segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Queimar notas faz calor

Luoyang é uma cidade chinesa onde é utilizado um método pouco convencional de obtenção de energia: icineração de notas que já estão fora de circulação. Uma investigação do Texto Incompleto permitiu descobrir que houve um longo processo, durante o qual foram testadas várias formas de produzir energia, até ser descoberta esta técnica.

(Thomas's Pics/Flickr)

Primeira fase: muitos habitantes a correr em cima de passadeiras
Esta fase até começou bem. Dava para alimentar a cidade e vender alguma energia à cidade vizinha. Depois, acabou o Verão e o pessoal começou a desleixar-se, a não querer saber se tinha mais um bocado de barriga, e começou a ficar com preguiça. Em pouco tempo, apenas duas pessoas corriam nas passadeiras. E só para provar que, mantendo aquele movimento infinitamente, uma atrás da outra, nunca iriam colidir.

Segunda fase: todos os habitantes davam um salto, às 10h30 e às 18h30
Nunca chegou a correr bem: o pessoal tinha os relógios dessincronizados. O que acabou por provocar vários terramotos, tanto em Luoyang como nas cidades vizinhas. Gerou energia, mas gerou mais estragos.

Terceira fase: tudo a dançar kizomba, às 10h30 e às 18h30
Esta técnica foi a que mais produziu calor, mas teve que ser abandonada, porque produziu, sobretudo, muitos bebés. Este pessoal asiático, pouco habituado à sensualidade das danças africanas, reproduziu-se desenfreadamente. Os responsáveis políticos da cidade fizeram as contas: mais energia, mas mais povo para aquecer, se calhar, não compensava.

Quarta fase: toda a gente fazia um churrasco ao mesmo tempo
Esta técnica até teve algum ganho energético, mas foi desastrosa para a saúde pública. Os autocarros e as carruagens do metro tiveram que ser aumentadas, porque todas as pessoas ficaram gordas. Gastava-se imensa gasolina nos transportes. Tiveram que esperar pelo Verão, para que toda a gente voltasse às passadeiras.

Um dia, um líder local, multimilionário, vinha bêbado pela rua e começou a queimar notas, virado para um bar, para mostrar que era muito rico. Estava uma noite de Inverno e algumas pessoas aproximaram-se da fogueira, por causa do calor.

- E se usássemos notas para produzir calor? – Perguntou um gajo.

- Ei, pois é, queimávamos notas velhas. – Respondeu uma mulher.

- Eu estava a pensar em usar as notas para comprar aquecedores, mas tiveste uma boa ideia. – Respondeu o gajo.

Hoje, o método é um sucesso. Mas ainda há duas pessoas nas passadeiras, a tentarem provar que não vão colidir, mesmo que corram para sempre.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Quero todos os legos do planeta

As mulheres querem ser mães porque a Natureza as programou para tal. Querem passar pela extraordinária experiência de ter, dentro do seu corpo, uma nova vida a desenvolver-se. Querem ter o bebé no colo, querem aquela cumplicidade inquebrável entre mãe e filho. Querem ser mães, ponto.

Um gajo quer ter filhos para ter uma boa desculpa para voltar a comprar brinquedos. 

Ontem estive numa loja de brinquedos, para comprar a prenda de um sobrinho e, tal como tinha decidido, procurei brinquedos da Lego.

(Do-Hyun Kim/Flickr)

No momento em que entrei na respectiva secção, a minha vida mudou. Apeteceu-me comprar todos os legos, ir para uma ilha deserta e passar o resto da vida a construir naves e carros de Lego.

Claro que esta ideia é estúpida: se fosse para uma ilha deserta, deixaria de poder voltar a comprar Lego.

Fiquei a pensar que o Mundo seria um lugar mais agradável se todas as pessoas brincassem com Lego. Primeiro, porque todos teríamos com quem construir cidades e castelos. Depois, porque as pessoas teriam menos stress.

Imaginem o Presidente dos Estados Unidos, no meio de uma reunião de crise, a dizer: “Meus senhores, sei que temos mísseis apontados a Washington, Nova Iorque e Los Angeles, mas já combinei com o Presidente da Rússia e não vai haver lançamento durante o dia de hoje, porque vamos fazer uma competição de construção em Lego”.

O Mundo teria menos problemas.

Um Primeiro-Ministro revelaria que duas grandes obras tinham sido canceladas, por falta de verbas, mas acrescentaria: “Nem tudo está perdido, acabámos de comprar vinte mil baldes de Lego, pelo que haverá sempre algo para construir”.

O Mundo teria menos problemas.

O presidente de uma empresa gigante, depois de um dia de queda na bolsa, reunia com a administração e dizia: “Pessoal, temos um assunto muito importante para discutir. Preciso de tomar uma decisão crítica. Não sei se construo, em Lego, o carro do Batman ou uma nave do Star Wars. E não saio desta sala enquanto não houver uma decisão”.

O Mundo teria menos problemas.

Talvez o Mundo tivesse um problema, se o Lego sempre tivesse existido: Leonardo Da Vinci, Galileu, Einstein ou Salvador Dalí não teriam tido tempo para revolucionar a Ciência e a Arte.

Mas teriam feito umas casas bem fixes. Ou naves, no caso de Da Vinci. Ou coisas, no caso de Dalí.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Um dia na vida de um cão

O silêncio de um sono profundo. O barulho horrível de um despertador. O Bobby acorda e olha para a cama do dono. Começa um dia, na vida de um cão.

(Mattias Handley/Flickr)

“Não percebo esta gente. Têm aquilo a tocar de manhã, que seca, podiam pôr durante a tarde. Pensando bem, de tarde eu durmo, também ia incomodar. À noite é chato, porque eles tentam dormir. Mas aquilo é uma boa porcaria. Apetecia-me roer aquele despertador. Se não tivesse apanhado um choque, ao roer o fio das luzes do pinheiro de Natal, quando era pequeno, roía-o já. E também já não tenho os dentes de um cão com dois anos. Naquele tempo é que era: roía as pernas das mesas e das cadeiras. Agora, até a comida de cão tem que ser passada. Faz-me lembrar o Farrusco, ali da esquina, que já usa placa. Noutro dia, ficou com os dentes espetados numa bola de borracha. Os gatos brincaram com os dentes dele toda a tarde.”

O dono sai da cama e vai para o banho.

“Os humanos são misteriosos. Inventaram os carros, as naves espaciais, a internet e o telemóvel, mas acordam com uma caixa barulhenta e vão para a banheira, logo a seguir. Nunca percebi para que serve tomar banho. Levar com água no focinho. Os tubarões cheiram a peixe e são os reis do mar. Os ursos não tomam banho e deitam árvores abaixo só com um peido. O leão não toma banho e come zebras. Os humanos tomam banho e têm gripes. Sou só eu a ver as evidências?”

O dono toma o pequeno-almoço.

“Vá lá, dá-me um bocado de pão. Eu sei que faz mal, mas tu também fumas e isso é pior do que pão. Deixa-me os sofás a cheirar a tabaco, ainda por cima. Já não durmo naquele sofá há quase um ano. Se não tivesse ficado mal disposto, quando comi uma almofada, em pequeno, roía o sofá. Vá lá, dá-me um bocado de pão.”

O carteiro toca à campainha.

“Au, au, au, au, au, au… Não sei quem é este gajo, até parece ser útil, porque traz umas cartas e tal. Mas um desconhecido à porta activa-me aqui uma zona do cérebro que me faz ladrar. Olha ali uma bucha de pão, vou só ali… (A campainha toca) Au, au, au, au, au, au… Ladrar a um desconhecido é tipo espirrar muitas vezes: é irritante mas viciante.”

O Bobby vai à rua.

“Vou à rua? Vou à rua! Vou à rua! Vou à rua! Fazer xixi em todos os sítios possíveis. Até em cima de um gato. Assim, o território fica todo marcadinho. E o gato fica a cheirar mal. Ei, olha um gato. Se não tivesse ficado com espinhos na garganta, em pequeno, depois de ter comido um ouriço, comia aquele gato. Não vou olhar para ele, nem ladrar-lhe, para ele ficar… Au, au, au, au, au, au… É mais forte do que eu.”

O dono sai de casa.

“Sou o dono desta casa. Eu é que mando. Posso fazer o que quiser. Posso rebolar no sofá. Roer um chinelo. Posso fazer uma visita ao despertador. Ah, eu é que mando…”

O Bobby dorme toda a tarde. O dono chega.

“Ei, dormi a tarde toda, não aproveitei nada… Espera… Vou à rua? Vou à rua! Vou à rua! Vou à rua!”

Antes de sair, o dono vai ao quarto e vê o despertador no chão. Chama pelo Bobby.

“Ei, merda, vou fazer de conta que estou a dormir… Ele é capaz de nem reparar em mim, aqui no tapete da entrada.”

 Alguém toca à campainha.

“Au, au, au, au, au, au…”

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A revolta do mexilhão

Noticiava o Público online, no dia 4, que “Portugal é o primeiro país mediterrânico com mexilhão sustentável”. Li o título três vezes, para despistar qualquer engano meu. Era mesmo aquilo.

No dia seguinte, a mesma fonte citava Passos Coelho, que dissera que “apesar da crise, quem se lixou não foi o mexilhão”.

Peguei no telefone e fiz todos os esforços para chegar a um contacto: o Texto Incompleto conseguiu uma entrevista exclusiva com o representante dos mexilhões portugueses.

(Dmitry Lyakhov/Flickr)

- É verdade que quem se lixou não foi o mexilhão?

- Não é bem assim. Não está fácil ser mexilhão em Portugal. Um gajo paga os impostos, põe os filhos a estudar e acaba no prato de um turista inglês. Não está fácil.

- Mas, tanto quanto sei, o mexilhão é sustentável em Portugal.

- È o mexilhão grande. O que tem dinheiro. São mexilhões que nascem em casca de ouro. Têm tudo feito para serem bem sucedidos. Metem-se nos partidos e arranjam tachos bons. Nós só arranjamos tachos de restaurantes visitados por turistas ingleses.

- E não houve melhoria, nos últimos anos?

 - Tal como acontece com as pessoas, na nossa sociedade há um sentimento de que só os foleiros se safam. E sabe porquê? Porque os turistas ingleses não comem mexilhões foleiros.

- Qual é o modelo de sociedade que defende?

- A do mexilhão inglês.

- Por causa do serviço de saúde? Do sistema de educação? Da carga tributária?

- Não, porque os ingleses não comem mexilhões da terra deles e vêm comer os mexilhões portugueses.

- Mas só me vai falar dos turistas ingleses? Isto é uma entrevista séria.

- Tem razão, peço desculpa. É importante falar de outras coisas como, por exemplo, o mexilhão que acaba no prato de um turista alemão.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O meu carregador do iPhone

Uma das características mais comuns, entre os utilizadores do iPhone, é a dependência do carregador. Um utilizador deste tipo de telefone precisa tanto do carregador como o próprio telefone. Tal fica a dever-se a dois factos: a bateria do iPhone dura 17 minutos e um carregador compatível é mais raro do que uma trufa.

(Stéfan/Flickr)

Aliás, se é verdade que existem porcos treinados para encontrar trufas na floresta, não é menos verdade que já haja quem os treine para encontrarem um carregador.

Conheço um bar onde os clientes se digladiam por uma ficha, por um carregador, por mais cinco pontos percentuais de bateria. Pergunto-me como teriam sido alguns momentos da História, se o Iphone existisse.

Construção do Muro de Berlim
“Vamos dividir a Alemanha em duas, que isto está cheio de má vizinhança.” O muro é construído, famílias são separadas. De repente, uma figura de proa do Governo repara que deixou o seu carregador do outro lado. Muro abaixo e, em minutos, uma só Alemanha, famílias reunidas, bateria a carregar.

Ida à Lua
Milhões de dólares investidos no programa espacial, vaivém lançado com sucesso. Neil Armstrong pega no iPhone e nota que não tem bateria. Pede um carregador a Buzz Aldrin e fica a saber que este também não tem nenhum. Missão abortada, trajectória invertida e vaivém de regresso. Ao enfrentar os jornalistas, Armstrong justifica-se: “A Lua pode esperar, estou com 3% de bateria”.

Crise do petróleo de 1973
A Organização dos Países Produtores de Petróleo supervaloriza o “ouro negro”. A economia mundial pode colapsar. Porém, durante uma cimeira que se previa inconclusiva, um governante de um daqueles países está prestes a ficar sem bateria no iPhone. Pede a um assessor para lhe trazer um carregador. “Não temos carregadores.” O pânico instala-se e, rapidamente, há um acordo para baixar o preço, de uma vez, porque os telefones estão com uma média de 8% de bateria e é preciso ir carregá-los. A economia mundial tem uma segunda oportunidade.

Golo de Maradona à Inglaterra, no Mundial de 1986
No Estádio Azteca, na Cidade do México, um argentino filma o jogo com o seu iPhone. Diego Maradona recebe a bola no meio-campo, faz uma rotação e arranca, deixando dois adversários para trás. Até à grande área, deixa mais dois, enfrenta o guarda-redes e tira-o do caminho. O iPhone desliga-se, sem bateria, e o golo não é filmado. Depois desse dia, o adepto argentino entra numa espiral descendente, pela dependência do carregador. Nunca mais consegue sair de casa, com medo de ficar sem bateria.

E se o Batman tivesse um iPhone?

O Homem-Morcego vai na Batnave até ao centro de Gotham City, aterra no topo de um arranha-céus, desce na batcorda até à rua, entra no batmóvel, persegue um grupo de bandidos até um armazém, entra sem ninguém dar por ele e neutraliza todos os criminosos. Todos, menos um, porque no momento decisivo, pega no iPhone, para chamar a polícia, nota que está sem bateria, procura o batcarregador, mas não o tem consigo. Volta rapidamente ao carro, procura o carregador de ligar no isqueiro, mas nem esse traz. Volta para casa e, por uma noite, o crime vence em Gotham.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

E se os heróis fossem passear?

Durante este fim-de-semana, decorreu em Matosinhos a Comic Con, uma conferência dedicada à banda desenhada, aos filmes, séries e videojogos. Nos Estados Unidos, existe uma grande tradição de aparecerem fãs vestidos a rigor, imitando as suas personagens favoritas.

E se as personagens fossem à Comic Com?

(JD Hancock/Flickr)

Batman
O Cavaleiro Negro chega no seu Batmóvel. Um fã olha para o carro, uma peça de artilharia com quase mil cavalos de potência e diz “Grande coisa... Em 2005, um gajo trouxe um carro melhor. Mesmo aquele fato… Nunca passaria por Batman, este banana”. O Batman percorre os vários stands da feira e ninguém lhe presta atenção. Um miúdo chega junto dele e diz: “O Batman é mais alto. Aposto que te dava uma tareia”.

Super-Homem
O último filho de Krypton chega a voar. Um fã, vestido de Homem-Aranha, comenta com um amigo que “aquele voar é um planar foleiro”. “Aquilo foi inventado há uns anos, parece que o truque é os fios serem fininhos e transparentes”, acrescenta. Um carro despista-se, embate numa torre de iluminação e esta cai em cima do Homem de Aço, estilhaçando-se. “Boa, uma torre de esferovite. Faz-se muito no cinema”, comenta o fã.

Hulk
Bruce Banner vai à Comic Con. Ninguém dá pelo cientista que, quando se enerva, se transforma num monstro verde. Visita vários stands, tira fotografias com alguns bonecos que encontra na feira, vai comer um cachorro quente a uma barraca, faz um telefonema, compra alguns livros de banda desenhada e vai embora. A três quilómetros da Comic Con, um gajo bate no carro dele e ainda o insulta. No dia seguinte, nas notícias, é dito que Hulk voltou a aparecer, deixando um rasto de destruição à sua passagem.

Darth Vader
O lendário vilão de “Star Wars” chega e faz-se silêncio. Ouve-se aquela respiração característica. Toda a gente sente a presença da Força. Ninguém se mexe. Darth Vader move alguns objectos, com o poder da mente, da Força e de um gajo que decidiu arrastar um vaso, por estar no meio do caminho. De repente, toca o telemóvel do vilão. Era o mecânico. “Pode vir buscar a sua Estrela da Morte. Era um problema nos injectores, está como nova, pronta para explodir com os planetas. São 150 mil euros”. A Força começa a sofrer perturbações...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

E se as coisas mudassem de lugar?

E se, um dia, acordássemos e os pombos dissessem poemas de Fernando Pessoa, em vez de fazerem cocó nas estátuas? E se eles dissessem poemas, enquanto faziam cocó nas estátuas? Com ou sem cocó, ganhava a poesia e a cultura, em geral. E isso também é bonito.

Bom, isto não vem ao caso, porque o cenário que gostaria de elaborar tem a ver com linguagem, sim, mas não com aves. E se, um dia, os escritores trocassem de discurso com os treinadores de futebol? Teríamos um dia divertido.

(JD Hancock/Flickr)

Treinador a falar como um escritor
A equipa tem que sentir alguma coisa, tem que sofrer, tem que se superar. Temos que transmitir uma mensagem, com o nosso futebol. Temos que representar o nosso tempo, o nosso viver, a nossa alma, enquanto povo. Temos que afirmar uma certa contemporaneidade, no nosso jogo. Temos que questionar o sentido do próprio jogo, quebrando barreiras, avançando, criando. Jogar, hoje, é questionar. O jogo caminha para uma ausência de jogo. O vazio é o único destino.

Escritor a falar como um treinador
Trabalhei bem durante a pesquisa, previ várias situações e tentei evitá-las. Entrei bem na escrita e dominei a narrativa, durante toda a primeira parte do livro. Podia ter chegado ao intervalo com mais páginas de avanço, relativamente ao planeado. Mas, na segunda parte, acusei algum cansaço e não pude contrariar a tendência da história. No fim, defendi com o que pude. Acho que o resultado acaba por ser positivo, tendo em conta as condicionantes.

E se, um dia, os políticos trocassem de discurso com os mecânicos? Seria igualmente divertido.

Mecânico a falar como um político
O teu carro tem um futuro. O teu carro merece um futuro. Fez quilómetros e quilómetros, esteve contigo em momentos importantes. É por isso que lhe quero dar uma segunda vida, um renascer, uma nova válvula de injecção e uma correia de distribuição. O teu carro tem a força para dar a volta por cima e é com isso que vamos encontrar soluções. Vou trabalhar no sentido do progresso. Só preciso que me pagues. Esse é o único voto de que preciso. É aquele que vou honrar.

Político a falar como um mecânico
Oh pá, a economia tá fodida. Esgaçaste isto de uma maneira que eu, em trinta anos de política, nunca tinha visto. Não sei o que andaste a fazer para rebentar com esta merda toda. Aviso-te já que vai ser uma trabalheira resolver isto. E vai ficar caro. Se calhar, nem vale a pena recuperar o país, mais vale comprar um novo. Digo-te isto como amigo. E mais: só vou poder pegar neste país lá para o fim da próxima semana, ando cheio de trabalho. Olha para isto: recessão, 2,5%, défice 9%. Como é que querias que isto aguentasse? Esgaçaste a economia. Nunca vi um país tão fodido. Mas vamos ver o que se arranja. Eu ligo-te, para a semana.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Quando percebes que és um ignorante

Uma das maiores provas de que percebemos ou não de um determinado assunto é a linguagem. Existem palavras (ou “vocábulos”, que eu também posso tentar transmitir uma imagem de proficuidade na gestão dos recursos linguísticos que tenho à disposição) que são usadas preferencialmente pelas pessoas que percebem de um determinado assunto.

(halfrain/Flickr)

À excepção do Pacheco Pereira, que até pode dizer “bidé”, sem que isso belisque a sua imagem, ou do Chuck Norris, que pode não dizer nada, sem prejuízo da sua espectacularidade. (Aliás, se colocares em causa a sua espectacularidade, ele continua sem dizer nada e dá-te um pontapé.)

Voltando aos vocábulos, aqui ficam algumas situações em que percebes que és um ignorante. Vais arranjar o computador. Entras na loja de reparações e dizes “o meu computador avariou”. O técnico diz “deixe ficar a máquina”. Foste rebaixado. És o palerma na loja.

Também pode acontecer num espaço de venda de produtos electrónicos. Perguntas “quando chega o computador que eu encomendei?” e ouves “o equipamento chega Quinta-feira”. Percebes que os computadores, quando são para vender, são “equipamentos”, quando avariam, são “máquinas”. És palerma na mesma.

Falas com um militar acerca de um filme. Dizes que “o gajo ficou sem balas”. Ouves “balas, não, munições”. Foste rebaixado. Se o teu país for invadido, não tens utilidade. És lixo.

Vais a um bar de gin. Perguntas ao “barman” quantas marcas de gin tem e ouves “temos 150 referências de gin”. Bebe água. Não percebes nada, não vais apreciar. Vai para casa cedo.

Também podes falar com um enólogo e dizer “o vinho daquele ano não foi tão bom”. Ouves “aquela colheita foi problemática”. Volta ao bar de gin e pede uma água.

Paras numa “operação stop”. Ouves o polícia dizer “encoste a viatura”. Cuidado, estás numa viatura, é mau sinal. (Se não souberes o que é uma viatura, então podes estar bêbado. Arranca e esconde-te em qualquer lado.)

Estás a ver futebol e, em vez de contra-ataques, há uma equipa que faz “transições ofensivas”. Percebes que deixaste de saber o que quer que fosse, acerca do teu desporto preferido. Mudas de canal e está a dar um filme em que o Chuck Norris enfrenta um tiroteio e diz “vou entrar naquela viatura, porque estou a ficar sem munições”. O teu mundo começa a perder o sentido. Dizes “isto é uma merda!”. Alguém diz: “De facto, a vida tem bastantes excrementos”.

Rebaixado. Outra vez.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Coisas em que acreditávamos

Crescer é fixe, mas tem muitas desvantagens. Tudo bem, ficamos mais independentes. Mas continuo a dizer que tem as suas desvantagens. E não vou dizer coisas vagas como “a inocência da infância é bonita”. Vou falar de vantagens concretas de ser criança.

(Karunakar Rayker/Flickr)

Era fácil acordar cedo ao sábado
Ver desenhos animados no sofá da sala parecia ser mais eficaz, na luta contra o sono, do que 28 latas de Red Bull. E, cheguei eu a contar, a manhã de Sábado tinha, entre as 8 e as 13, cerca de 96 horas. Cheguei a ganhar brancas, só numa manhã.

(Careca fiquei mais tarde.)

O melhor futebolista do Mundo era o que fazia mais fintas
Não havia presidente da FIFA ou da UEFA que pudesse contornar isto: o melhor jogador era o que fazia mais fintas. Ponto.

Um computador dava para fazer tudo
Era possível, como o Batman fazia, na Bat-Caverna, aceder a toda a informação e programar todas as máquinas. As teclas não tinham letras e, mesmo assim, o Batman sabia onde carregar. Hoje em dia, não sabemos trabalhar no Windows 8 nem configurar o ambiente de trabalho.

Podias sempre chamar o Super-Homem
Ele ouvia tudo e vinha ajudar-te. Se não viesse, era porque estava na Austrália, a ajudar uma corporação de bombeiros a apagar um grande fogo florestal. Hoje, se a polícia demora mais dois minutos a chegar, dizes mal do Mundo.

Falavas para o relógio, à espera de te transformar em Power Ranger
Depois, o menino a quem chamaste “gordo” dava-te uma tareia. Mas continuavas com a certeza de que aquele relógio dava para ser um Power Ranger.

Encostavas uma concha ao ouvido e ouvias o mar
Era o conceito de wireless antes de ele existir. Nisso, fomos uma espécie de Einstein da biologia marinha.

Acreditavas que podias alimentar-te só de gomas
Depois, doía-te a barriga, mas de certeza que tinha sido por causa da sopa.

Fazer os deveres era a tua única preocupação
Depois, cresces e tens deveres todos os dias.

O Direito consistia em chegar primeiro, dizer primeiro ou, em último caso, ter mais força
Hoje, há regras para tudo, mas continuas sem saber quem tem razão.

Dizer “Protecção, campo magnético” parece ser suficiente para te defenderes de um ataque de lobos
Nunca ter enfrentado lobos contribuiu decisivamente para esta crença

Acreditavas no número “infinitos milhões”
Sentias que ele tinha um potencial tremendo para quantificar grandezas astronómicas. Apesar disso, admiravas quem já sabia contar até 497.

Achavas que podias, um dia, ter um tigre em casa
Depois, alguns crescem e passam a ter medo de um mosquito.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Pessoas que encontramos no cinema

Apesar de estar em desuso, ir ao cinema tem uma mística especial. É o grande ecrã, o escuro da sala, o som envolvente que nos transporta para o universo do filme, é a miúda gira que está ao nosso lado e a quem cedemos gentilmente o apoio de braço da nossa cadeira (tentando ficar com uma reputação ao nível da do George Clooney) ou a cabeça enorme do espectador que ficou à nossa frente, que nos tapa parte da imagem.

Pensando bem, é só o grande ecrã, o escuro da sala, o som envolvente e a miúda gira que está ao nosso lado e a quem cedemos o apoio de braço.

(m4tik/Flickr)
No cinema há personagens no ecrã e personagens diante dele. Foi destas, que podem calhar ao nosso lado, que decidi falar.

Espectador que ri de forma estranha
Vais ver uma comédia e há um gajo que tem um riso que fica entre o som da hiena e o do porco, passando pelo da baleia e pelo do Chewbacca. A sessão duplica de piada: quando o filme está num momento calmo, ainda há alguém a rir desbragadamente do riso deste espectador.

Espectador que comenta em directo
É uma espécie de IMDb, mas falante. Vai dizendo a filmografia dos actores principais, o problema de luz numa determinada cena ou as inconsistências narrativas do filme. Algo como: “Como é evidente, o Chuck Norris nunca daria cabo de oito gajos em trinta segundos. Ele fá-lo-ia em dezassete segundos”. É como se o cinema tivesse a opção “comentários do realizador”, mas sem ser do realizador. Era mais “comentários de um gajo inoportuno”.

Casal que não vê o filme (tipo A)
Estão duas horas a namorar. Usam o tacto de forma intensa, tocando em tudo o que é zona erógena, trocam fluidos corporais, experimentam uma dezena de posições sexuais, ela atinge múltiplos orgasmos, fumam um cigarro no fim e recomeçam, incomodando todos os espectadores daquela sala e das salas contíguas.

Casal que não vê o filme (tipo B)
Estão duas horas a namorar. Usam o tacto de forma intensa, tocando em tudo o que é zona erógena, trocam fluidos corporais, experimentam uma dezena de posições sexuais, ela atinge múltiplos orgasmos, fumam um cigarro no fim e recomeçam, sem que ninguém se aperceba.

Espectador que se incomoda com tudo
Para ele, o cinema é uma meditação transcendental. Nada o pode perturbar: a respiração do senhor sentado no lugar 32 da fila D, o perfume da senhora sentada no lugar 17 da fila M, o batimento cardíaco do senhor sentado no lugar 8 da fila I. O espectador deste tipo chega a ficar incomodado com a sua actividade cerebral.

Puto que pergunta se aquele é o “Toy Story”, durante uma hora
Ao fim de uma hora, o pai diz-lhe que já vai começar e o puto passa uma hora a perguntar “Falta muito?”.

Falaria de outras personagens, mas o filme, entretanto, acabou.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Entretela

Um grupo de amigos decide ir ao cinema, ver o “Interstellar”. Devido a uma série de compromissos inadiáveis, como tomar café, discutir a actualidade e duas ou três temáticas relevantes, bem como um penalty mal assinalado, sem excluir uns olhares malandros às miúdas da mesa do lado (embora não fossem nada de especial, eram as únicas do café, o que as tornava uma espécie de Cleópatras de Segunda à noite), o grupo chegou ao cinema com meia hora de atraso.

(Adam Evans/Flickr)

Ninguém contava com aquele triste acontecimento. Ter que esperar uma semana para ver um filme tão esperado era quase tão mau como ficar sentado o lado de um gajo que comentava o filme em voz alta, enquanto comia pipocas de boca aberta e jogava “Angry Birds” com o volume no máximo.

Um dos amigos encontrou a solução.

- Não vos cheguei a contar, mas tenho no carro uma máquina que me permite gerar rupturas no espaço-tempo. Isso e abrir buracos na parede, com grande precisão. Até ajudei o meu tio, numas obras em casa dele.

- Não me lixes. Isso dos furos na parede é muito futurista.

Depois de uma demonstração de “tupperwares”, que entreteve os convivas durante cerca de quinze minutos, chegou a demonstração de rupturas no espaço-tempo. Como não houve consenso, o grupo dividiu-se em três partes.

Uma parte foi para 1939 ver “E Tudo o Vento Levou”. Choraram baba e ranho, ficaram sem saber se o filme tinha voltado ao início e tentaram ligar pontas soltas (viajar no tempo causa alguma sonolência e eles foram, à vez, tirando pequenos cochilos). Ainda deu para repararem que o dono do café que frequentavam tinha ligeiras semelhanças com o Clark Gable.

Outra parte do grupo foi para uma dimensão paralela, onde o filme do momento, no planeta Terra, era “Entretela”, um filme que contava a história de um grupo de alfaiates que, perante uma grave escassez de entretela para os casacos, viajava pelo espaço-tempo, à procura de planetas ricos em entretela. A missão foi bem sucedida e, quando esse grupo de alfaiates regressou à Terra, estava em cena um “remake” de “E Tudo o Vento Levou”.

Nessa versão, um grupo de robôs do futuro procurava impor as suas regras nos campos de cultivo, enquanto ocorria uma história de amor entre uma ceifeira automática e uma debulhadora. O grupo de robôs libertou-se da opressão dos proprietários, enquanto que, do romance, nasceu um pequeno aquecedor a óleo.

A terceira parte do grupo era composta apenas pelo “Roleta”, que ficou em frente à máquina, a tentar perceber como accioná-la e a escolher uma data de um jogo importante do Benfica até à qual viajar. O espaço-tempo era bonito, mas o seu Benfica tinha outro interesse.