toca à campainha.

“Au, au, au, au, au, au… Não sei quem é este gajo, até parece ser útil, porque traz umas cartas e tal. Mas um desconhecido à porta activa-me aqui uma zona do cérebro que me faz ladrar. Olha ali uma bucha de pão, vou só ali… (A campainha toca) Au, au, au, au, au, au… Ladrar a um desconhecido é tipo espirrar muitas vezes: é irritante mas viciante.”

O Bobby vai à rua.

“Vou à rua? Vou à rua! Vou à rua! Vou à rua! Fazer xixi em todos os sítios possíveis. Até em cima de um gato. Assim, o território fica todo marcadinho. E o gato fica a cheirar mal. Ei, olha um gato. Se não tivesse ficado com espinhos na garganta, em pequeno, depois de ter comido um ouriço, comia aquele gato. Não vou olhar para ele, nem ladrar-lhe, para ele ficar… Au, au, au, au, au, au… É mais forte do que eu.”

O dono sai de casa.

“Sou o dono desta casa. Eu é que mando. Posso fazer o que quiser. Posso rebolar no sofá. Roer um chinelo. Posso fazer uma visita ao despertador. Ah, eu é que mando…”

O Bobby dorme toda a tarde. O dono chega.

“Ei, dormi a tarde toda, não aproveitei nada… Espera… Vou à rua? Vou à rua! Vou à rua! Vou à rua!”

Antes de sair, o dono vai ao quarto e vê o despertador no chão. Chama pelo Bobby.

“Ei, merda, vou fazer de conta que estou a dormir… Ele é capaz de nem reparar em mim, aqui no tapete da entrada.”

 Alguém toca à campainha.

“Au, au, au, au, au, au…”

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A revolta do mexilhão

Noticiava o Público online, no dia 4, que “Portugal é o primeiro país mediterrânico com mexilhão sustentável”. Li o título três vezes, para despistar qualquer engano meu. Era mesmo aquilo.

No dia seguinte, a mesma fonte citava Passos Coelho, que dissera que “apesar da crise, quem se lixou não foi o mexilhão”.

Peguei no telefone e fiz todos os esforços para chegar a um contacto: o Texto Incompleto conseguiu uma entrevista exclusiva com o representante dos mexilhões portugueses.

(Dmitry Lyakhov/Flickr)

- É verdade que quem se lixou não foi o mexilhão?

- Não é bem assim. Não está fácil ser mexilhão em Portugal. Um gajo paga os impostos, põe os filhos a estudar e acaba no prato de um turista inglês. Não está fácil.

- Mas, tanto quanto sei, o mexilhão é sustentável em Portugal.

- È o mexilhão grande. O que tem dinheiro. São mexilhões que nascem em casca de ouro. Têm tudo feito para serem bem sucedidos. Metem-se nos partidos e arranjam tachos bons. Nós só arranjamos tachos de restaurantes visitados por turistas ingleses.

- E não houve melhoria, nos últimos anos?

 - Tal como acontece com as pessoas, na nossa sociedade há um sentimento de que só os foleiros se safam. E sabe porquê? Porque os turistas ingleses não comem mexilhões foleiros.

- Qual é o modelo de sociedade que defende?

- A do mexilhão inglês.

- Por causa do serviço de saúde? Do sistema de educação? Da carga tributária?

- Não, porque os ingleses não comem mexilhões da terra deles e vêm comer os mexilhões portugueses.

- Mas só me vai falar dos turistas ingleses? Isto é uma entrevista séria.

- Tem razão, peço desculpa. É importante falar de outras coisas como, por exemplo, o mexilhão que acaba no prato de um turista alemão.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O meu carregador do iPhone

Uma das características mais comuns, entre os utilizadores do iPhone, é a dependência do carregador. Um utilizador deste tipo de telefone precisa tanto do carregador como o próprio telefone. Tal fica a dever-se a dois factos: a bateria do iPhone dura 17 minutos e um carregador compatível é mais raro do que uma trufa.

(Stéfan/Flickr)

Aliás, se é verdade que existem porcos treinados para encontrar trufas na floresta, não é menos verdade que já haja quem os treine para encontrarem um carregador.

Conheço um bar onde os clientes se digladiam por uma ficha, por um carregador, por mais cinco pontos percentuais de bateria. Pergunto-me como teriam sido alguns momentos da História, se o Iphone existisse.

Construção do Muro de Berlim
“Vamos dividir a Alemanha em duas, que isto está cheio de má vizinhança.” O muro é construído, famílias são separadas. De repente, uma figura de proa do Governo repara que deixou o seu carregador do outro lado. Muro abaixo e, em minutos, uma só Alemanha, famílias reunidas, bateria a carregar.

Ida à Lua
Milhões de dólares investidos no programa espacial, vaivém lançado com sucesso. Neil Armstrong pega no iPhone e nota que não tem bateria. Pede um carregador a Buzz Aldrin e fica a saber que este também não tem nenhum. Missão abortada, trajectória invertida e vaivém de regresso. Ao enfrentar os jornalistas, Armstrong justifica-se: “A Lua pode esperar, estou com 3% de bateria”.

Crise do petróleo de 1973
A Organização dos Países Produtores de Petróleo supervaloriza o “ouro negro”. A economia mundial pode colapsar. Porém, durante uma cimeira que se previa inconclusiva, um governante de um daqueles países está prestes a ficar sem bateria no iPhone. Pede a um assessor para lhe trazer um carregador. “Não temos carregadores.” O pânico instala-se e, rapidamente, há um acordo para baixar o preço, de uma vez, porque os telefones estão com uma média de 8% de bateria e é preciso ir carregá-los. A economia mundial tem uma segunda oportunidade.

Golo de Maradona à Inglaterra, no Mundial de 1986
No Estádio Azteca, na Cidade do México, um argentino filma o jogo com o seu iPhone. Diego Maradona recebe a bola no meio-campo, faz uma rotação e arranca, deixando dois adversários para trás. Até à grande área, deixa mais dois, enfrenta o guarda-redes e tira-o do caminho. O iPhone desliga-se, sem bateria, e o golo não é filmado. Depois desse dia, o adepto argentino entra numa espiral descendente, pela dependência do carregador. Nunca mais consegue sair de casa, com medo de ficar sem bateria.

E se o Batman tivesse um iPhone?

O Homem-Morcego vai na Batnave até ao centro de Gotham City, aterra no topo de um arranha-céus, desce na batcorda até à rua, entra no batmóvel, persegue um grupo de bandidos até um armazém, entra sem ninguém dar por ele e neutraliza todos os criminosos. Todos, menos um, porque no momento decisivo, pega no iPhone, para chamar a polícia, nota que está sem bateria, procura o batcarregador, mas não o tem consigo. Volta rapidamente ao carro, procura o carregador de ligar no isqueiro, mas nem esse traz. Volta para casa e, por uma noite, o crime vence em Gotham.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

E se os heróis fossem passear?

Durante este fim-de-semana, decorreu em Matosinhos a Comic Con, uma conferência dedicada à banda desenhada, aos filmes, séries e videojogos. Nos Estados Unidos, existe uma grande tradição de aparecerem fãs vestidos a rigor, imitando as suas personagens favoritas.

E se as personagens fossem à Comic Com?

(JD Hancock/Flickr)

Batman
O Cavaleiro Negro chega no seu Batmóvel. Um fã olha para o carro, uma peça de artilharia com quase mil cavalos de potência e diz “Grande coisa... Em 2005, um gajo trouxe um carro melhor. Mesmo aquele fato… Nunca passaria por Batman, este banana”. O Batman percorre os vários stands da feira e ninguém lhe presta atenção. Um miúdo chega junto dele e diz: “O Batman é mais alto. Aposto que te dava uma tareia”.

Super-Homem
O último filho de Krypton chega a voar. Um fã, vestido de Homem-Aranha, comenta com um amigo que “aquele voar é um planar foleiro”. “Aquilo foi inventado há uns anos, parece que o truque é os fios serem fininhos e transparentes”, acrescenta. Um carro despista-se, embate numa torre de iluminação e esta cai em cima do Homem de Aço, estilhaçando-se. “Boa, uma torre de esferovite. Faz-se muito no cinema”, comenta o fã.

Hulk
Bruce Banner vai à Comic Con. Ninguém dá pelo cientista que, quando se enerva, se transforma num monstro verde. Visita vários stands, tira fotografias com alguns bonecos que encontra na feira, vai comer um cachorro quente a uma barraca, faz um telefonema, compra alguns livros de banda desenhada e vai embora. A três quilómetros da Comic Con, um gajo bate no carro dele e ainda o insulta. No dia seguinte, nas notícias, é dito que Hulk voltou a aparecer, deixando um rasto de destruição à sua passagem.

Darth Vader
O lendário vilão de “Star Wars” chega e faz-se silêncio. Ouve-se aquela respiração característica. Toda a gente sente a presença da Força. Ninguém se mexe. Darth Vader move alguns objectos, com o poder da mente, da Força e de um gajo que decidiu arrastar um vaso, por estar no meio do caminho. De repente, toca o telemóvel do vilão. Era o mecânico. “Pode vir buscar a sua Estrela da Morte. Era um problema nos injectores, está como nova, pronta para explodir com os planetas. São 150 mil euros”. A Força começa a sofrer perturbações...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

E se as coisas mudassem de lugar?

E se, um dia, acordássemos e os pombos dissessem poemas de Fernando Pessoa, em vez de fazerem cocó nas estátuas? E se eles dissessem poemas, enquanto faziam cocó nas estátuas? Com ou sem cocó, ganhava a poesia e a cultura, em geral. E isso também é bonito.

Bom, isto não vem ao caso, porque o cenário que gostaria de elaborar tem a ver com linguagem, sim, mas não com aves. E se, um dia, os escritores trocassem de discurso com os treinadores de futebol? Teríamos um dia divertido.

(JD Hancock/Flickr)

Treinador a falar como um escritor
A equipa tem que sentir alguma coisa, tem que sofrer, tem que se superar. Temos que transmitir uma mensagem, com o nosso futebol. Temos que representar o nosso tempo, o nosso viver, a nossa alma, enquanto povo. Temos que afirmar uma certa contemporaneidade, no nosso jogo. Temos que questionar o sentido do próprio jogo, quebrando barreiras, avançando, criando. Jogar, hoje, é questionar. O jogo caminha para uma ausência de jogo. O vazio é o único destino.

Escritor a falar como um treinador
Trabalhei bem durante a pesquisa, previ várias situações e tentei evitá-las. Entrei bem na escrita e dominei a narrativa, durante toda a primeira parte do livro. Podia ter chegado ao intervalo com mais páginas de avanço, relativamente ao planeado. Mas, na segunda parte, acusei algum cansaço e não pude contrariar a tendência da história. No fim, defendi com o que pude. Acho que o resultado acaba por ser positivo, tendo em conta as condicionantes.

E se, um dia, os políticos trocassem de discurso com os mecânicos? Seria igualmente divertido.

Mecânico a falar como um político
O teu carro tem um futuro. O teu carro merece um futuro. Fez quilómetros e quilómetros, esteve contigo em momentos importantes. É por isso que lhe quero dar uma segunda vida, um renascer, uma nova válvula de injecção e uma correia de distribuição. O teu carro tem a força para dar a volta por cima e é com isso que vamos encontrar soluções. Vou trabalhar no sentido do progresso. Só preciso que me pagues. Esse é o único voto de que preciso. É aquele que vou honrar.

Político a falar como um mecânico
Oh pá, a economia tá fodida. Esgaçaste isto de uma maneira que eu, em trinta anos de política, nunca tinha visto. Não sei o que andaste a fazer para rebentar com esta merda toda. Aviso-te já que vai ser uma trabalheira resolver isto. E vai ficar caro. Se calhar, nem vale a pena recuperar o país, mais vale comprar um novo. Digo-te isto como amigo. E mais: só vou poder pegar neste país lá para o fim da próxima semana, ando cheio de trabalho. Olha para isto: recessão, 2,5%, défice 9%. Como é que querias que isto aguentasse? Esgaçaste a economia. Nunca vi um país tão fodido. Mas vamos ver o que se arranja. Eu ligo-te, para a semana.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Quando percebes que és um ignorante

Uma das maiores provas de que percebemos ou não de um determinado assunto é a linguagem. Existem palavras (ou “vocábulos”, que eu também posso tentar transmitir uma imagem de proficuidade na gestão dos recursos linguísticos que tenho à disposição) que são usadas preferencialmente pelas pessoas que percebem de um determinado assunto.

(halfrain/Flickr)

À excepção do Pacheco Pereira, que até pode dizer “bidé”, sem que isso belisque a sua imagem, ou do Chuck Norris, que pode não dizer nada, sem prejuízo da sua espectacularidade. (Aliás, se colocares em causa a sua espectacularidade, ele continua sem dizer nada e dá-te um pontapé.)

Voltando aos vocábulos, aqui ficam algumas situações em que percebes que és um ignorante. Vais arranjar o computador. Entras na loja de reparações e dizes “o meu computador avariou”. O técnico diz “deixe ficar a máquina”. Foste rebaixado. És o palerma na loja.

Também pode acontecer num espaço de venda de produtos electrónicos. Perguntas “quando chega o computador que eu encomendei?” e ouves “o equipamento chega Quinta-feira”. Percebes que os computadores, quando são para vender, são “equipamentos”, quando avariam, são “máquinas”. És palerma na mesma.

Falas com um militar acerca de um filme. Dizes que “o gajo ficou sem balas”. Ouves “balas, não, munições”. Foste rebaixado. Se o teu país for invadido, não tens utilidade. És lixo.

Vais a um bar de gin. Perguntas ao “barman” quantas marcas de gin tem e ouves “temos 150 referências de gin”. Bebe água. Não percebes nada, não vais apreciar. Vai para casa cedo.

Também podes falar com um enólogo e dizer “o vinho daquele ano não foi tão bom”. Ouves “aquela colheita foi problemática”. Volta ao bar de gin e pede uma água.

Paras numa “operação stop”. Ouves o polícia dizer “encoste a viatura”. Cuidado, estás numa viatura, é mau sinal. (Se não souberes o que é uma viatura, então podes estar bêbado. Arranca e esconde-te em qualquer lado.)

Estás a ver futebol e, em vez de contra-ataques, há uma equipa que faz “transições ofensivas”. Percebes que deixaste de saber o que quer que fosse, acerca do teu desporto preferido. Mudas de canal e está a dar um filme em que o Chuck Norris enfrenta um tiroteio e diz “vou entrar naquela viatura, porque estou a ficar sem munições”. O teu mundo começa a perder o sentido. Dizes “isto é uma merda!”. Alguém diz: “De facto, a vida tem bastantes excrementos”.

Rebaixado. Outra vez.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Coisas em que acreditávamos

Crescer é fixe, mas tem muitas desvantagens. Tudo bem, ficamos mais independentes. Mas continuo a dizer que tem as suas desvantagens. E não vou dizer coisas vagas como “a inocência da infância é bonita”. Vou falar de vantagens concretas de ser criança.

(Karunakar Rayker/Flickr)

Era fácil acordar cedo ao sábado
Ver desenhos animados no sofá da sala parecia ser mais eficaz, na luta contra o sono, do que 28 latas de Red Bull. E, cheguei eu a contar, a manhã de Sábado tinha, entre as 8 e as 13, cerca de 96 horas. Cheguei a ganhar brancas, só numa manhã.

(Careca fiquei mais tarde.)

O melhor futebolista do Mundo era o que fazia mais fintas
Não havia presidente da FIFA ou da UEFA que pudesse contornar isto: o melhor jogador era o que fazia mais fintas. Ponto.

Um computador dava para fazer tudo
Era possível, como o Batman fazia, na Bat-Caverna, aceder a toda a informação e programar todas as máquinas. As teclas não tinham letras e, mesmo assim, o Batman sabia onde carregar. Hoje em dia, não sabemos trabalhar no Windows 8 nem configurar o ambiente de trabalho.

Podias sempre chamar o Super-Homem
Ele ouvia tudo e vinha ajudar-te. Se não viesse, era porque estava na Austrália, a ajudar uma corporação de bombeiros a apagar um grande fogo florestal. Hoje, se a polícia demora mais dois minutos a chegar, dizes mal do Mundo.

Falavas para o relógio, à espera de te transformar em Power Ranger
Depois, o menino a quem chamaste “gordo” dava-te uma tareia. Mas continuavas com a certeza de que aquele relógio dava para ser um Power Ranger.

Encostavas uma concha ao ouvido e ouvias o mar
Era o conceito de wireless antes de ele existir. Nisso, fomos uma espécie de Einstein da biologia marinha.

Acreditavas que podias alimentar-te só de gomas
Depois, doía-te a barriga, mas de certeza que tinha sido por causa da sopa.

Fazer os deveres era a tua única preocupação
Depois, cresces e tens deveres todos os dias.

O Direito consistia em chegar primeiro, dizer primeiro ou, em último caso, ter mais força
Hoje, há regras para tudo, mas continuas sem saber quem tem razão.

Dizer “Protecção, campo magnético” parece ser suficiente para te defenderes de um ataque de lobos
Nunca ter enfrentado lobos contribuiu decisivamente para esta crença

Acreditavas no número “infinitos milhões”
Sentias que ele tinha um potencial tremendo para quantificar grandezas astronómicas. Apesar disso, admiravas quem já sabia contar até 497.

Achavas que podias, um dia, ter um tigre em casa
Depois, alguns crescem e passam a ter medo de um mosquito.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Pessoas que encontramos no cinema

Apesar de estar em desuso, ir ao cinema tem uma mística especial. É o grande ecrã, o escuro da sala, o som envolvente que nos transporta para o universo do filme, é a miúda gira que está ao nosso lado e a quem cedemos gentilmente o apoio de braço da nossa cadeira (tentando ficar com uma reputação ao nível da do George Clooney) ou a cabeça enorme do espectador que ficou à nossa frente, que nos tapa parte da imagem.

Pensando bem, é só o grande ecrã, o escuro da sala, o som envolvente e a miúda gira que está ao nosso lado e a quem cedemos o apoio de braço.

(m4tik/Flickr)
No cinema há personagens no ecrã e personagens diante dele. Foi destas, que podem calhar ao nosso lado, que decidi falar.

Espectador que ri de forma estranha
Vais ver uma comédia e há um gajo que tem um riso que fica entre o som da hiena e o do porco, passando pelo da baleia e pelo do Chewbacca. A sessão duplica de piada: quando o filme está num momento calmo, ainda há alguém a rir desbragadamente do riso deste espectador.

Espectador que comenta em directo
É uma espécie de IMDb, mas falante. Vai dizendo a filmografia dos actores principais, o problema de luz numa determinada cena ou as inconsistências narrativas do filme. Algo como: “Como é evidente, o Chuck Norris nunca daria cabo de oito gajos em trinta segundos. Ele fá-lo-ia em dezassete segundos”. É como se o cinema tivesse a opção “comentários do realizador”, mas sem ser do realizador. Era mais “comentários de um gajo inoportuno”.

Casal que não vê o filme (tipo A)
Estão duas horas a namorar. Usam o tacto de forma intensa, tocando em tudo o que é zona erógena, trocam fluidos corporais, experimentam uma dezena de posições sexuais, ela atinge múltiplos orgasmos, fumam um cigarro no fim e recomeçam, incomodando todos os espectadores daquela sala e das salas contíguas.

Casal que não vê o filme (tipo B)
Estão duas horas a namorar. Usam o tacto de forma intensa, tocando em tudo o que é zona erógena, trocam fluidos corporais, experimentam uma dezena de posições sexuais, ela atinge múltiplos orgasmos, fumam um cigarro no fim e recomeçam, sem que ninguém se aperceba.

Espectador que se incomoda com tudo
Para ele, o cinema é uma meditação transcendental. Nada o pode perturbar: a respiração do senhor sentado no lugar 32 da fila D, o perfume da senhora sentada no lugar 17 da fila M, o batimento cardíaco do senhor sentado no lugar 8 da fila I. O espectador deste tipo chega a ficar incomodado com a sua actividade cerebral.

Puto que pergunta se aquele é o “Toy Story”, durante uma hora
Ao fim de uma hora, o pai diz-lhe que já vai começar e o puto passa uma hora a perguntar “Falta muito?”.

Falaria de outras personagens, mas o filme, entretanto, acabou.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Entretela

Um grupo de amigos decide ir ao cinema, ver o “Interstellar”. Devido a uma série de compromissos inadiáveis, como tomar café, discutir a actualidade e duas ou três temáticas relevantes, bem como um penalty mal assinalado, sem excluir uns olhares malandros às miúdas da mesa do lado (embora não fossem nada de especial, eram as únicas do café, o que as tornava uma espécie de Cleópatras de Segunda à noite), o grupo chegou ao cinema com meia hora de atraso.

(Adam Evans/Flickr)

Ninguém contava com aquele triste acontecimento. Ter que esperar uma semana para ver um filme tão esperado era quase tão mau como ficar sentado o lado de um gajo que comentava o filme em voz alta, enquanto comia pipocas de boca aberta e jogava “Angry Birds” com o volume no máximo.

Um dos amigos encontrou a solução.

- Não vos cheguei a contar, mas tenho no carro uma máquina que me permite gerar rupturas no espaço-tempo. Isso e abrir buracos na parede, com grande precisão. Até ajudei o meu tio, numas obras em casa dele.

- Não me lixes. Isso dos furos na parede é muito futurista.

Depois de uma demonstração de “tupperwares”, que entreteve os convivas durante cerca de quinze minutos, chegou a demonstração de rupturas no espaço-tempo. Como não houve consenso, o grupo dividiu-se em três partes.

Uma parte foi para 1939 ver “E Tudo o Vento Levou”. Choraram baba e ranho, ficaram sem saber se o filme tinha voltado ao início e tentaram ligar pontas soltas (viajar no tempo causa alguma sonolência e eles foram, à vez, tirando pequenos cochilos). Ainda deu para repararem que o dono do café que frequentavam tinha ligeiras semelhanças com o Clark Gable.

Outra parte do grupo foi para uma dimensão paralela, onde o filme do momento, no planeta Terra, era “Entretela”, um filme que contava a história de um grupo de alfaiates que, perante uma grave escassez de entretela para os casacos, viajava pelo espaço-tempo, à procura de planetas ricos em entretela. A missão foi bem sucedida e, quando esse grupo de alfaiates regressou à Terra, estava em cena um “remake” de “E Tudo o Vento Levou”.

Nessa versão, um grupo de robôs do futuro procurava impor as suas regras nos campos de cultivo, enquanto ocorria uma história de amor entre uma ceifeira automática e uma debulhadora. O grupo de robôs libertou-se da opressão dos proprietários, enquanto que, do romance, nasceu um pequeno aquecedor a óleo.

A terceira parte do grupo era composta apenas pelo “Roleta”, que ficou em frente à máquina, a tentar perceber como accioná-la e a escolher uma data de um jogo importante do Benfica até à qual viajar. O espaço-tempo era bonito, mas o seu Benfica tinha outro interesse.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A Rádio Tasca

Na tasca do “Roleta”, toda a gente queria duas coisas: um telescópio, para uma profícua observação do espaço, e um transmissor FM, para partilhar o conhecimento sobre Astronomia que iria ser adquirido. O Manel, especialista em tecnologia, Aikido e charcutaria, procurou na net quais os componentes necessários para construir um transmissor.

(Alan Levine/Flickr)

- Olha que é difícil e caro. Mais vale comprar um já feito. – Disse.

- Pedimos ao Venâncio. Ele uma vez arranjou-me a máquina do café. Nunca mais saiu café fraco. – Disse o “Roleta”.

- Isto é um transmissor, não uma máquina de café.

- A máquina de café transmite café. Se fores ver, é parecido.

O telescópio veio primeiro. O “Mingos” tinha um sobrinho que tinha ficado em terceiro lugar num concurso de Astronomia, o que lhe valeu, como prémio, um globo terrestre. Mas, acrescentou o “Mingos”, “como era um puto esperto, gamou o prémio do primeiro classificado, que era um telescópio todo espectacular”.

Nas primeiras observações, conseguiram concluir qual o lado que ficava apontado para o céu. Feita esta primeira extraordinária descoberta, observaram a Cintura de Orion, Vénus ou a miúda gira que morava no 5.º esquerdo. Fizeram, também, alguns desenhos, como forma de registar as observações.

Havia apenas uma condição essencial: os desenhos tinham que ser feitos nos primeiros minutos, porque depois de toda a gente espreitar pelo telescópio, geravam-se discussões sobre como devia ser desenhada uma constelação, qual era o corpo celeste mais próximo ou quem deveria ser o ponta-de-lança do Benfica, no jogo seguinte.

As sessões passaram de duas horas de observação e meia hora de discussão, para dez minutos de observação, hora e meia de discussão e meia hora de cerveja e amendoins.

Depois da chegada do telescópio e de alguma pesquisa, encomendaram um transmissor FM, via Internet. Coube ao Manel colocá-lo a funcionar. Tentou de uma maneira, de outra, e ainda da primeira, outra vez, e aquilo não dava. Pediram ajuda ao Venâncio, mas ele só conseguiu pôr o transmissor a fazer menos barulho, proeza que conseguia habitualmente com máquinas de café. O sobrinho do “Mingos” deu uma ajuda e o transmissor começou a ser usado correctamente.

Emitiram desenfreadamente. Debates, música (discos pedidos pelo “Roleta”, que dizia “Se não pões essa música, vou ao quadro eléctrico e mando tudo abaixo nesta tasca”) e, de vez em quando, entrevistas, todas elas ao Presidente da Junta, para ver se ele financiava uma rádio local.

(O projecto nunca chegou a acontecer, também porque o “Roleta” não disponibilizou a tasca para estúdio. Segundo o próprio, o cheiro a fritos iria afastar os convidados.)

Até que se fartaram. Voltaram a beber cerveja e a discutir coisas mais importantes. Hoje, o telescópio é um cabide e o transmissor serve de apoio ao expositor onde são colocados os panados e as pataniscas.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Pessoas que precisam de tudo

Existem pessoas a quem tudo dava jeito. Não percebeste? Então não escrevo mais.

Escrevo, escrevo.

Não conheces alguém que, seja qual for o artigo de que lhe fales, te responde: “Olha, por acaso, dava-me jeito um/a”? Eis algumas situações possíveis, com estas pessoas.

(Axion23/Flickr)

Compras um casaco
“Olha, por acaso, dava-me jeito. Vem aí o frio e a chuva e o meu casaco está velho.”

Compras uma rebarbadora
“Olha, por acaso, dava-me jeito. Ando a precisar de fazer umas obras lá em casa e precisava mesmo de uma rebarbadora.”

Compras um computador
“Olha, por acaso, dava-me jeito. Ando a precisar de fazer uns documentos para o trabalho e o meu computador já está muito lento.”

Compras um porco
“Olha, por acaso, dava-me jeito. Ando a precisar de fazer alguma charcutaria e sem porco é mais complicado. Precisava mesmo de um.”

Compras um Ferrari
“Olha, por acaso, dava-me jeito. Tenho que fazer muitos quilómetros no meu trabalho e com um super-desportivo fazia-os mais depressa.”

Compras uma nave espacial
“Olha, por acaso, dava-me jeito. Ando a precisar de visitar outros lugares do Sistema Solar, para desanuviar, e precisava mesmo de uma nave.”

Compras o Benfica
“Olha, por acaso, dava-me jeito. Ando a precisar de alguma coisa para me distrair ao fim-de-semana e ter um clube de futebol vinha mesmo a calhar.”

O truque, com estas pessoas, é omitir as compras e perguntar se falta alguma coisa.

- Não, pá, felizmente, tenho tudo do que preciso. É uma sorte.

- Tens a certeza?

- A sério. Pronto, se calhar, precisava de quem me perguntasse se preciso de alguma coisa, para perceber como sou feliz. E como preciso de uma rebarbadora.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Pessoas que sabem o que é bom

Existe uma classe de seres humanos pela qual nutro especial admiração: as pessoas que sabem o que é bom. Toda a gente tem um amigo (ou vários, no caso dos mais azarados) que sabe como é que as coisas são boas e, embora aprecie uma determinada coisa, dá sempre  um ou dois conselhos para melhoria da mesma. Vou dar alguns exemplos.

(Kay Gaensler/Flickr)

Um jantar de arroz “Pica no Chão”
Toda a gente está a apreciar a comida e muitos até repetem. O amigo que sabe o que é bom diz: “Isto está bom, não vou dizer que não, mas o arroz ‘Pica no Chão’ é bom um bocadinho de nada mais soltinho, com duas gotas de limão”. De súbito, o arroz passa a ser mais fraquinho. O amigo que sabe o que é bom estragou o jantar a toda a gente. O arroz passa a parecer cocó.

Uma noite numa esplanada
Toda a gente concorda que o tempo está agradável. O amigo que sabe o que é bom diz: “Está-se bem aqui, mas isto era mesmo bom só com um bocadinho mais de vento, não era preciso muito, só um bocadinho”. De repente, toda a gente fica com calor. Uma das pessoas é imediatamente picada por um mosquito. A noite na esplanada torna-se uma sauna ao ar livre.

Um gajo compra uma nova televisão e convida os amigos para jogar FIFA
Toda a gente está maravilhada com a possibilidade de jogar FIFA num ecrã daquele tamanho. Dá para ver os pormenores todos do jogo e tirar partido da capacidade da Playstation 4. O amigo que sabe o que é bom diz: “Isto está bom, mas para ser mesmo bom, a televisão tinha que estar um bocadinho mais afastada do sofá, só um bocadinho. E acho que a televisão precisa de um ajuste de cor. Quase nada, mas precisa”. De repente, um dos jogadores de FIFA sofre um golo estúpido. É gozado e passa-se da cabeça. Começa tudo a discutir. Uma noite de FIFA passa a ser uma sessão de trabalho forçado.

Um grupo de amigos visita o Louvre
Toda a gente está satisfeita com a visita. Uns gostam mais de uns quadros, outros gostam mais de outros. O amigo que sabe o que é bom diz: “Não digo que os quadros não sejam bons, mas estão mal iluminados. Precisavam de um bocadinho mais de luz, quase nada, mas precisavam”. De repente, os quadros parecem os desenhos que fazíamos nos cadernos dos amigos, no tempo da escola.

Um gajo tem um caso com a Charlize Theron

Todos os amigos o felicitam pela proeza. O amigo que sabe o que é bom diz: “Ela é gira, não digo que não, mas podia ter um bocado mais de mamas. Só um bocadinho”. De repente, a Charlize parece feia. Parece um “Pica no Chão” sem limão. Parece cocó.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O telemóvel que sabia tudo

Quando recebeu o telemóvel, o “Roleta” ficou desconfiado.

(O “Roleta” tinha esse nome devido a uma frase sua que ficara famosa, na aldeia de Bordalheira de Cima: “A vida é como a roleta, às vezes sai vermelho, às vezes sai o 17”.)

(Håkan Dahlström/Flickr)

- As chamadas são caras? – Perguntou.

- Não vais telefonar, “Roleta”, isto é só um teste – Respondeu o Manel.

- Um teste? É difícil?

- Não. Só tens que fazer o que o telemóvel te diz.

- Foda-se! Já não chega a minha mulher pra me dar cabo da cabeça?

O Manel especialista em tecnologia, Aikido e charcutaria, criara um telemóvel que, através de um sistema de inteligência artificial, iria ajudar as pessoas em vários capítulos da sua vida. O aparelho interagia permanentemente com o utilizador.

Assim que ligou o telemóvel, o “Roleta” passou a ser uma cobaia. Entrou o primeiro cliente na tasca e, em vez de o “Roleta” lhe perguntar “O que era?”, olhou para o ecrã do telemóvel e disse “Boa tarde, em que posso ajudar?”.

Toda a gente ficou impressionada. Quase toda a gente: o Chico tinha adormecido, ao fim da terceira malga de vinho.

À hora do almoço, o “Roleta” olhou para o telemóvel e começou a comentar o telejornal. A situação na Síria, a sonda que pousou num cometa, as medidas do Governo japonês para o crescimento da economia, o onze do Benfica.

(O onze do Benfica ele já sabia, não havia telemóveis que soubessem mais do que ele.)

Durante a tarde, leu Dostoyevsky, na versão em Russo, e ouviu Schubert. Contemplou a Natureza. Escreveu um poema sobre o “ocaso da luz sobre a planície”.

Peidou-se, não sem antes se certificar de que não havia ninguém por perto.

(O telemóvel tornava-o mais culto, mas não menos humano.)

À noite, continuou a receber os clientes da tasca com educação. No intervalo do futebol, disse um poema de Carlos Drummond de Andrade. Durante a segunda parte, e para espanto de toda a gente, levantou-se e saiu do lugar. O Benfica estava empatado, 0-0.

- Aonde vais, “Roleta”?

O telemóvel ia sugerir três formas de dizer a verdade, de forma extremamente educada. Mas a bateria acabou antes disso. O “Roleta” olhou para o aparelho, desligado, olhou para os clientes, que aguardavam, entrou em pânico e não soube o que dizer.

Até que teve uma ideia.

- Oh pá, tenho mesmo que ir cagar.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O sítio para onde vão as sondas

Há dias, uma sonda espacial pousou num cometa, pela primeira vez, na História. Não foi uma “aterragem”, foi uma “acometagem”. Se a sonda pousasse num jardim, seria uma “ajardinagem”. Se caísse em cima de um sacana, seria uma “assacanagem”.

Pronto, era isto que queria escrever. Não era nada.

(Tom Blackwell/Flickr)

Nunca me explicaram para onde vão as sondas, depois de concluídas as suas missões. Vou avançar com uma explicação credível, influenciada pelo facto de estar bastante curioso para ver o filme “Interstellar” (só não o vi porque eu e uns amigos nos enganámos no horário da sessão, o que constituiu uma estupidez ou, na lógica do filme, uma ruptura no espaço-tempo que nos colocou noutra dimensão, que não a da sala de cinema).

As sondas vão para um planeta distante, inabitado. Mentira: é um planeta distante, agora habitado por sondas.

As mais velhas ficam com os lugares de chefia da tribo das sondas. Mandam em tudo e colocam as sondas amigas em lugares de relevo. Só não lhes chamam “tachos” porque um tacho é um objecto que, para uma sonda espacial, não faz sentido. Chamam-lhes “depósitos”.

“O UY75FJL ainda há pouco chegou e já foi para chefe de departamento. Foi um amigo que lhe arranjou. Que rico depósito… Só queria um para mim.”

Têm rodas com algum desgaste e já não fazem grandes distâncias. Já não estão para se chatear. Apanhar uma pedra do chão, para recolher dados, é algo agora mais difícil: as costas das sondas velhas não as deixam abaixar-se com facilidade.

As sondas mais jovens estão cheias de energia, mas não sabem nada da vida de sonda. “São sondas novas, não pensam”, dizem as mais velhas. “Só querem festivais.” Um festival de sondas é uma planície cheia de sondas que ingeriram óleos adulterados. Ficam tontas, andam à roda, abraçam-se e dizem “Oh mano, somos amigos ou não somos?”. Algumas, em vez de apanharem pedras do chão, atiram-nas às outras. Depois, acabam todas à chapada. Mentira: à “pinçada” e à "pazada", que as sondas têm pinças e pás.

Enquanto que os seres humanos querem subir na vida, as sondas querem descer: uma sonda bem sucedia aterra, ou aluna, ou acometa. Descer é bom, na vida de uma sonda.

A sonda mais velha de todas, a primeira a ir ao espaço, lidera a tribo das sondas e difunde a sua mensagem há dezenas de anos.

“Um dia, vamos apanhar um humano, colocar-lhe um propulsor no rabo e vamos mandá-lo para o espaço. Só para ver se ele gosta.”

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Um extraterrestre que fala Islandês

Um grupo de extraterrestres andou a estudar alguns países do nosso planeta. Depois disso, houve uma reunião, para partilhar a informação recolhida. O extraterrestre responsável pela Islândia tinha coisas interessantes para dizer.

(Lovepro/Flickr)

- Os gajos têm palavras tão grandes que só têm uma obra literária. Foi escrita por 16 autores e demorou umas boas centenas de anos a ser terminada. Quase acabei o prefácio, durante os 10 anos em que lá estive. Mais: o dicionário de Islândês tem 135 volumes. Todos os anos, dezenas de estudantes universitários desistem da licenciatura em Islandês, para procurar outra coisa mais fácil. A maior parte vai para Física Quântica.

- As palavras são assim tão grandes?

- São. A maior é “vaðlaheiðarvegavinnuverkfærageymsluskúraútidyralyklakippuhringur” e quer dizer algo como “o porta-chaves da chave do cadeado da corrente da porta da oficina dos trabalhadores do planalto de Vaðlaheiði”. São 64 letras. Já houve pessoas que se engasgaram, a dizer esta palavra.

- Por ser grande?

- Não, porque a disseram enquanto comiam. Mas isso também pode acontecer com outras palavras, como "bola" ou "volatilidade"...

- O que é "volatilidade"?

- Acho que tem a ver com "volas".

- Adiante. Que outras palavras aprendeste?

- “Ferjunganderfoggesrutifionderganter” quer dizer “gato”. “Gorlendinternorbenfallen” quer dizer “sopa”. Lá, um gajo combina ir ao cinema com uma miúda e tem que se encontrar com ela seis horas antes.

- Para conversar um bocado? Para namorar?

- Não, para dizer “Olá”.

- Como é que fizeste para aprender Islandês?

- Usei uma sonda cerebral. Mas tive um problema.

- Qual?

- Usei numa miúda gira com quem andava a sair e que, por acaso, era professora de Islandês. Mas, para além de aprender Islandês, aprendi a combinar roupa, passei a adorar montras com sapatos, redecorei a minha casa e descobri todos os graus das cores. Só de azul, descobri 82 tipos.

- O que diz a tua t-shirt? “Extergosrenglakendoruntiverparenwartuldorenfolgurterren”?

- “Extraterrestre”. Comprei numa conferência de aficionados de OVNIS. Ganhei esta t-shirt e uma caneca. A caneca não trouxe. Não combinava com os armários da nossa nave.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Um tigre em Paris

Ontem, a notícia explodiu como uma bomba (mas uma bomba de Carnaval, não uma bomba daquelas que estragam tudo): andava um tigre à solta em Paris. A proveniência do animal era desconhecida.

(Simone Paoli/Flickr)

Um habitante local afirmou ao “Texto Incompleto” que o animal tinha um sotaque que indiciava uma proveniência alemã.

“O tigre era alemão, de certeza. Até porque roubou um frasco de salsichas, numa barraca de cachorros”, afirmou o morador, que pediu o anonimato, embora o “Texto Incompleto” saiba que se chama Pierre Eiffel (não tem relação familiar com o senhor que desenhou a torre).

O tigre foi avistado, inicialmente, num parque de estacionamento. Embora a polícia não tenha conseguido apurar qual era o carro do animal, suspeitava-se que seria um Mercedes ou um BMW, porque um tigre alemão só conduziria um carro topo de gama fabricado no mesmo país.

Depois de termos comprado cinco quilos de carne, procurámos o tigre em Paris, encontramo-lo e ele aceitou explicar-nos o que fazia na capital francesa.

“Vim em passeio, mas um pouco em negócios, também. Não sou alemão, sou austríaco, mas para os incultos dos franceses, é a mesma coisa. Até com o Hitler, que era um gajo conhecido, fizeram confusão, quanto mais com um simples tigre”, afirmou o felino de grande porte.

O motivo de estar num parque de estacionamento também foi esclarecido, com algum humor. “Não trouxe carro, apenas procurava um sítio escondido para fazer necessidades. Um tigre na rua já causa espanto, a fazer cocó ainda mais.”

Sobre Portugal, o tigre austríaco tem pouco a dizer. “Nunca visitei o vosso país. Mas já vi fotos na net do cabrito e do cozido à portuguesa e tenho que experimentar. Nada se compara a uma zebra acabada de caçar, mas isso não quer dizer que a vossa comida não seja boa”.


A entrevista foi, subitamente interrompida, porque o tigre tinha um encontro com um elefante, em Lyon, e tinha que se dirigir, rapidamente, para a estação de caminho-de-ferro.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Comprar amor com iPhones

Um homem gastou 64 mil euros, mais coisa, menos coisa, em 99  iPhone 6, para oferecer à namorada, como pedido de casamento. Ela recusou o pedido.

(Yutaka Tsutano/Flickr)

Este texto poderia ficar por aqui. Duas linhas seriam suficientes para garantir a total hilariedade do tema. Tudo o que eu escrever, daqui por diante, vai estragar o momento. Mesmo assim, vou fazê-lo.

O “sortudo” é informático. E isso diz muita coisa. “Quero pedir a minha namorada em casamento. O que faço? Dou-lhe um anel? Organizo um jantar romântico e faço-lhe uma surpresa? Levo-a a passar o fim-de-semana a um sítio bonito? Naaa, vou escrever-lhe um programa de computador em C++ ou em Java a dizer-lhe como gosto dela. Uma espécie de jogo em que ela tem que percorrer várias fases, todas divertidas, até chegar ao pedido. Hmmm… isso dá muito trabalho. Vou juntar dinheiro equivalente a 17 salários e vou oferecer-lhe 99 iPhones”.

Ela disse “Não” e toda a gente ficou a pensar “Que insensível!”. Calma, é preciso conhecer as razões dela. O “Texto Incompleto” conseguiu uma entrevista exclusiva com a mulher.

- Por que motivo recusou o pedido?

- Ele sabe que eu detesto telefones brancos. Não podia ter falhado nisso.

- Mas recusou só pela cor?

- Sim, porque assim o pedido não foi perfeito. Para além disso, gosto do meu iPhone 5 e não sei se quero um 6. Ainda não estou segura da fiabilidade do aparelho.

- O facto de ele ter investido o equivalente a de 17 meses de salário neste pedido não contou?

- Tenho uma amiga cujo namorado nem um salário gastou, mas ofereceu-lhe um bonsai em forma de coração. Isso sim, é amor. Para além disso, deu-lhe um anel, um pouco piroso, mas valeu pelo gesto.

- O seu namorado perdeu a hipótese de casar consigo?

- Não. Se ele me escrever um programa de computador em C++ ou em Java a dizer-me como gosta de mim, talvez tenha uma hipótese.

- Um programa de computador?

- Sim. Uma espécie de jogo em que eu tenha que percorrer várias fases, todas divertidas, até chegar ao pedido. Isso sim, é ser criativo, é fazer algo para mim. E não comprar-me com iPhones.

- Só para terminar: sabe o que vai ele fazer aos iPhones?

- Sei. Devolvê-los na loja e oferecer-me um Samsung. Disse-lhe que estou curiosa para experimentar o sistema Android.

- Mas isso não é comprá-la com um Samsung?

- Não, porque eu não pedi. Só sugeri.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Quando desligam o microfone

Sempre que uma entrevista televisiva acaba, entrevistador e entrevistado trocam algumas palavras, enquanto a imagem ainda nos mostra o estúdio, antes de passar à publicidade ou ao programa seguinte. Sempre me perguntei de que raio eles falavam, todos sorridentes. Pensei em algumas hipóteses.

(Phil Rankin/Flickr)

Entrevista ao Primeiro-Ministro
São anunciados cortes na despesa do Estado e um aumento de impostos. No fim da entrevista, o Primeiro-Ministro dirige-se ao jornalista. “Sabe, ontem experimentei uma receita de frango bastante boa. É um bocado gourmet, porque fiquei com fome e tive que comer uma sande de presunto, no fim, mas tem a sua piada.”

Aqui, podia ser ao contrário. O Primeiro-Ministro anunciava, em primeira mão, a receita de frango. Depois, no fim da entrevista, dizia ao jornalista o seguinte: “Sabe, vou aumentar os impostos. Largo”.

Entrevista a um treinador de futebol
Um treinador que foi despedido fala sobre os problemas existentes num grande clube. Um verdadeiro escândalo, com problemas entre os jogadores e directores que desestabilizam a equipa. No fim diz: “Mas, lixado, lixado, é o nosso Primeiro-Ministro, que vai aumentar os impostos. Isso e uma dor que tenho numa perna que não me deixa em paz”.

Entrevista a um empresário
Vai comprar dez empresas, mais Júpiter e Saturno. No fim, diz: “Não conhece ninguém que queira comprar um T3 no centro de Lisboa? É bastante jeitoso. Só estou a vender porque o dinheiro dava-me jeito”.

Entrevista ao dono de um banco
São reveladas várias falcatruas que quase levaram o banco à falência. No fim, o dono do banco diz: “É como aquele penalty no jogo do Benfica. Um escândalo!”.

Um ditador
Declara guerra a um país vizinho. Usará armas nucleares, químicas, biológicas, bem como o Son Guku. No fim, diz que está com pressa, porque vai jogar FIFA’15 online, contra o Presidente do país vizinho.

Outra forte hipótese é a que me sugere que as entrevistas estão combinadas e, no fim, entrevistador e entrevistado conversam sobre o decurso da mesma.

- Acho que correu bem. – Afirma o entrevistado.

- Podia ter sido mais claro. É que o Son Goku toda a gente conhece. Mas que raio são armas químicas? – Pergunta o entrevistador.

Seja como for, ninguém me tira da ideia: a parte boa de uma entrevista nunca chega ao público.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O Windows é um brincalhão

Noutro dia, aceitei uma sugestão do meu computador: actualizei o Windows, para a versão 8.1. O processo foi simples, mas mostrou um detalhe que achei curioso: a dada altura, apareceu a mensagem “A instalar mais algumas aplicações”. Ou seja, o Windows estava a dizer que eram só mais umas tralhas, sem importância. Estava quase.

(Kat/Flickr)

Assim sendo, sugiro à Microsoft que, na versão 9 do Windows, a actualização passe pelos seguintes processos:

“A preparar instalação”
O utilizador decide arrumar umas coisas, para ajudar a passar o tempo.

“A iniciar instalação”
O utilizador liga a televisão.

“A terminar a instalação”
O utilizador, como tem algum sentido de humor, nota que o computador avançou a parte “A instalar a instalação” (um utilizador mais javardo pode complementar esta parte com uma segunda, chamada “A instalar o instalanço da instalação”).

“A instalar mais algumas coisas”
O utilizador pergunta se o computador vai passar a tirar café.

“A instalar ainda mais algumas coisas”
O utilizador pega num martelo.

“A instalar mais algumas coisinhas. A sério, é rápido.”
O utilizador prepara-se para usar o martelo no computador, mas aparece a mensagem “Agora está mesmo quase”.

“Quase”
O utilizador espera.

“Quase”
Espera mais.

“Quase”
É agora: o utilizador vai partir o computador.

“Instalação concluída”
O utilizador rejubila. Vai à varanda e lança três foguetes. Convida os amigos para jantar. Embebeda-se. Finalmente, o seu computador tem Windows 9. O próprio computador transmite a seguinte mensagem “Vês? Não custou assim tanto”.

No fim do dia, o utilizador, já cansado, desliga o computador. Aparece a seguinte mensagem:

“A preparar a preparação do desligamento”…

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Pessoas que são pagas para ensinar a viver

Tenho grande admiração por uma área cujo nome diz muito sobre a sua espectacularidade: “coaching”. Se traduzirmos esta palavra, resulta algo como “treino” ou “instrução”.

A área do “coaching” que mais me fascina é o “coaching da vida, em geral” (esta designação, provavelmente, não existe, mas acho que assenta bem, pelo que a vou manter). São pessoas que nos ensinam a viver.

(halfrain/Flickr)

São pagas para dar conselhos sobre a vida. Algumas, bem pagas. São, por isso, pessoas que sabem como se vive. Pessoas que sabem controlar as emoções. Não se chateiam com o trabalho, não se chateiam no trânsito, não dizem “P*$% que pa#$&!”, quando se queimam numa panela ou quando pontapeiam, apenas com o dedo pequeno do pé, a esquina de um armário.

(Toda a gente sabe que um ser humano provido de vida diz todos os palavrões que consegue nestas duas situações. Existem, também, seres humanos que dizem todos os palavrões que conseguem em todas as situações, mas isso é outra história.)

As pessoas do “coaching” nunca se apaixonam pela pessoa errada. Sabem ser compreensivas. E atenciosas. E pacientes. E que nunca se chateiam quando alguém os desrespeita.

E sabem arranjar o carro e mudar um pneu, numa situação de emergência, mas isso é porque têm um tio que é mecânico.

São pessoas que sabem que a vida é feita de blá blá blá e que os seres humanos têm um comportamento que se define pelo gráfico da função x = (x^2+2x+sen98*cos78*√5784357498574398537)/2. (Caso não descubram o valor de x, vejam a solução na página 548.)

Estas pessoas são pagas para nos ensinar a viver. Direitinho. Sem tropeçarmos. Estas pessoas são como aqueles jogadores de videojogos que sabem os truques todos para não perder vidas e para passar aquele nível difícil.

As pessoas do “coaching”, quando comem um iogurte estragado, não ficam muito mal da barriga e dos intestinos. Porque sabem lidar com isso, com calma e com ponderação. Sabem encaixar os problemas e sair deles sem mazelas.

Ou então, borram-se todas, como nós. Mas sem deixar cheiro na casa-de-banho.

Se fechássemos todas as pessoas do Mundo que fazem “coaching”, numa casa, das duas, uma: ou descobriam o sentido da vida ou matavam-se, na ânsia de mostrar que sabiam o valor de x.

Se alguma tivesse comido um iogurte estragado, ninguém daria por isso.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Zero, o rato transparente

Um grupo de cientistas japoneses desenvolveu uma técnica que permite tornar praticamente transparentes ratos mortos, para que se possa estudar melhor a relação entre os tecidos.

(Global Panorama/Flickr)

E se a técnica fosse aplicada a um rato vivo? Como seria o dia-a-dia de um rato transparente? Eis a história do Zero.

“Bom dia. Estou numa cama confortável, a menos de meio metro daquele gatinho. Que dorme profundamente e que, quando acordar, vai permanecer muito tranquilo, porque não me consegue ver.

Apetece-me esganá-lo. Mas só estou transparente, não tenho super-força. Vou só correr um bocadinho à volta dele. É melhor não. Ele ainda me acerta com uma pata, sem querer, e depois não consigo fugir. Ainda me dói uma pata, daquela vez que fiquei preso num cano mal arranjado. Dói-me a perna por causa de um canalizador. Não é justo!

Vou até à cozinha… Hmmm, o que temos aqui? Pão, bolachas… Queria algo com mais substância. Ei! Olha ali um prato com feijoada. Que rico! Vou comer com moderação. O meu primo Horácio não pode comer feijão. Incha até ficar como um gato gordo. Depois não passa nos buracos. Um rato que não passa nos buracos é como um computador sem teclado.

Viram como eu percebo de tecnologia? Ser um rato de laboratório tem estas vantagens. Percebo bastante de Astrofísica, Informática e Gastronomia.

Eu sei, eu sei, gastronomia não tem nada a ver com um laboratório, mas um dos cientistas que lá trabalham está a fazer um curso de cozinha.”

O Zero come tudo o que consegue. Depois, vai até ao jardim, onde apanha um pouco de sol. Conta quatro gatos, durante o descanso. Vê um ou outro rato a passar. Chama por eles, só para ver a reacção. Os ratos ficam algo inquietos, ao ouvirem o som de um rato sem verem rato nenhum.

Depois, decide fazer a recolha de alguns alimentos, não vá o efeito da transparência passar e não voltar a ter uma oportunidade para roubar comida.

“O meu primo Horácio, uma vez, ficou mais rápido, depois de comer umas pastilhas que encontrou numa mesa de cabeceira. O burro, em vez de aproveitar, foi dormir. Quando acordou, tinha passado o efeito. O que eu fazia, com super-velocidade. Corria depressa, só para dar um exemplo.”

A recolha foi feita e o Zero voltou ao jardim. Adormeceu. O feijão fez efeito e ele soltou um ou dois gases. Um gato ouviu o barulho e foi ver de onde vinha. Quando Zero acordou, tinha dois gatos junto de si. Fez uma pequena dança, comemorando o facto de estar transparente. Os gatos seguiram-no com o olhar.

Percebeu que não estava transparente. Correu, mas não suficientemente depressa. Estava cheio, do feijão. Horácio assistiu ao triste fim do seu primo.

Sabem quais foram as últimas palavras do Zero? Nenhuma, os ratos não falam.