sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O robô mais humano

O Poppy é um robô humanóide, feito numa impressora 3D.

(Se eu tivesse uma impressora 3D, fazia uma nave espacial. Ou um “transformer”. Não que eu quisesse um carro para combater vilões, era mais porque um “transformer” é mais fácil de estacionar. Se não houver lugares na rua, ele pode subir para o topo de um prédio e ficar lá à minha espera.)

O Poppy funciona com código de programação aberto, ou seja, qualquer pessoa o pode programar, de acordo com a utilização que pretende dar ao robô. Isto faz-me pensar que, se o robô se adaptar ao seu dono, podem surgir situações interessantes.

(www.poppy-project.org)

Imaginem que o Poppy é comprado pelo sr. Joaquim, um indivíduo com um índice moderado a forte de saloiice. O nome do robô seria imediatamente alterado para “Bobby”.

O Bobby deixaria de ser um especialista em cálculo integral, aritmética, álgebra e geometria, e passaria a saber contar cartas na sueca, o onze do Benfica ou a conduzir uma Zundapp.

O Bobby passaria a resolver as questões à chapada. Não precisaria de aceder à net, a não ser para ver uns vídeos de boxe no Youtube.

Uma das vantagens deste robô, segundo a equipa que o construiu, é a possibilidade de o utilizador o reconfigurar. Como é evidente, o sr. Joaquim iria remover algumas partes do processador do Bobby e iria trocá-las por mais hidráulicos nos braços (para o robô ser bom à porrada) e por um “escape com duas bufadeiras” (para que o robô se “peidasse como um homem”).

O Poppy pode interagir com outros aparelhos. Para o sr. Joaquim, o Bobby deverá apenas conseguir interagir com o assador, para se tornar um especialista em fêveras, “barriguinhas” e sardinhas.

O Bobby será mais humano do que qualquer outro robô. Não por ser do Benfica, por saber assar sardinhas ou por se peidar. Será mais humano porque, caso não o fosse, o sr. Joaquim mandá-lo-ia para a sucata. Ou trocá-lo-ia por uma Zundapp melhor.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

E se existissem pessoas "premium"?

Uma das palavras mais em voga, nos dias de hoje, é “premium”. Na televisão, há canais “premium”. Há serviços “premium” por todo o lado. Há cartões “premium”. Há gins “premium”, águas “premium”. Até já me falaram em Coca-cola “premium”.

Esta realidade sugeriu-me que o conceito poderia ser aplicado, com sucesso, às pessoas. 

Pessoas “premium”.

(Steven Zucker/Flickr)

Imaginem que tinham um amigo que, embora fosse boa pessoa, era muito chato. Vocês ligavam para uma linha de apoio qualquer (existem aos montes) e pediam uma substituição do amigo. Como é óbvio, este serviço implicaria um custo, uma vez que estariam a fazer um “upgrade”: passar de um amigo normal, aborrecido, para um “premium”, que seria quase tão espectacular como o Chuck Norris.

Esse amigo, para além de não ser chato, perceberia imenso de mulheres, futebol, carros e videojogos (afinal, os assuntos que realmente importam). Saberia os números de telefone das miúdas giras, apresentá-las-ia, sem se intrometer, depois, no desenrolar da nossa interacção com elas. Seria do nosso clube (e isto é muito importante). Seria, verdadeiramente, “premium”.

Mas o conceito não termina aqui. Íamos a uma repartição pública e éramos atendidos por uma funcionária antipática e pouco competente. Ligaríamos para a linha de apoio e pediríamos um “upgrade”. Passaríamos a ser atendidos por uma funcionária muito bonita (não que isto seja determinante, é apenas um extra…), simpática e muito rápida no desempenho das tarefas. Teria, também, wi-fi incorporado, para podermos ir à net enquanto ela tratava da papelada. Seria uma espécie de “Robocop” da função pública.

Mas com mamas.

Grandes.

No fundo, o conceito “premium” divide as coisas entre as categorias “espectacular” e “é o que se pode arranjar, se não gostas, desenrasca-te, quem dá o que tem, a mais não é obrigado, embora isto não seja o que eu tenho, porque podes escolher 'premium' e pagar como deve ser”. As companhias de aviação já descobriram isto há muito tempo. O conceito ganha, agora, força noutras  áreas.

Mesmo no mundo dos blogues: o leitor pode sempre procurar um “premium”, em vez de estar aqui a ler isto. É o que eu faço.

Agora que penso nisso, se o meu blogue não é “premium”, então os meus leitores são-no, uma vez que insistem em voltar aqui.

Isso é um privilégio. Sobretudo, porque não paguei nada por leitores deste calibre. Pode ser uma promoção dos primeiros seis meses. Daquelas que servem para um gajo, depois, não querer outra coisa.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Livro de Reclamações

Noutro dia, ouvi um director da Imprensa Nacional Casa da Moeda a dizer que um dos livros com mais procura, entre os produzidos naquela instituição, era o “Livro de Reclamações”.

(palo/Flickr)
Uma vez que possuo uma das mentes mais prodigiosas da minha geração, ou apenas porque sou parvo, dei comigo a pensar numa possibilidade que tornaria o “Livro de Reclamações” num objecto literário: e se houvesse alguém para escrever as nossas reclamações numa linguagem mais artística? E se fosse em verso? Eis um exemplo.

“Parei ali naquela tasca,
quis um panado e um copinho.
Mas a casa era tão rasca,
não tinha nem um petisquinho.

Mantive a paciência,
pedi um café e um bagaço.
Mas, sem mostrar grande ciência,
O dono fez de mim palhaço.

O café serviu-mo a sós,
enquanto mexia numa panela.
O bagaço, cá entre nós,
acho que veio com cuspidela.

Pedi o “Livro de Reclamações”,
“Isto é uma vergonha!”.
Ele expulsou-me aos encontrões,
“Vai-te embora, tens peçonha!”.

Foi por esta aventura
que deixei de ir a tascas.
Só vou a sítios com frescura,
das maçãs só como as cascas.

Passei a ser mais refinado,
não perdi a esperança.
Escolho sítios com cuidado,
subi o nível de cagança.

Escrevi esta reclamação,
num poema estruturado.
Mas não esqueço o que queria:
um copinho e um panado.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O homem que inventa nomes de vinhos

Gostava de saber quem é que escolhe o nome para os vinhos. Aliás, eu tenho uma teoria sobre isso: Existe um homem, fechado num quarto, para o qual atiram comida, água e cigarros, que inventa nomes de vinhos.

E de jogadores de futebol brasileiros. De que outro contexto poderiam surgir nomes como Givanildo, Rivaldo ou Ednardo?

(Davide Restivo/Flickr)

 O homem que inventa nomes de vinhos tem as paredes do quarto cheias de folhas escritas com palavras. Depois, faz combinações, com maior ou menor grau de aleatoriedade.

- Precisava de um nome para um vinho.

- Herdade do Bochecho.

- Muito bom.

Imaginem alguém que tinha um avô muito forte e queria homenageá-lo com o nome de um vinho.

- O seu avô era alto?

- Era.

- Lugar do Penedo.

Um indivíduo com um grau de estupidez demasiado elevado procura o homem que inventa nomes de vinhos.

- Quero a imortalidade, através deste vinho.

- Tenho o nome ideial: Quinta do Cepo.

- Cepo? Porquê cepo?

- Porque os cepos podem ser a base de alguma coisa. Como o senhor é a base deste vinho.

- Gostei.

- É por isso ou por “cepo” poder designar estúpido.

- Prefiro a primeira.

Se mantivermos esta lógica, como explicar os nomes dos vinhos Quinta da Cesta e Herdade do Rego?

Claro: eu ia acabar por exceder os limites e entrar na javardice semântica. Só podia. E fi-lo porque, enquanto escrevo, bebo um ou dois copos de “Lugar das Seiras”. Não sabem o que são seiras? São cestas. Sabem o que são cestas?

Agora a sério, vamos parar com esta palhaçada. Não dou dois parágrafos e estou a dizer que o homem que inventa nomes nomes de vinhos gosta de um Alto da Picha, maduro tinto. Ou de um Carreiro do Riacho. Branco. Fresquinho.

Também há outra hipótese: os vinho adquirem nomes dos lugares onde são produzidos. E, nesse caso, há um homem que inventa nomes de lugares.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Pessoas que contam histórias confusas

Adoro pessoas que se perdem nas histórias que contam. Se preferirem um termo com mais cagança, gosto de pessoas que contam histórias com demasiadas ramificações narrativas.

(Esta segunda designação não só me permite revelar um vocabulário mais rico, como conserva a dignidade deste tipo de pessoas. Há quem lhes chame, apenas, “pessoas chatas”.)

(Bo Nielsen/Flickr)

Gosto de dizer a alguém algo como “Estive em Alvalade a ver o meu Sporting” e ter uma resposta como:

“Engraçado, estive com um primo, há tempos, num jantar de aniversário, de uma amiga minha que é investigadora numa universidade e que está a desenvolver um tipo novo de plásticos. Ela até está para casar com um gajo que é dono daquela empresa que lançou, há pouco tempo, aqueles piaçabas eléctricos rotativos, com wi-fi. Por acaso o gajo é porreiro, jogo à bola com ele às quintas-feiras, ele dá um bocado de lenha, mas joga bem. Noutro dia, por acaso, até ia levar duas solhas de outro gajo que joga comigo, aquele Armando, o barbudo, que anda no ginásio, o gajo parece um armário, se lhe desse uma chapada bem dada, estendia-o no chão. Mas os nossos jogos nunca tiveram problemas. Bom, tiveram uma vez, quando nós estávamos a ganhar 8-1 e um gajo da nossa equipa começou a dar toques, quando estava na baliza. As coisas iam dar para o torto. Mas esse meu primo também é do Sporting”.

Há algo mais mágico do que pessoas que contam histórias com demasiadas ramificações narrativas? Que jeito deve dar esta capacidade.

Num restaurante caro

- Ora aqui está a conta.

- Muito bem, 487 euros. Sabe, uma vez, em Florença, paguei quase isto por uma tosta mista e um sumo de laranja. Estava com a minha esposa, na altura, namorada, e até comentei “Já viste como esta conta é um tudo-nada exagerada, face ao que eu consumi?”. Eu até disse ao empregado que eles estavam a ser um bocado gatunos, disse-lhe em italiano, falava mais ou menos, na altura, porque tinha um tio que tinha uma padaria-pastelaria-churrasqueira-marisqueira em Milão e eu ia visitá-lo, no Verão.

Perante esta avalanche de informação, o empregado arranja uma desculpa para abandonar a mesa por alguns instantes. O suficiente para fugir sem pagar.

Numa “operação stop”.

- O senhor condutor passou aquela linha contínua.

- Por acaso, senhor agente, foi o meu primo que pintou aquela linha contínua e ele coloca em causa a própria continuidade da linha. Ele é pintor pós-moderno e gosta de questionar coisas como essa, ou como o sentido da vida. Ele começou como escultor, mas uma vez esculpiu um objecto um pouco fálico, em cima do carro do vizinho, e quase levou nas trombas. Para não ter mais chatices, dedicou-se à Literatura. Mas não gostava de escrever. Tenho um amigo que escreve bem, mas não tem muito tempo, porque está sempre em viagem. É vendedor de uma empresa de piaçabas eléctricos rotativos, com wi-fi. Já o meu primo acabou na pintura. Ainda pintou duas ou três gajas boas, mas depois dedicou-se às linhas-quase-contínuas. Como aquela.

O polícia dá sinal ao colega, que liga a sirene do carro-patrulha.


- Peço desculpa, mas vou ter que sair. É uma emergência.