quinta-feira, 31 de julho de 2014

A vida em episódios

Está a dar o Super-Homem, na televisão. Está a enervar-me, não porque use as cuecas por cima das calças. Estou farto desse assunto: o homem veste-se como quer. Ainda por cima consegue salvar o Mundo, mais direito lhe dá. É como ser o dono da bola, num jogo de miúdos: podes ser um rebo, mas jogas sempre.

O que me irrita no Super-Homem é o facto de não usar máscara e, mesmo assim, ninguém descobrir a identidade dele. Parece que as pessoas fazem de conta que não viram, como quando falam com alguém que tem ranho a sair do nariz e não avisam.



Mudo para um canal de séries. As séries são o vício do século XXI. Há pessoas tão viciadas em séries que vivem por episódios. Aliás, os episódios das séries não são episódios: são doses. Ministradas à bruta, que é para dar mais moca. Não há finais de temporadas, há inícios de desintoxicação.

Eu gosto da “Guerra dos Tronos”, mas não tenho paciência para esperar um ano pela nova temporada. Decidi avançar para os livros. No fundo, fui como aquelas pessoas que não esperam pelo Ano Novo e dizem “Se não nos virmos antes, bom ano!”. Como se não pudessem dizê-lo a 5, 6, ou a 15 de Janeiro. Eu disse à “Guerra dos Tronos”, “se não nos virmos antes, estarei a ler os livros”. Ganha-se no avanço na história, perde-se nas cenas de sexo.

A “Guerra dos Tronos” tem tantas personagens que devia haver uma temporada, entre duas temporadas, só com as instruções.

Esta série vai demorar tantos anos, que o final, seja ele qual for, vai desiludir. Tal como na série “How I Met Your Mother”. É como quando esperamos duas horas pela comida: pode ser divinal, mas o nosso mau humor vai bloquear-nos o paladar. E tornar-nos uma mistura de urso (pelo apetite) com galinha (pela estupidez).

Detesto séries de investigação criminal. O momento mais emocionante é sempre no fim. Quando aparecem os nomes do realizador, dos argumentistas e por aí.

Se o Chuck Norris entrasse nas séries de investigação criminal, cada episódio tinha oito segundos. Em alguns, nem chegava a haver crime. Noutros, nem chegava a haver episódio.

Última hipótese à televisão: um concurso de cantores. Aquele tipo de programa em que muitos dos aspirantes a cantores têm respeitáveis atributos. Até começarem a cantar.

Nos concursos de cantores, todos querem ser o Frank Sinatra. A maioria não consegue melhor do que aquele tio que cantou, bêbado, o “My Way” no casamento de um amigo nosso. E o tio tem mais piada. Sobretudo porque nós também estávamos bêbados.

Eu adoro estes programas. Comparados com tortura, são excelentes. Estava a mentir: nunca damos uma última oportunidade à televisão. É como quando bebemos demasiado: é sempre a última vez.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Dez coisas a evitar num encontro

Uma senhora chamada Natasha Devon, que estava solteira havia 18 meses, aceitou o conselho das amigas e inscreveu-se num site de encontros. Depois de ter conhecido cerca de 60 homens, com idades compreendidas entre os 23 e os 65 anos, resolveu escrever um artigo, no “The Telegraph”, acerca dos dez erros mais comuns cometidos pelos homens em encontros. Vou comentar a lista, erro por erro.

(kevin dooley/Flickr)

1. Não ter um plano.
OK, um gajo não ter um plano é mau. Mas, meninas, tentem ajudar no processo: não se comportem como se fosse igual levar-vos a um restaurante gourmet, a uma churrasqueira ou a uma barraca de cachorros. Porque, se é, mais vale avançar logo para o sexo.

2. Perguntar: “Como é que uma rapariga bonita como tu está solteira?”
Em contrapartida, meninas, não perguntem no que nós reparámos em vocês, quando vos conhecemos. Vamos ter que responder “o olhar” ou “o sorriso” e é mentira: foi nas mamas ou no rabo.

3. Admitir que está nervoso
Já as mulheres podem fingir que estão nervosas. Só porque ficam fofas.

4. Agir como se não se importasse
É mais foleiro do que não nos importarmos mesmo. Porque, ao contrário do que acontece com as mulheres, nós somos péssimos a fingir.

5. Brincar com o telefone
É como brincar com a maquilhagem.

6. Fazer uma pergunta e, assim que a resposta chega, mostrar-se desinteressado
Tradução: devemos evitar fazer perguntas.

7. Dizer: “Conta-me algo sobre ti que ninguém saiba”
Meninas, em compensação, não nos digam “vou contar-te isto, mas olha que não conto a ninguém”. Vão parecer as bandas que dizem que nós somos um público especial: dizem-no a toda a gente.

8. Avaliar o encontro enquanto este ainda está a decorrer
Tudo em nós avalia o encontro enquanto ele decorre. Mas podemos fazê-lo sem o referir. É como quando alguém diz algo constrangedor, num jantar de família: o constrangimento chega, não é preciso dizer nada.

9. Dizer mal de outros encontros em que já esteve
Meninas, nós não queremos saber de outros encontros. Até porque, muitas vezes, nem queremos saber daquele em que estamos.

10. Falar ou perguntar pelo ex
Nem é muito grave, comparado com outras coisas. Como, por exemplo, alguém peidar-se num encontro.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Dez medidas que melhorariam a circulação automóvel*

A Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta (Mubi, que é a forma como alguém de Braga diz “filme” em Inglês) defende que, em caso de acidente entre uma bicicleta e um carro, mesmo que a culpa seja do ciclista, deve ser sempre o automobilista a pagar os estragos e, em consequência, o seu seguro deve ser agravado.

(consumerfriendl/Flickr)

Ora, eu não sei andar de bicicleta mas, em compensação, consigo pensar com alguma facilidade. Por isso, e acreditando que esta ideia conseguiria fazer jurisprudência, vou propor dez medidas vanguardistas.

1) Sempre que alguém bater no meu carro, deve pagar-me, para além da reparação do veículo, umas férias em local à minha escolha, para ressarcir-me do stress causado.

2) Sempre que Júptiter se alinhar com Saturno, eu tenho prioridade sobre todos os veículos deste planeta. Veículos construídos para alienígenas não entram nestas contas.

3) Nos dias pares do mês, posso estacionar em qualquer lugar.

4) Se um ciclista bater no meu carro, só pagarei os estragos se ele adivinhar em que número estou a pensar.

5) Sempre que parar num semáforo que fique em frente a um café, posso ir tomar qualquer coisa, sem que ninguém buzine para eu tirar o carro da via.

6) Em dias de calor, qualquer automobilista que tenha ar condicionado no carro deve dar-me boleia.

7) Quando o meu carro for para o mecânico, todos os proprietários de veículos de alta cilindrada devem deixar-me dar uma volta nos seus carros. A volta poderá durar entre uma e cinco vezes o tempo que o meu carro estiver na oficina.

8) Se eu for capaz de citar, de memória, todas as selecções que venceram o Mundial, desde 1930, fico isento de portagem durante dez anos.

9) Quem me telefonar ou enviar uma mensagem, enquanto eu estiver a conduzir, ficará responsabilizado por qualquer acidente que eu possa ter naquele ano.

10) Se eu for capaz de citar, de memória, todas as equipas que venceram a Liga dos Campeões, desde 1995, nenhuma bomba poderá negar-me gasolina.

*Melhorariam a minha experiência de circulação automóvel.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A Arte, como uma cena

Quanto menos se perceber de um determinado tema, mais ele nos parece sofisticado e inacessível. Como, por exemplo, charcutaria ou materiais de isolamento térmico.

Esperem, isto era de outro texto.

Como, por exemplo, Física Quântica. Ou Arte.

(JD Hancock/Flickr)


Não sei nada sobre Arte. Uma vez, estava a admirar um quadro, numa exposição, quando me vieram avisar de que aquilo era o pano de limpar os pincéis. Mesmo assim, parece que teve boas críticas e foi vendido por 1,5 milhões de euros.

Dizem que foi um recorde mundial, no que diz respeito a panos. O segundo que mais dinheiro rendeu foi o pano que um prestigiado “chef” usava a cozinhar. Foi comprado por 32 euros, no e-Bay, pelo dono de uma tasca de Vila Verde. O pano foi pendurado ao lado de um cachecol do clube da terra.

Ninguém entende um especialista em Arte. Já ouvi um a explicar como se deve preparar uma boa açorda. Quando o ia questionar acerca de uma parte desse processo, disseram-me para estar calado, porque ele estava a analisar um quadro.

Ainda assim, valeu a pena: o quadro era estranho, mas a açorda ficou excelente.

Acho má vontade dizer que não se percebe nada do que dizem os críticos de Arte. Às vezes, conseguimos distinguir expressões comuns, como “Boa noite”.

Gosto de Pintura. Havia um pintor que só desenhava meios quadros. Não, não era propositado: quando acabava o whisky, ele parava de desenhar. Começou a comprar garrafas maiores, mas os quadros continuaram a ficar a meio: a meio do processo, ele caía de bêbado.

Também gosto de Escultura. Cheguei a ver uma escultura gigante feita em caixotes. No início, não percebi, mas explicaram-me que aquilo era tão feio que os caixotes serviam para o escultor se esconder dentro deles.

Era o que eu faria, se fizesse uma escultura tão feia.

A minha arte preferida é a Literatura. Adoro que me contem o fim dos livros. Assim, só tenho que ler metade. Gosto de histórias sem muito romance. Para romantismo, já tenho a pornografia.

Gosto muito dos livros do Saramago. Muita gente critica a sua forma de pontuar. Nunca percebi: eu não leio os pontos.

Aprecio, num livro, as mesmas qualidades que aprecio numa mulher: uma boa lombada.

Peço desculpa, não era isto que queria dizer. Gosto de um livro que me faça pensar e que me surpreenda.

Mas, se puder ter uma boa lombada…

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Tomar banho faz mal à pele

Investigadores da Escola de Enfermagem e Inovação na Saúde da Universidade de Phoenix concluíram que o tempo ideal de sono é de sete horas e não oito, como todos acreditávamos.

Um estudo feito na Universidade da Califórnia concluiu que tomar demasiados banhos pode afectar a nossa pele. Para além disso, não devemos usar água quente, mas sim morna ou fria.

(Kalexanderson/Flickr)

Já que está tudo a ruir à nossa volta, no que diz respeito aos hábitos diários, vou acrescentar algumas conclusões de estudos a que tive acesso, em exclusivo.

Abraçar miúdas extremamente sensuais faz bem à pele
Como elas usam creme hidratante, há grande probabilidade de ficarmos com algum na nossa pele.

A poligamia previne lesões musculares
A existência de vários parceiros sexuais permite uma diversificação da actividade muscular e, como consequência, não surgirão lesões decorrentes de movimentos excessivamente repetidos.

Conduzir depressa aumenta os reflexos
Até um dia.

Coçar as minhas costas previne a artrite
É preciso explicar?

Sair à noite é saudável
Aumenta a nossa adaptabilidade a um meio sem luz solar e onde as coisas se mexem muito. Ou, então, não mexem, tu é que estás bêbado.

Comer muito aumenta a nossa resistência
Nomeadamente, a resistência dos músculos faciais e das paredes do estômago. Ah, já me esquecia: do intestino também.

Comer "Pica no Chão" é bom para o sistema imunitário
Uma vez que comemos sangue de frango, e os frangos são animais de pouca higiene, o nosso organismo recebe sangue que está habituado à chafurdice. Ou seja, recebe um forte aliado no combate a infecções.

Ver futebol é quase tão bom como fazer exercício físico
Os níveis de ansiedade disparam, o coração bate mais depressa, queimam-se calorias e reduz-se o colesterol. Tudo isto sem o risco de lesões.

Ler este blogue aumenta a actividade cerebral
Como ninguém percebe e faz um esforço para o conseguir, a actividade cerebral dispara.

Podia continuar, mas vou tomar banho. Rápido, porque faz mal à pele.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O macaco que quis um iPhone

Um macaco com um telemóvel. É esta a história que nos conta uma fotografia, tirada pelo holandês Marsel van Oosten, e que pode vencer o prémio "Wildlife Photographer of the Year".

(Marsel van Oosten, "Facebook Update")
Antes de mais, pode dar azo a mais uma guerra entre a Apple e a Samsung. A empresa da maçã pode dizer que “até um macaco sabe usar um iPhone”. A empresa sul-coreana pode responder que “só um primata escolheria um iPhone”.

Talvez esta fotografia seja um sinal dos tempos. Talvez o filme “Planeta dos Macacos” seja premonitório: em breve, os macacos usarão telemóvel, computador, tablet e terão blogues. Como este. Os humanos deixarão de ser racionais e tornar-se-ão um pouco mais “primitivos”.

Só falta os macacos cumprirem a parte deles, para este cenário se confirmar.

Um macaco, na água, a brincar com um iPhone. Se pudesse falar, o macaco diria: “Brincar com patinhos de borracha é coisa para humanos”. E acrescentaria: “, Enquanto cuido da minha higiene pessoal, gosto de ir ao Facebook e dizer às macacas que sou gostoso”.

Não percebo como pode ter sido tirada esta fotografia. Um macaco, por ser macaco, não tem menos direito do que um humano a estar sozinho no banho. Se ele quiser tirar uma "selfie", já é algo da esfera da vontade pessoal. Mas desrespeitar a sua privacidade não é correcto.

Um macaco, na água, a brincar com um iPhone. E se ele quisesse fazer como qualquer humano e mostrar a sua vida toda na Internet?

Não teríamos jantares, comida, copos, ginásios, praias e afins. A vida de um macaco é bem mais divertida do que isso: anda nu o dia todo, leva o telemóvel para o banho, sobe às árvores, faz acrobacias, come piolhos de outros macacos e reproduz-se abundantemente. Demasiadas tarefas divertidas para não partilhar.

Um macaco, na água, a brincar com um iPhone. Por outras palavras, um ser irracional e selvagem com uma tecnologia avançada. Eu sei, com essa descrição, podia ser um condutor das nossas estradas.

Não sabemos se o macaco deixou o telemóvel na água ou não. Nunca vamos saber.

Ou, se calhar, vamos: um dia, ele envia-nos um pedido de amizade no Facebook. Uma mulher que aceite sujeita-se a receber uma mensagem a dizer "Sou gostoso".

Mas será um macaco, na água, a brincar com um iPhone. Demasiado engraçado para não partilhar.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Saudades da escola

Tantos anos depois, a escola mantém-se intacta na nossa memória.

Não mantém nada, apenas fica bem dizer isto. Isso e que nos preocupamos com o ambiente. Eu, se me preocupasse com o ambiente, não publicava estes textos. Tu, se te preocupasses com o ambiente, não vias televisão ao fim-se-semana. Nem ouvias Katy Perry.

Falemos da escola, mas vamos dividir isto por disciplinas.

Português
Sempre fui bom na gramática. Não havia advérbios para me descrever. E gostava das obras de José Saramago. Principalmente de “Os Maias”. Ou “Os Incas”, agora não me lembro bem. Era uma história sobre um poeta que assinava com diferentes nomes e que, no fim, descobria o caminho marítimo para o Algarve.

Matemática
Os quadros das aulas de Matemática estavam sempre cheios de escritos imperceptíveis. Eu continuo a achar que aquilo é um código através do qual os matemáticos nos insultam. E depois riem-se. Pelo menos, os matemáticos que nasceram com a capacidade de rir. Ou seja, praí uns sete.

(mfhiatt/Flickr)


Física
Em Física, calculávamos o tempo que uma bola demorava a atingir o chão, quando lançada do terceiro andar. Em segundos, não sei, mas lembro-me que enquanto ela não chegava ao chão, dava para dar seis cachaços ao gajo da frente.

Química
Uma verdadeira seca: centenas de horas de aula, cálculos e fórmulas, nem uma explosão. 

Ciências da Natureza
A única disciplina em que tínhamos uma boa desculpa para desenhar obscenidades no caderno de um colega. "Professora, estou a estudar o sistema reprodutor."

Inglês/Francês
Não gostava muito de estudar línguas estrangeiras, mas a escolher uma, escolhia o Americano. Mas, como já pensei em emigrar, também gostava de aprender Luxemburguês ou Suíço.

História
Porque é que toda a gente se queixava das aulas de História? Eu não tenho nada a apontar, dos momentos em que estive acordado.

Geografia
Geografia era muito útil, também. Acho que é importante conhecermos alguns países longínquos, como a Amazónia, a Sibéria e o Alasca. Pessoas que não tiveram Geografia, não sabem qual é a capital da cidade do México, por exemplo.

Educação Visual
Em duas horas, passava uma a apagar e meia a afiar o lápis. Cinco minutos para ir buscar o material aos armários, outros tantos para arrumá-lo. Dez minutos a pôr a conversa em dia. Sobravam-me dez para desenhar mas, como não tinha muito jeito, decidia fazer uma pausa. Afinal, a aula era cansativa.

Educação Física
Sempre adorei Educação Física. Se fosse feriado, jogávamos futebol. Se houvesse aula, também. Havia umas bolas maiores, que eram difíceis de chutar. Dizia-se que eram de um jogo chamado “basquetebol”. 

terça-feira, 22 de julho de 2014

Viajas à noite e mudas de estação de rádio

Viajas de carro, durante a noite. Estás farto de ouvir o Pharell Williams dizer “Because I’m happy”, a Adele a dizer “Someone like you” ou o Bonga a dizer “É o homem do saco, ele vai-te comer”.

Vai ao YouTube, existe mesmo e é o melhor entre os três temas que mencionei.

Decides procurar uma estação de rádio que não costumas ouvir, para desenjoar. Por sorte, encontras um programa de música daqueles verdadeiramente alternativos, tão alternativo que nem os amigos do locutor o ouvem. Nem o locutor ouviria, se não tivesse que fazer o programa. Se ele dissesse “eu vou fazer explodir a Torre de Belém”, não haveria medidas de segurança.

( _ambrown/Flickr)


Mesmo que alguém o estivesse a ouvir, ninguém o entenderia. Aliás, é possível entendê-lo, desde que se seja oriundo do mesmo planeta que ele.

Ou que se tenha fumado a mesma coisa.

Adiante. O que quer que ele diga, ninguém vai contestar. Como se, numa aula de Física Quântica, o professor disser que os quarks são feitos de estrôncio, com duas colheres de gálio e 100 gramas de farinha de trigo.

Dado que ninguém sabe o que é farinha de trigo, ninguém consegue contestar.

A voz do locutor é rouca, como sempre. Parece que ele está a falar dentro de uma gruta. Não está: ele vive mesmo numa gruta, mas sai para fazer rádio, todas as noites. Tipo o Batman, mas sem a parte fixe.

O sistema de som é bom, tão bom que oculta o barulho das pedras de gelo, no copo de whisky.

O locutor é este não por ser bom, mas por ser barato: gasta quatro pilhas tipo D, que duram um mês e meio (se o desligares enquanto toca a música).

O locutor vai dizer nomes estranhos de bandas. Se forem inventados, ninguém se importa. Ficas, às 3:42 da manhã, com um exclusivo de You’re na ass”, último single do novo álbum dos “Bathroom Bucket”, intitulado “My diesel engine is very nice”.

Mas, o mesmo single, num programa alternativo de outra rádio, pode chamar-se “Internet Screwdriver”, ser da autoria dos “Philosophical Lion” e retirado do álbum “Math Spoon”.

Não interessa o nome, nunca vais conhecer. Nem os autores daquela música sabem que ela está a tocar.

Quando dás por ela, ouves o Bonga a dizer “É o homem do saco, ele vai-te comer”. Mas com outro nome. Já foste ao YouTube e percebes que estás a ser enganado. Aquele programa deixou de ser alternativo.

Entretanto, o teu carro avaria durante a viagem nocturna. Acabaste de entrar num filme de terror foleiro. Mas isso já não vou ser eu a contar.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Quando os bebés começam a pensar

Um estudo concluiu que os bebés começam a treinar a fala, mentalmente, antes de falar. Que tipo de coisas “dirão” estes pequenos exploradores, para si mesmos, quando estão a treinar a fala? Vamos dividir isto por tópicos.

(omninate/Flickr)

Cão
"Lambe-me a cara. Rouba-me a chupeta. Como é que o desligo?"

Computador
“Gosto daquela caixa que dá imagens e para a qual o meu pai tanto olha. Agora só tenho que descobrir como tiro aquelas imagens de mulheres nuas e ponho bonecos. Já vejo mamas na hora de comer.”

Telemóvel
“Gosto daquele aparelho que dá música de vez em quando. Só não percebo por que motivo eles desligam a música e o encostam ao ouvido. Ainda não perceberam que, se desligarem a música, não adianta depois encostar o ouvido. Podiam deixá-lo tocar.”

Futebol
“Por que motivo toda a gente vê um jogo estúpido em que uns gajos chutam uma bola.  Não era mais fácil à mão? Eu ainda não tenho um ano e já consigo jogar com as mãos. Já consegui atirar a minha chupeta para trás do sofá. Por falar nisso: a minha chupeta?”

Mousse de chocolate
“Hoje, o meu pai comeu uma coisa castanha e viscosa. Acho que era o meu cocó.”

Sopa
“Hoje deram-me uma coisa verde e viscosa. Acho que estão a dar-me o meu cocó de quando eu estou doente. Já percebi quem manda: o meu pai fica com o cocó bom.”

Descanso
“A segunda coisa de que mais gosto, depois de dormir no colo, é dormir sozinho. Noutro dia, vi o meu pai abraçado à minha mãe. Acho que os adultos também não gostam de dormir sozinhos.”

Médico
“Não gosto de ir ao médico. Nem é por causa das agulhas, é porque há sempre um bebé a chorar. Com tanto barulho, ninguém consegue dormir.”

Matemática
“A raiz quadrada de 144 é 12.”

Política
“Ah?!”

Física de partículas
“A sopa tem partículas em suspensão. Às vezes, até tem a minha chupeta em suspensão. Por falar nisso: a minha chupeta?”

Sentido da vida
“Fazer cocó é bom, mas não há nada como uma fralda limpinha.”

domingo, 20 de julho de 2014

E se o Facebook fechasse ao fim-de-semana?

Começo com uma história verídica: uma vez, perguntaram a um amigo meu, que trabalhava numa loja que vendia produtos tecnológicos, se a Internet fechava ao Domingo.

(GraciolliDotcom/Flickr)

(Pausa para o leitor se rir.)

(Pausa maior para o leitor que ri mais tempo.)

E se a Internet fechasse ao fim-de-semana? Para começar, não haveria Facebook ao fim-de-semana. Logo, eram menos dois dias a receber convites para jogos espectaculares. Recuso sempre esses convites: só aceito jogos que impliquem balear as pessoas que enviam convites.

Também recebo muitos convites para eventos. Vou a todos.

Depois, desligo o computador.

Eram menos dois dias a ver fotos de comida e copos. Há quem fotografe tudo. Um amigo meu é assim. A parte boa é que ele não vai a restaurantes, só a casas de “strip”.

Por falar em comida: sabem como fazer “facejacking” a um vegetariano? Publiquem, através da conta dele, uma fotografia de umas papas de sarrabulho.

Eram menos dois dias em que alguém nos identificava em fotografias em que não aparecemos. Noutro dia, a dona de um bar de strip identificou-me. Não percebi, uma vez que eu ainda nem tinha tirado a roupa.

Eram menos dois dias em que toda a gente partilharia a mesma coisa. A expressão “viral” faz sentido: quando todos partilham o mesmo, nem parece tão mau um surto de peste negra.

Eram menos dois dias a ver pessoas que usariam a funcionalidade “a sentir-se qualquer coisa”, que permite criar uma novidade a partir do nada. Ou seja, a fazer o mesmo que 90% dos jornalistas.

Eram menos dois dias em que as pessoas comentariam tudo o que lhes aparecesse à frente. Os comentários no Facebook são uma imbecilidade. Mas há pessoas que estão a melhorar, nesse aspecto. Há quem já tenha descoberto que “você” não tem cedilha.

Eram menos dois dias em que toda a gente estaria no café a brincar com o telemóvel. Hoje, é mais fácil contactar as pessoas através do telemóvel do que falar pessoalmente com elas. Tenho uma amiga que é um exagero, nesse aspecto. E ela ainda tem a lata de arranjar desculpas, como se viver na Austrália fizesse alguma diferença.

Eram dois dias sem telemóveis no café. O que permitiria aproximar as pessoas, literalmente: os telemóveis estão tão grandes que, quando pegamos neles, ficamos sem ninguém à nossa volta, num raio de um metro.

Se o Facebook fechasse ao fim-de-semana, ficaríamos com tempo para o que realmente importa na vida. Para as coisas que nos preenchem. Ou seja...

Não me ocorre nada. Talvez no fim de pedir vidas neste jogo, publicar uma fotografia do meu almoço, enviar 450 mensagens e "sentir-me qualquer coisa", me ocorra o que realmente importa na vida.

Se a Internet fechasse ao Domingo, este texto não estaria publicado. E isso é uma vantagem a sério.