sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Conversa partilhada

Houve um tempo em que viajei diariamente de comboio. Nessa fase, conheci diversos tipos de personagens. Uma delas era o “homem que partilha conversas”.

(Simon Pielow/Flickr)
Esta personagem caracteriza-se por falar ao telefone com recato, quando ninguém está por perto, e falar bem alto, quando existe um público. É quando sente que as pessoas começam a prestar atenção à conversa que a mente do “homem que partilha conversas” se torna semelhante à de um especialista em artes performativas.

Ou de um especialista em tudo, visto que ele aborda diversas temáticas. Vou representar o tipo de afirmações que esta personagem profere.

“Sabes que eu tenho muita experiência nisso, sou um profissional da engenharia há trinta anos. Eu estive para projectar a ponte Vasco da Gama. Não fui eu porque, na altura, fui de férias para Benidorm.”

(As pessoas começam a rir da situação.)

“Sabes que eu estou por dentro desse assunto, porque tenho um amigo que trabalha nessa área. Eu falei com ele, até porque tivemos um jantar… foi tudo à grande, pra cima de 50 euros. No fim, ainda íamos às gajas, mas ele viajava no dia seguinte.”

(As pessoas sentem alguma vergonha alheia.)

“Acabei por ir às gajas sozinho.”

(As pessoas aumentam o nível de vergonha alheia.)

“Comprei um carro clássico, ainda gastei 50 mil na brincadeira. Mas o carro tem a minha pinta. Sabes que eu também sou clássico. As gajas novas ainda olham para mim.”

(Uma miúda começa a vomitar, no fim da carruagem.)

“Estou em viagem, vou de comboio… É, gosto de vir de comboio, acaba por ser um passeio. Mas posso falar, que ninguém está a ouvir.”

(O homem olha em volta, para confirmar. Nesse momento, toda a gente olha para o lado e faz de conta que não está a ouvir.)

“Olha, precisava de um favor daqueles que a gente sabe. Não, posso falar à vontade, ninguém está a ouvir. Era, era, precisava aí de um biscate. Oh pá, já sabes que eu trato bem as pessoas.”

(O homem é o único a pensar que está a falar em código. Toda a gente percebe que ele está a pedir algo obscuro. Mas ele resolve ser mais claro.)

“Claro, já sabes que eu trato bem as pessoas. Eh eh eh!”

(A miúda recomeça a vomitar.)

Perto da última estação, o homem prepara-se para terminar a chamada.

“Olha, tenho que desligar, vou chegar à estação e aquilo tem muita gente, não é sítio para falar.”

Mais vergonha alheia.

O único cuidado a ter com este tipo de pessoa é não lhe ligar. Pelo menos, se ela estiver num transporte público.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Inteligência aumentada

Já sabemos que os barbeiros e os taxistas sabem tudo. Imperativos profissionais. Porém, há uma situação em que os homens sabem tudo (as mulheres também saberão, certamente, mas só tenho memória de ter observado a situação acontecer com pessoas do sexo masculino): os homens sabem tudo quando estão a assar qualquer coisa.

(Joshua Bousel/Flickr)
No momento em que assume o churrasco, o homem mistura Einstein com Aristóteles, Winston Churchill com Sun-Tzu, Saramago com Jorge Jesus.

(Uns pensarão que Jorge Jesus está a mais, neste restrito grupo de notáveis, outros considerarão que ele é o único notável do grupo. Eu podia ter escolhido José Mourinho, mas achei que Jorge Jesus combinava melhor com Saramago, no campo da palavra.)

Um homem pode ser relativamente ignorante. Um pouco saloio. Moderadamente estúpido. Mas assim que se aproxima de um assador, “bota lume” e começa a assar, a sua capacidade intelectual multiplica-se por 322. Testem, perguntem, atirem-lhe cerveja.

- Qual é o sentido da vida?

- Essa é uma pergunta cuja resposta abarca uma tal diversidade de disciplinas, físicas e metafísicas, que o tempo deste assado revelar-se-ia um pequeno grão de areia, nesse deserto que são as dúvidas e os anseios da vivência humana.

Pumba. Isto enquanto vira duas febras.

- Qual é a terceira lei de Newton?

- A lei do par Acção-Reacção diz que quando um corpo A exerce uma força sobre um corpo B, o corpo B exerce, sobre o corpo A, uma força de igual intensidade, mas de sentido contrário.

Pumba, isto enquanto bebe um pouco de cerveja e coça os testículos.

- Qual é a raiz quadrada de 144?

- 12.

- E de 432904890348?

- F***-se, achas que eu sou uma p*** duma calculadora?

Calma, a inteligência multiplica-se por 322, mas se ele se queimar, a fúria aumenta 150 vezes.

Não sei qual a explicação científica, mas um homem a fazer um churrasco assume uma clarividência digna dos deuses. Imaginem como ficará Marcelo Rebelo de Sousa a fazer um churrasco.

E as pessoas que trabalham em churrasqueiras? Calma, como são sobreexpostas ao efeito, este dilui-se com o tempo. A Natureza tende sempre para o equilíbrio.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Pessoas que concordam com tudo

Acho piada a pessoas que concordam com facilidade. É um sistema que elas possuem que torna o pensamento tão maleável como a água. Tão adaptado como uma barata. (Em alguns casos, mais repugnante que a própria barata, visto que essas pessoas não tem opinião sobre coisa nenhuma.)

(JD Hancock/Flickr)
Acho piada. Um gajo diz: “Isto do Médio Oriente é complicado, mas os israelitas têm que se defender”. A resposta é: “Realmente, eles têm que se safar, ali no meio”. Um gajo diz: “Isto do Médio Oriente é complicado, mas os palestinianos são massacrados”. A resposta é: “Realmente, é uma injustiça”. Um gajo diz: “Isto do Médio Oriente é complicado, mas o PSI-20 vai descer ligeiramente”. A resposta é: Realmente… realmente”.

As pessoas que concordam com tudo acompanham qualquer coisa que um gajo diga. Se um gajo lhes perguntar a opinião, sem ter dito ainda a sua, estas pessoas começam a patinar, porque ainda não têm algo com que concordar. Uma vez, uma destas pessoas usou o truque do “Olha um dinossauro!”: olhei para trás, porque convém sempre ter cuidado com um T-Rex que possa aparecer, e quando voltei a olhar para a frente, a pessoa já lá não estava.

Eu sei que poderá parecer que eu fui estúpido, por ter acreditado na possibilidade de estar a aproximar-se um dinossauro, mas queria ver se fossem vocês. É que ser dilacerado por um réptil gigante estará entre as três coisas mais desagradáveis do Mundo, ao lado de ouvir um álbum da Katie Perry e de conversar com alguém que diz “realmente” em todas as frases.

As pessoas que concordam facilmente são como aqueles pássaros que voam em bando. A diferença é que estas pessoas não têm asas, pelo que voam a partir do chão.

Testem a capacidade de concordar que elas têm. É um recurso inesgotável.

“A gravidade é opcional.”
“Pois é.”

“Não acredito que o Homem foi à Lua.”
“Aquilo foi encenado.”

“Eu estou ao nível de um Aristóteles, no que respeita ao pensamento filosófico.”
“Até poderás estar um pouco acima.”

(Neste caso, a pessoa quase discorda, mas é para reforçar a nossa espectacularidade.)

As pessoas que estão sempre de acordo são quase como um espelho. Quase, porque o espelho acaba por ser mais útil.

PS: eu estou genericamente de acordo com este texto.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Eu não sei andar de bicicleta

Saber andar de bicicleta era a segunda habilidade que eu mais gostava de ter. A primeira era saber treinar equipas de voleibol. Mais propriamente, equipas femininas. Se possível, tentaria ter sucesso também desportivamente.

(Gigi C./Flickr)
Mas era fixe saber andar de bicicleta. Em miúdo tentei, mas aquilo parecia-me tão difícil como deslocar-me entre dois arranha-céus, por cima de uma corda, tentando segurar quinze pratos numa mão e um gira-discos na outra (com um disco do Demis Roussos a tocar).

Por isso, depois de alguns dias a tentar aprender a andar de bicicleta, desisti e procurei passar o meu tempo com algo mais fácil: Astrofísica.

Hoje, andar de bicicleta está na moda. Como não sei andar, posso sempre dizer que “andar de bicicleta está muito batido”, que é o que fazem as pessoas aborrecidas quando alguém ou alguma coisa atingem algum sucesso.

(Neste ponto do texto, reparo que tenho uma certa tendência para escrever “bicilceta”. Deve ser por ser uma palavra complicada e não por eu ser estúpido.)

O conceito das rodinhas nas bicicletas fascina-me. E se existisse um dispositivo de lógica semelhante para nos ajudar a caminhar, quando bebemos um copo a mais? E se existissem rodinhas para as crianças, quando estão a aprender a andar? E se existissem umas rodinhas para aqueles jogadores de futebol muito fracos?

Cada vez há mais especialistas no mundo das bicicletas. Os capacetes são muito profissionais, as bicicletas têm tracção às quatro, jantes de liga leve, gps, abs e yhgjkft.

(Este último pode não existir.)

Os ciclistas dos tempos modernos têm tanto equipamento que alguns chegam a comprar outra bicicleta só para o transportar.

Fazem percursos difíceis, que implicam grande risco de lesão. Não pela possibilidade de quedas, mas porque são monótonos e alguns ciclistas adormecem.

Podíamos arranjar um sistema para produzir electricidade a partir dos movimentos das pedaleiras. Mas, talvez, só teríamos produção de electricidade ao Domingo de manhã.

Apesar de tudo, eu acho que andar de bicicleta é fácil. Desde que o planeta esteja quieto, o que, segundo Galileu, é pouco provável.

Tenho pena de não saber andar de bicicleta. Em compensação, nunca caí a descer o monte.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Resolver tudo com xadrez

Nos primórdios da nossa espécie, as divergências resolviam-se à chapada. No tempo dos cavaleiros, as divergências resolviam-se com uma espada. No tempo dos cowboys, era com uma pistola. Hoje, existem armas de destruição massiva prontas a ser usadas.

Como já deu para perceber, por esta sequência, que isto vai acabar mal, proponho uma nova forma de actuar. Seja em conflitos pessoas ou entre países, o ideal seria resolver tudo num jogo de xadrez.

(Ranil Amarasuriya/Flickr)
Logo a começar, iria melhorar a capacidade de raciocínio da generalidade da população. Estão a ver aquele ser rudimentar, incapaz de articular uma frase com conteúdo, que passa mais tempo a coçar os testículos do que a processar informação, a resolver um atrito com uma “abertura de dois cavalos”, à qual o seu adversário responderia com uma “defesa francesa”.

Imaginem dois gajos bêbados que se chateiam numa discoteca. Em vez de saírem para a rua e andarem à chapada, combinam um jogo de xadrez para o dia seguinte. E vão passar oito horas a resolver a contenda, em vez de dois minutos de pancadaria em que se perderia sangue e alguns dentes.

Imaginem que a Coreia do Norte decidia atacar todos os países do Mundo, excepto a China, Cuba, o Laos e o Vietname (no fundo, os países preferidos do Partido Comunista Português). Em vez de desatar a lançar mísseis para todo o lado, marcava vários jogos de xadrez.

Para aumentar a espectacularidade daquela espécie de guerra, os jogos seriam transmitidos na televisão. Claro que teríamos que adaptar o jogo: o jogador da Coreia do Norte, uma vez que era comunista, não tinha rei nem rainha, só tinha peões e cavalos.

No futebol, poderia ser uma forma de desempate. Em vez dos penalties, que toda a gente diz que são uma lotaria, colocaríamos os dois treinadores numa partida de xadrez. Claro que José Mourinho conseguiria ter peças super-motivadas e conseguiria transformar peças de damas em peças de xadrez. Já Jorge Jesus passaria o tempo todo a gritar com as peças e a chamar-lhes nomes.

Para isto resultar, teria que ser implementado nas escolas. Dois miúdos que se chateassem já não andariam à chapada no intervalo ou às 18h30 no portão da escola. Iriam para uma sala, jogar xadrez.

Para além de esta prática diminuir a violência, teria a vantagem de, pela concentração que o jogo exige, ajudar a calar aquelas pessoas que, em discussões, dizem o dobro das asneiras que costumam dizer em conversas tranquilas.

Acho que esta medida poderia tornar o Mundo melhor. Quem não concorda merecia duas chapadas.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O meu truque favorito

O meu truque favorito de ilusionismo seria aquele que fizesse desaparecer as pessoas que estão sempre a dizer que o ilusionismo é um truque. Estas pessoas conseguem três feitos notáveis num só momento: perceber o óbvio, dizer o óbvio e estragar o momento.

(Internet Archive Book Images/Flickr)
É como quando alguém diz alguma coisa constrangedora e, em vez de ser guardado um precioso silêncio para que se possa avançar aquele momento triste, há outra pessoa que diz “Eeeeeeeeeeeeeei!”. Nestas alturas, tem que existir um silêncio suplementar, desta vez para anular o “Eeeeeeeeeeeeeei!”.

Podiam fazer desaparecer as pessoas que desvalorizam o ilusionismo. A elas e às pessoas que param os carros em todo o lado (neste último caso, teriam que fazer desaparecer também o carro, mas o David Copperfield fez desaparecer um avião, por isso…).

Pessoas que desvalorizam o ilusionismo são mais aborrecidas do que uma comissão parlamentar de inquérito em que se discuta a nomeação de pessoas para comissões parlamentares de inquérito em que se debata a distribuição dos lugares nas comissões parlamentares de inquérito.

Estas comissões não existem, mas inventei para dar uma ideia. É como os ilusionistas: inventam coisas que fazem pensar quem respeita aquela arte. Já para as pessoas que desvalorizam constantemente o ilusionismo, é tudo fácil.

Uma pessoa é serrada a meio, numa caixa, e volta a aparecer inteira, como se nada fosse. Para uns, será sempre espectacular (mais não seja, pelas assistentes, que são, por regra, bastante jeitosas). Para as pessoas que desvalorizam o ilusionismo, há sempre uma explicação.

“Ah, ela encolheu as pernas”, “Ah, é um truque de espelhos”, “Ah, é um buraco no espaço-tempo”, "Ah, é...". Esta última representa as pessoas que desvalorizam o ilusionismo mas, ao mesmo tempo, são desprovidas de imaginação.

Estas pessoas têm, geralmente, um buraco no espaço-tempo cerebral. Por isso é que veem o David Copperfield a atravessar a Muralha da China e dizem “ah, ele não passou mesmo”. Só o acto de negar que ele passou implica que alguma percentagem daquela mente, ainda que muito reduzida, acreditou que fosse possível passar.

É como aquelas pessoas que ouvem falar das mais absurdas teorias da conspiração e que, nos primeiros quinze segundos, acreditam. Só quando a consciência volta ao controlo é que percebem que o que ouviram não faz qualquer sentido.

Ou aquelas pessoas a quem dizemos "vou mandar-te um elefante e um saco cheio de notas por e-mail" e que respondem "agora estou sem bateria, mas em casa vejo isso".

Os ilusionistas, caso algumas pessoas não tenham reparado, criam ilusões. E vivem disso. Como diz o Joker, num dos filmes do Batman, “se és bom numa coisa, não a faças de borla”. Os ilusionistas são bons a enganar-nos e ganham dinheiro com isso.

Agora que penso nisso, muitas profissões encaixam nesta descrição.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

As festas são sempre iguais

Nunca ficaram com a sensação de que todos os jantares de amigos, seguidos de diversão nocturna, têm um guião já escrito e que será cumprido à risca? Tal como os orçamentos do Estado. Esperem, não era este o exemplo. Era “tal como os concursos públicos”: já está tudo decidido, ainda antes da decisão.

(JD Hancock/Flickr)
Há sempre um amigo que come desmesuradamente. Come tanto que pede entradas antes das entradas. Esse amigo tem, geralmente, a barriga tão grande que fica sempre duas mesas atrás. Perdemos na possibilidade de conversar com ele, mas ganhamos quando ele se peida.

A comida é sempre lombinhos com “champignon”. Ainda bem, porque eu detesto cogumelos. Mas é sempre a mesma comida. É como as eleições em Portugal: por muito que escolhas, acabas sempre a comer a mesma merda. O vinho é como o dinheiro disponibilizado para obras públicas: nunca chega.

Aliás, o teu orçamento sofre sempre derrapagens. Não é a única derrapagem da noite, uma vez que, à medida que a noite avança, a tua aderência ao piso começa a ser mais fraca.

Os homens só se portam bem à mesa quando há um jantar de mulheres, na mesa do lado. Chegam a perder a cabeça, em questões de bom comportamento. Diz-se que há homens que chegam a usar talheres.

Depois, vai tudo para uma discoteca. Há montes de pessoas alcoolizadas. São todas muito agradáveis. Sobretudo, quando desmaiam. Há muitos encontrões. Gosto de andar aos encontrões, principalmente, aos bêbados que ainda não desmaiaram.

A música é contagiante e obriga-nos a dançar. Está tão alta que mexemos só com a vibração.

Os rituais de acasalamento são bonitos, mas têm um problema: os seguranças interrompem sempre a pancadaria entre machos-alfa.

Tenho um amigo que diz que os preços da noite são proibitivos. É mentira: podes beber o que quiseres. O máximo que pode acontecer é não teres dinheiro para pagar. Mas, antes, bebeste tudo o que querias…

A noite tem muito estilo. Há roupas que só podem ser usadas numa discoteca. Porque está escuro. Há mulheres que usam vestidos demasiado curtos e passam a noite a segurar neles. Tentar ser sexy a segurar permanentemente o vestido tem o mesmo resultado que tentar acelerar carregando no travão.

No fim da noite, houve peripécias, mas foi tudo exactamente igual às outras noites em que houve peripécias. Tu não reparas no padrão, nas 24 horas seguintes, que é o tempo de que precisas para que o teu cérebro volte a funcionar.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Diz as coisas como deve ser

Nunca pensaram que o Mundo era bem mais divertido se comunicássemos como as crianças, quando têm algo desagradável para nos dizer.

(JD Hancock/Flickr)
Imaginem o Ministro das Finanças de mãos atrás das costas, a rodar o tronco de um lado para o outro, a evitar olhar para o Primeiro-Ministro e a dizer: “O défice estragou-se. Não fui eu!”. A política era diferente, com certeza.

Alguém batia com o carro do pai e, ao chegar a casa, dava-se este diálogo:
- Pai, um elefante passou a correr pelo teu carro e estragou-o!
- E como é que ele ficou?
- O carro?
- Não, o elefante, filho!
- Ficou bem.

O Mundo era bem mais divertido.

Um treinador de futebol chegava à conferência de imprensa, cruzava os braços, fazia beicinho e dizia: “A minha equipa não joga nada”. A seguir, os adeptos davam-lhe um abraço e ficava tudo bem.

O Mundo era bem mais divertido.

Um gajo chegava ao pé da namorada e ela dizia: “Esqueceste-te do nosso aniversário!”. Ele abria os braços e dizia: “Estava a fazer de conta! Xaraaaam!”.

O Mundo era bem mais divertido.

E estúpido.

Um polícia mandava um condutor parar. Verificava os documentos e faltava alguma coisa. O condutor dizia: “Foi um bicho que roubou!!!”. Imediatamente, o polícia entra no carro e avisa todas as unidades: “Atenção, estamos à procura de um bicho com uma carta verde do seguro!”.

O Mundo era bem mais divertido.

Um empresário tinha que despedir um funcionário. Chamava-o e dizia: "Vamos jogar um jogo. Tens que procurar um gato verde fluorescente, pelo Mundo inteiro, e trazê-lo. Até lá, não vens trabalhar e não recebes". E o funcionário ia à procura, para sempre.

Neste caso, o Mundo seria igual, porque se usam desculpas bem piores para despedir funcionários.

Imaginem que os nossos líderes, políticos ou económicos, falavam à população como se nós fôssemos crianças?

Espera lá…

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A felicidade é complicada

Pelo menos, na fórmula que um grupo de cientistas apontou como aquela que nos revela o caminho certo para se ser feliz. O estudo tem o aborrecido nome de “Um modelo neuronal e computacional para um momento subjetivo de felicidade”.


É nisto que os cientistas podem irritar-nos. Se o tema do estudo é a felicidade, arranjem um título divertido. Algo como “Um modelo espectacular para te sentires bué altamente”. Ou “Um modelo… yupi!!!”. Algo que mostre que, por momentos, vocês saíram da pele de cientistas.

(Tentem que o título não revele que vocês ingeriram felicidade, no estado sólido, líquido ou gasoso).

O estudo colocou os participantes num jogo com recompensas monetárias e tentou medir as respostas aos estímulos. Ficou demonstrado que, quando mais tempo passa sobre um momento, menos ele contribui para a nossa felicidade. E que a expectativa está directamente relacionada com a felicidade.

No primeiro caso, dá para perceber: o nosso clube de futebol pode ter sido campeão no ano anterior, que isso em nada contribui para a nossa felicidade. Só contribuirá se for campeão outra vez. Pelo menos, mais dez vezes.

E a expectativa também está sempre presente. Imaginem um gajo numa discoteca, em fim de noite, sendo que essa noite está a tornar-se cada vez mais deprimente. De repente, ele estabelece um contacto visual promissor com uma miúda (não interessa se é gira, o álcool, a partir de certa hora, só mostra miúdas giras). Num instante, a noite passa a ser espectacular. Tudo porque ele estava muito próximo de ir sozinho para casa e, de repente, há uma hipótese.

Ainda assim, olha-se para a fórmula da felicidade e percebem-se três coisas: a felicidade é impossível de atingir, porque a equação é impossível de resolver; se olhares mais do que dez segundos para aquela fórmula, transformas-te num carro velho, esquecido numa sucata (ou num matemático, o que é igual); aquilo é só uma maneira complicada de dizer o que já sabias, que é o mesmo que os políticos fazem, sempre que têm que justificar uma medida impopular.

O estudo envolveu 26 pessoas, a quem foi feito um “scan” cerebral, enquanto jogavam o dito jogo, no computador. Esse “scan” serviu de base para prever intervalos de padrões de felicidade de 18420 pessoas.

Dependendo da nacionalidade das 26 pessoas, digo eu, podemos ter diferentes resultados. Para um português, a felicidade é o seu clube de futebol ganhar. Para um brasileiro, é haver feijão e samba. Para um japonês, é haver um máquina fotográfica.

Houve um estudo, há alguns anos, que determinou que a Dinamarca era o país mais feliz do Mundo. Segundo o estudo, o segredo estava nas baixas expectativas. Ou seja, para um dinamarquês, se o sol nascer a Este e se puser a Oeste, já não é mau, porque tudo correu conforme o previsto.

Para mim, os dinamarqueses são felizes, fundamentalmente, porque vivem com dinamarquesas.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Não fui com a tua cara

Um estudo recente revelou que nós avaliamos pela cara a confiança que as pessoas nos merecem. É bom saber isso. É reconfortante. Anos e anos de desenvolvimento da Psicologia e da Sociologia, toneladas de conhecimento armazenadas em bibliotecas, com alguns dos especialistas soterrados pelos biliões de páginas escritas (não, não os salvem, eles gostam de lá estar!) e, no fim, avaliamos as pessoas pela cara.

(Martin Fisch/Flickr)
Ainda bem. Pensemos em todos os políticos que foram trafulhas. E pensemos que, quando os elegemos, pensámos: “Parece ser sério. Inspira-me confiança”. Isto é muito bom!

Pensemos no burlão que nos disse que trocava as nossas notas velhas por notas à prova de um holocausto nuclear (sim, porque quando houver um, vai ser super-importante ter dinheiro que resista). Pensemos que ele era bem falante e que nos inspirou confiança. E que lhe demos todo o nosso dinheiro.

Não, não fomos estúpidos, o gajo é que apelou ao nosso lado bom.

E o Hitler? Discursava perante as massas, convenceu muita gente. Parecia ser um gajo porreiro, um gajo que qualquer um convidaria para jantar (desde que não lhe pedisse para pagar a conta, não fosse ele passar-se da cabeça).

Pronto, o bigode era um bocado ridículo, mas o pessoal foi com a cara dele, na mesma.

O estudo acrescenta que as pessoas com sobrancelhas altas e maçãs do rosto proeminentes são as que inspiram mais confiança.

Parece que estou a ouvir alguém dizer: “Aquele gajo disse-me que ganhei um prémio e tenho que o ir reclamar a um hotel. Acho que é vigarice mas, ao mesmo tempo, as maçãs do rosto dele não parecem mentir”.

Já viram se fosse o nariz grande a inspirar confiança? O Júlio Isidro era rei. E se fosse a barriga? Fernando Mendes ao poder. E se, nas mulheres, fossem as mamas? Havia meia dúzia de actrizes pornográficas que poderiam aspirar à Casa Branca.

(“Aspirar”, neste caso, é mesmo aspirar, seus indecentes.)

Acrescento que, quando estamos bêbados, toda a gente parece ter maçãs do rosto encantadoras.

A grande conclusão deste estudo é que, por mais que aprendamos sobre relações humanas, é pela cara que tiramos a pinta das pessoas. No fundo, somos como os cães: podem ensinar-nos a fazer xixi na rua, mas gostamos sempre de voltar àquele tapete velho.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O gajo que não percebeu

A minha figura preferida, no mundo da diversão nocturna, a seguir ao gajo dos cachorros, é o gajo que ainda não percebeu que não vai acontecer nada. Não perceberam o conceito? Eu explico com um exemplo.

(Wee Sen Goh/Flickr)
Num espaço de diversão nocturna, há uma despedida de solteira a decorrer. A noiva, tradicionalmente envergando algum tipo de elemento distintivo, como um lenço, uma tiara, uma faixa, algum tipo de objecto que se pareça com um pénis, ou todos estes elementos ao mesmo tempo (no caso de ter amigas mais azeiteiras), dança no meio do grupo, movendo-se entre os terrenos da diversão e do tédio, com grande agilidade.

Duas ou três amigas tentam acompanhá-la, nos intervalos dos momentos em que estão a aturar gajos bêbados que tentam iniciar a interacção verbal. Três ou quatro amigas estão sentadas, constantemente a olhar para o relógio, com uma cara de quem está há seis horas numa aula de Complementos de Análise Matemática, com dois chimpanzés a saltar em cima de uma mesa e a atirar pratos contra a parede. Um cenário de sonho, portanto. Como disse um amigo meu, “uma noite que ela nunca mais vai esquecer”.

Logo ao lado da roda formada pelas meninas que dançam, está o gajo que não percebeu que não vai acontecer nada. Com a melhor camisa às riscas, osclinando entre o por dentro, por fora das calças ou “o que raio aconteceu com essa camisa”, está a fazer uma dança que tanto pode ser uma dança como um excelente exercício de alongamento das costas. A espaços, dá uma passa num cigarro electrónico. Nesses momentos, o aparelho emite uma luz que coloca o gajo algures entre o exterminador implacável e o ET.

Ele está confiante. Vê-se em todos os seus gestos que ele acredita que vai sair dali com uma miúda. Toda a gente já percebeu o contrário, mas ele é um herói e os heróis não se guiam pelas ideias dos outros.

À medida que a noite vai passando, as suas hipóteses diminuem. Mas ele é um herói e os heróis não desistem.

O inevitável acaba por acontecer: ele começa a falar com uma das miúdas.

Mentira. O inevitável acaba por acontecer: as miúdas vão embora. Ele dirige-se à caixa de pagamento. “Desistiu”, pensamos nós. Errado, ele voltou para a pista. Um amigo meu surge com uma boa explicação: depois de horas a aprimorar a técnica, ele está pronto para se safar. Há um pequeno detalhe: a pista está quase vazia. Mas isso não muda nada. Os heróis não se interessam por estatística.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Há coisas que a gente não sabe

Quanto ao domínio de diversas matérias, há três tipos de pessoas: as que sabem muito, as que não sabem nada e as que sabem como algo é difícil. Passo a explicar.

Parte da magia das conversas de café está em acreditarmos que somos especialistas em diversas matérias. Pois bem, há sempre um caramelo que estraga esta magia, ao mostrar como as coisas são difíceis. Vou dar alguns exemplos.

(Vishal Sharma/Flickr)

Política
“Estes gajos prometem uma coisa e depois fazem outra.”
"O trabalho deles não é fácil. Eles são sempre apanhados de surpresa pelas contas aldrabadas. Os políticos fazem o melhor. Há coisas que a gente não sabe."

Economia
“Estes gajos dos bancos só fazem trafulhices.”
“O trabalho deles não é fácil. Eles trabalham com indicadores que podem ser enganadores e o negócio deles é muito complexo. Os banqueiros fazem o melhor que podem. Há coisas que a gente não sabe.”

Construção civil
“Este prédio fica horrível, nesta rua.”
"O trabalho deles não é fácil. Às vezes, uma coisa pode ficar bem no projecto, mas depois há imprevistos no terreno que dificultam a construção, tais como a resistência dos materiais, a humidade ou o movimento de translacção de Saturno. Há coisas que a gente não sabe."

Futebol
“Este treinador é um nabo.”
“O trabalho deles não é fácil. Eles é que treinam com os jogadores, durante a semana. Quando escolhem a equipa, pensam sempre que aquela é a melhor. Há coisas que a gente não sabe.”

Gastronomia
"A comida está uma merda."
"Pois está."

Calma, o que ele realmente diz é: “O trabalho deles não é fácil. Basta falhar uma quantidade de um ingrediente e a comida não fica igual. Há coisas que a gente não sabe.”

Sentido da Vida
“A vida é dura.”
“Não é fácil. Um planeta com sete mil milhões de pessoas tem sempre complicações. Há coisas que a gente não sabe.”

O que quer que digas, este teu amigo vai tentar justificar com a dificuldade da vida, com a inevitabilidade da lei da gravidade ou com a evolução dos títulos na bolsa de Tóquio.

Há sempre uma coisa que a gente não sabe: que aquele gajo é assim. Se soubéssemos, não teríamos começado nenhuma conversa com ele.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Salvem os meteorologistas

Sou um defensor dos meteorologistas. Toda a gente os ataca, sem motivo. Parecem os políticos ou os árbitros de futebol.

Não parecem nada. Os meteorologistas sabem o que fazem.

(aimhelix/Flickr)
As pessoas passam a vida a queixar-se, sem razão. Eles (e vou usar a expressão “eles” com base em clássicos como “eles dão chuva para amanhã”) preveem 32 graus. Verificam-se 30 e toda a gente reclama. Eles preveem chuva durante a manhã. Chove durante a tarde e toda a gente reclama.

Eles preveem vento fraco a moderado e verifica-se vento forte. A única pessoa do Mundo que sabe distinguir, com precisão, vento moderado de vento forte, reclama.

Eles dão-se ao trabalho de prever o estado do tempo para dez dias. Basta falharem uma manhã e já há quem os queira mandar para a fogueira. Num dia de sol porque, com chuva, a fogueira apagar-se-ia.

Eles analisam dados complexos e ajudam-nos a escolher a roupa para amanhã. (Isto foi só para enganar, eu escolho a roupa de manhã, nunca na noite anterior.)

E se, noutras profissões, houvesse o mesmo grau de acerto dos meteorologistas? O Mundo seria um lugar melhor.

Os políticos cumpririam a maior parte das promessas. As obras públicas não teriam derrapagens financeiras de 500%. O treinador da nossa equipa de futebol acertaria na escolha dos jogadores. Nós acertaríamos nas mulheres com quem ter uma relação. Elas acertariam nos homens adequados.

Com uma vassoura.

Não teríamos ido àquele restaurante “gourmet”, pagar muito e comer pouco. Não teríamos acreditado naquela mensagem a dizer que tínhamos ganho 80 milhões de euros, uma ilha no Dubai e o carro do Batman, só tendo que ligar para um número de valor híper-acrescentado para reclamar o prémio.

Atenção: isto nunca me aconteceu.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Desportos interessantes

O Mundial acabou há poucas semanas e a época de futebol está quase a começar. Para que não pensem que sou um daqueles fanáticos que só pensam em futebol (já basta eu ser, escusam de saber isso através deste blogue), vou falar de outros temas. Bioquímica, por exemplo. Estava a brincar. Eu queria falar sobre dança contemporânea. Estava a brincar, outra vez. Vou falar um pouco sobre outros desportos que despertam a minha curiosidade.

(Rafael Alvez/Flickr)

Basebol
O basebol tem regras tão complexas que todos os árbitros são doutorados em Direito. Uma vez, tentei ver um jogo de basebol. Depois, mudei para algo mais simples: um documentário sobre aprendizagem de Islandês

Basquetebol
É injusto dizer que no basquetebol não há espaço para pessoas de baixa estatura. Se juntarem várias, na posição certa, podem fazer um excelente banco para os suplentes se sentarem.

Voleibol
Modalidade de uma beleza assoberbante. Há quem diga que existe a vertente masculina deste jogo, mas não posso confirmar.

Ténis
Única hipótese de termos, na televisão, duas miúdas giras a gemer, durante muito tempo, sem que pensem que estamos a ver pornografia.

MMA (Modalidade que combina várias artes marciais e que é praticada num octógono com rede à volta)
Este é um desporto em que um atleta pode ficar longos minutos, no chão, abraçado ao adversário, com os genitais junto do rosto deste, sem que ninguém ache estranho. Assistir a este desporto é extraordinariamente relaxante. Não porque transmita uma sensação de paz, mas porque quando não podemos bater em alguém, ficamos felizes só por ver alguém a fazê-lo. É a mesma lógica da pornografia. Nos desportos de combate, pode haver KO muito cedo, o que faz com que haja quem pague balúrdios por algo que pode durar menos de um minuto. É a vida, nos bordéis acontece o mesmo.

Curling (Desporto praticado no gelo e no qual um dos atletas parece varrer o chão)
Uma mistura de patinagem, jogo da malha e faxina de casa. Mas sem as miúdas giras da patinagem, os velhotes divertidos da malha e o pó que me faz espirrar.

Ciclismo
O ciclismo é emocionante. Gajos a pedalar, durante muito tempo. Depois aparecem miúdas mesmo giras. Esperem: estou a confundir com as aulas de “cycling”, no ginásio.

Podia enumerar outros desportos. Mas vai dar futebol na televisão.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Afinal, somos o melhor país do Mundo?

Não sei se o leitor sente o mesmo, mas começo a ficar confuso com aquelas listas de melhores coisas do Mundo que envolvem Portugal. Nunca repararam? “A melhor praia do Mundo é portuguesa.” “Praia portuguesa entre as 25 melhores do Mundo.” “Portugal é o melhor destino de férias de 2014.” “Melhor destino de surf é Portugal.”

A sério: afinal, somos o quê? Em que lugar estamos? Somos mesmo o melhor destino? Ou o segundo? Ou o 15.º? E as praias? São as melhores?

(Dennis Jarvis/Flickr)
Devia haver um consenso, nesta matéria. É como no BES: deviam decidir se aquilo vale a pena ou não. E depois comunicavam alguma coisa palpável. É como no Benfica: deviam ter dito logo quantos jogadores iam sair. É como aquela miúda que não nos dá grande bola: devia dizer-nos se temos hipótese, para podermos saber o que fazer.

A verdade é que, a seguir ao sentido da vida, a questão que mais inquieta os portugueses é: quando acabam as pilhas da Cristina Ferreira?

Não, não é esta. É a seguinte: somos ou não o melhor destino de férias do Mundo?

A pensar nesta questão, investiguei outros aspectos em que podemos aparecer num top qualquer, organizado por um jornal ou uma revista de outro país.

Política
Só agora Portugal foi superado pelo Brasil no primeiro lugar do top de países que hipotecam o seu futuro para organizar grandes eventos internacionais.

Economia
Entre os “bancos maus” da Europa, o BES é o 3.º mais fofinho.

Cultura
Quim Barreiros foi considerado o melhor poeta do Mundo a falar de obscenidades por código. Portugal tem, entre os “Toys” de todo o Mundo, aquele que canta melhor.

Desporto
Oito em cada dez condutores portugueses comporta-se como se estivesse num grande prémio de Fórmula 1. Destes, metade tem um desfecho típico de um circuito de carrinhos de choque.

Gastronomia
No top-10 das melhores papas de sarrabulho da Via Láctea, todas são portuguesas. O facto de só se cozinhar este prato em Portugal pode ter contribuído decisivamente para este resultado.

Sociedade
Portugal é o país do Mundo com mais pessoas que acham que qualidade de vida é tirar uma fotografia aos próprios pés, na praia. Portugal é o 5.º país do Mundo em que mais pessoas destruiriam o planeta, para poderem salvar o seu clube de futebol.

Com isto, espero ter aumentado a confusão. Afinal, em que lugar estamos? E, mais importante, essa classificação foi por culpa do árbitro?


Independentemente da dúvida acerca do lugar que ocupamos numa determinada tabela, o importante é que não faltará muito tempo para outro jornal ou outra revista nos colocar num top qualquer. No fundo, é como sair à noite: às vezes, acham-nos piada, outras vezes, não.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Os condutores da nossa paixão

O Governo Britânico anunciou que os carros sem condutor vão poder ser testados no Reino Unido, a partir de Janeiro de 2015. Se houver ideias de fazer o mesmo em Portugal, e para que não haja um choque na população, ao passar de carros com condutor para carros sem condutor, eu propunha uma transição com robôs. Como é evidente, os robôs teriam que reproduzir fielmente alguns estilos de condução, que passo a elencar.

(Bart/Flickr)

O Filósofo
Pára em qualquer lado. Pode ter oito carros atrás dele, mais o camião do lixo e um navio de carga, se ele decidir que deve parar ali, para reflectir sobre teorias políticas ou epistemológicas, sobre o formalismo ou sobre o onze do Benfica, ele pára o carro. Não expresses o teu desagrado com ele: quem tem sempre razão não admite correcções. Estes condutores são fundamentais. Para a Filosofia, não para a estrada.

O “Flash”
Conduz a grande velocidade e ultrapassa pela esquerda, pela direita, por cima, por baixo e pelo hiperespaço. Arrisca a vida dele e dos outros por míseros segundos. Depois, encontra-lo no semáforo, ao teu lado. Olhas para ele e pensas: “Estúpido”. Ele não pensa, porque não consegue.

O Geómetra
Tu passas meia hora à procura de estacionamento, ele estaciona dentro da casota de um cão. Num galinheiro. No bolso do casaco. Em último caso, em cima do passeio. Nunca, mas nunca, deixa o carro bem estacionado. Tu procuras espaço, ele rouba. Tu cumpres a lei, ele cospe-lhe.

O “Dalai Lama”
Conduz a uma média de 15 quilómetros por hora. Pergunta, com frequência, duas coisas: “Qual é o sentido da vida?” e “Estou a conduzir?”.

O “Che Guevara”
Tirando ele, nada está bem: a estrada está mal feita, os semáforos estão mal posicionados, a polícia faz caça à multa, os outros condutores são necas. O Mundo é uma merda, para conduzir. Para este condutor, “auto-crítica” é o nome de uma revista de automóveis.

Poderia citar mais tipos, mas se combinarem estas cinco características, de diversas formas, já conseguirão representar 98% dos condutores portugueses.


No mínimo.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Aconteceu no supermercado

Entre os 150 lugares mais fascinantes do Mundo, 81 são supermercados. Não, não contei, mas os economistas também não contam muita coisa e depois as surpresas acontecem. Nos países, nos bancos, nas empresas e nas mercearias.

(Roadsidepictures/Flickr)


Mas os supermercados são aquele lugar mágico onde tudo acontece. Tudo mesmo: enquanto o leitor lê este texto, está um puto a lamber bacalhaus (um amigo meu jura que o fez, na infância), está um gajo a provar as uvas às escondidas e uma senhora a ler uma revista de ponta a ponta, enquanto espera pela vez de pagar. Como está atenta à leitura, toda a gente lhe passa à frente. Até o gajo das uvas vai passar, quando estiver de barriga cheia. Pode estar a haver sexo desenfreado no armazém, mas só com o acesso às imagens da segurança podemos confirmar. O segurança deve estar a gravar, para pôr na net.

No supermercado, um gajo rude, moderadamente saloio, estaciona o carro de forma a ocupar dois lugares. Caminha pelo meio da via, ainda no parque, olhando com ar de censura para quem passa por ele de carro e tenta contorná-lo.

Chega aos carrinhos e tenta tirá-los sem moeda. Uma ou outra tentativa e pensa “um dia, descubro”. Entra no supermercado e vai com ideia de comprar queijo, charcutaria e um “pack” de minis.

Passa pela secção dos livros de auto-ajuda e fica curioso com os títulos. “Pareça mais inteligente”, “Melhore o seu rendimento no trabalho”, “Melhore a sua vida sexual”, “Física de Partículas para Totós”, “Física de Partículas para Gajos Muito Estúpidos”, “Segredos da cozinha vegetariana”. Neste, ele não pega, porque “comida vegetariana não é de macho”. Ainda assim, traz um livro sobre “Como ficar rico em 500 dias”, escrito por um gajo que, entretanto, faliu.

Passa na zona de materiais de construção e compra uma rebarbadora nova, que a dele “já não dá rendement” (ele diz assim, como se fosse em Francês, para ser mais fixe).

Leva ainda uma bola de futebol do Benfica, para o mais pequeno e, na zona de roupa de senhora, ainda pensa em levar qualquer coisa sensual, para a esposa, mas tem vergonha de escolher.

Encontra um amigo e fala sobre duas ou três questões relevantes de futebol. O tempo passa e dirige-se para a caixa. Tudo isto, sem ter ido buscar queijo, charcutaria e cerveja.

Acaba a tarde no café, a comer uma sande de presunto e a beber uma mini, enquanto lê, atentamente, “Como ficar rico em 500 dias”.

No armazém, a cena de sexo desenfreado termina. Há artigos para repor.

Esta história é fictícia, mas suficientemente verídica.