segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Avisos coloridos

Uma das coisas de que eu mais gosto, na Protecção Civil, é o facto de eles nos protegerem dos perigos.

Outra das coisas de que eu mais gosto é o sistema de cores, para os avisos. Já pensaram como seria se houvesse, na Protecção Civil, um designer para determinar as cores dos avisos?

- Aviso amarelo? Mas amarelo quê?

- Amarelo.

- Pois, já percebi, mas pode ser amarelo sol, amarelo girassol, amarelo girafa, amarelo manga, amarelo canário.

- Não tens amarelo perigo?

E se, por outro lado, houvesse avisos coloridos da Protecção Civil, mas para várias situações da vida, em vez de apenas nas condições meteorológicas?

(Geraint Rowland/Flickr)

Um gajo ia jantar com amigos. Um restaurante pacato, comida caseira, uma garrafa de bom vinho, para acompanhar. A dado momento, alguém sugere pedir uma segunda garrafa. Aparece um senhor da Protecção Civil, a emitir um alerta amarelo, para o perigo de aquela garrafa poder potenciar algum descontrolo. O amigo mais fixe da mesa diz que não há motivo para preocupar. “É só mais uma, está tudo controlado.”

O jantar continua e a segunda garrafa pede mesmo, mesmo, uma terceira. Aparece o senhor da Protecção Civil, a emitir um alerta amarelo, para o perigo de aquela garrafa poder aumentar os riscos já potenciados pela segunda. O amigo mais fixe da mesa diz “Não há problema, eu levo o carro!”.

O jantar termina com oito garrafas vazias em cima da mesa. Doze minutos para os amigos fazerem a conta. Ninguém consegue saber quanto dá a cada um. Um dos amigos decide fazer a conta sozinho. Aparece o senhor da Protecção Civil, bêbado. “Alerta amarelo! A conta vai ser mal feita.”

A conta sai errada. Pagam quase tanto de gorjeta como pela comida. Saem do restaurante e dirigem-se ao carro. O senhor da Protecção Civil tem uma sugestão. “Alerta amarelo: conheço um bar onde há umas gajas mesmo boas.”

Vão ao bar e continuam a beber. A cada copo, o senhor da Protecção Civil emite um alerta de cor diferente. Segundo o próprio, para “dar mais animação aos avisos”.

Um dos amigos desentende-se com um indivíduo que está no bar. O senhor da Protecção Civil avisa: “Alerta amarelo: vais levar um sopapo desse gajo, se continuas a falar assim”.

O amigo leva um sopapo. “Alerta vermelho: o nosso amigo desligou, por uns minutos. Vamos dar início aos procedimentos.” Acabam todos à chapada, ignorando os procedimentos.

No caminho de regresso, são interceptados por uma “Operação Stop”. O senhor da Protecção Civil sai do carro, a cambalear, e diz: “Alerta vermelho: estamos fodidos. Os senhores agentes da autoridade vão multar o condutor. Vamos todos para a esquadra”.

Moral da história: nunca saias com um gajo da Protecção Civil. O jantar estava controlado até ele fazer o primeiro aviso.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A melhor televisão de sempre

A Samsung vai lançar uma televisão com um novo sistema operativo e capaz de melhor conexão com os electrodomésticos. Já que a empresa sul-coreana está numa de melhorar as televisões, proponho algumas ideias.

(Nota: para não utilizar em demasia e palavra “utilizador”, vou trocá-la por “Francisco”.)

(Gary Lund/Flickr)

Imagem e som
Sempre que estiver a ver futebol (afinal, a mais nobre utilização possível de uma televisão), o Francisco deve poder desfocar aqueles jogadores toscos, que só fazem asneiras, de forma a não se enervar tanto. Também deve poder activar a função “Lá Lá Lá”, que troca os comentadores tendenciosos por um “lá lá lá” ininterrupto.

Programação
Um filme chega ao intervalo, o Francisco muda de canal e, para não se esquecer do que está a ver, a televisão avisá-lo-á quando o filme for retomado. Avisa-o também de que determinado filme, que está a dar em determinado canal, é muito melhor. Deverá, também, ser possível inserir o Chuck Norris em todos os filmes. A televisão poderá ter também uma função educativa, que consista em dar choques ao Francisco, quando ele estiver a ver conteúdos foleiros. Em pouco tempo, a televisão fará com que o Francisco passe de um burgesso a um gajo moderadamente refinado. Ou a um churrasco.

Aplicações
Deverá, também, existir a função “Avisos”, através da qual a televisão manterá o Francisco ligado ao Mundo, mesmo quando atento a um determinado programa. Fará avisos como “o cão tem que ir à rua”, “põe a comida a aquecer que está quase na hora de jantar”, “devias limpar o pó a esta casa, que está uma vergonha”, “quando saíres, agasalha-te, que está frio”, “são horas de tomar o antibiótico”, “amanhã tens que levar o carro à inspecção” ou “muda de canal, que a tua equipa não está a jogar nada e vai sofrer um golo nos próximos 15 minutos”.

Interacção com os electrodomésticos
A televisão controlará as janelas, o aquecedor, o fogão, o carro do Francisco, o telemóvel e, em momentos de maior distracção, o próprio cérebro do Francisco. Pagará as contas, responderá aos mails e atenderá as chamadas mais aborrecidas.

Em pouco tempo, o Francisco casará com a televisão e terá dois filhos: um micro-ondas e um auto-rádio.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Comer porcarias a sério

Bill Gates bebeu água destilada a partir de fezes. O objectivo desta acção foi promover uma nova tecnologia que produz água e electricidade a partir de dejectos humanos, tecnologia essa que será utilizada nos países mais pobres.

Esta é a parte que eu não percebo. Porque não utilizar isto nos países ricos? Nos restaurantes ricos, inclusivamente? É que nós já comemos porcaria várias vezes, sem o sabermos. Porque não comer porcaria sabendo que é porcaria?

(Javier Lastras/Flickr)

Um restaurante gourmet. Um chefe de sala nascido em Portugal, mas com sotaque francês, para dar mais cagança. Vestido a rigor, vai encaminhando os clientes para as mesas, ajeitando as cadeiras e entregando as ementas como se fossem bumerangues.

De fundo, músicas bonitas que alguém tocava, no piano. Através de uma abertura na parede, via-se a cozinha, onde os artífices cozinhavam a sorrir e ao som da música.

Cá fora, um gajo assaltava uns carritos, mas como está frio, vamos para dentro outra vez.

Um senhor sujava a camisa com molho mostarda, mas logo aparecia um empregado com tira-nódoas, deixando a camisa quase igual (durante duas horas, porque depois o efeito iria passar e a camisa iria para o lixo).

Os pedidos começavam a surgir.

- Cocó com molho Gorgonzola.

- Excelente escolha.

- Como é o “Cocó Wellington”?

- Envolto em massa folhada, com pasta de cogumelos frescos e presunto de Parma.

- Vou querer cocó assado com açafrão, avelãs, mel e água de rosas.

No fim das refeições, os clientes, sempre exigentes, faziam os reparos.

- O cocó estava óptimo, mas as avelãs e a água de rosas não estavam no ponto.

- O cocó estava óptimo, mas a massa folhada não se faz assim.

- O cocó estava óptimo, mas isto não é molho Gorgonzola.

Nisto, Bill Gates entrava no restaurante e dizia:

- E uma garrafinha de água destilada a partir de fezes?

A resposta seria unânime.

- Aaaaargh, que nojo!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Macacos humanos

Um estudo concluiu que os macacos se reconhecem ao espelho. Isto abre um grande conjunto de possibilidades.

(jinterwas/Flickr)

Imaginem um macaco em frente ao espelho, a pensar que o cabelo não está muito bem penteado. “Assim, pareço uma macaca. Ou pareço aquele macaco da árvore 32, que é um bocado maluco. E que não toma banho. E que é do Benfica.”

Um macaco em frente ao espelho, a pensar: “Estou um bocado gordo, vou ter que cortar nas bananas. Aquilo é bom, até tem potássio, mas é muito calórico. Pareço um gorila. Para além de que me trava o intestino. Já não cago há três dias”.

Duas macacas em frente ao espelho.

- Achas que o cabelo me fica melhor assim ou assim?

- Da outra maneira. A primeira. Sim, essa. A Chita fez uma permanente. Disse-lhe que ficava bem, mas ficou uma merda. Aquela macaca enerva-me. Tem a mania que é boa.

Um casal de macacos ao espelho.

- Já se nota a barriga. – Diz a macaca.

- Sim. É o nosso macaquinho. – Responde o macaco.

- Gostava que ele se chamasse Venâncio. Como o meu avô.

- Eu preferia Roberto, como aquele meu tio que batia nos gorilas. Quero que o nosso menino seja assim, valente.

Um dos investigadores que conduziram este estudo afirmou que “normalmente, os macacos não conseguem reconhecer-se ao espelho, presumivelmente devido à falta de capacidade de consciência de si próprios”, mas um dos macacos anteriormente mencionados já comentou.

“Por acaso, tenho um vizinho que sempre revelou uma falta de capacidade de consciência de si próprio. Pronto, o macaco era limitado, temos que aceitar. Mas nem por isso deixava de andar bem penteado, o que indiciava que passava algum tempo em frente ao espelho. Já a macaca dele andava muito arranjada. E tinha boa capacidade de consciência de si própria. Tinha era pouca auto-estima.”

O mesmo macaco acrescentou que espera pelo dia em que um estudo conclua que os macacos sabem tirar selfies, mas são fracos a fotografar paisagens.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Pessoas que nunca tiram o casaco

Um espaço de diversão nocturna, geralmente, é quente. Tão quente que há sempre alguém a beber “refrigerantes”. Tão quente que o copo é 98% gelo e 2% de líquido. Tão quente que aquela miúda gira está quase despida. E a outra do lado, também. E aquela. E aquela.

Continuando. Nos espaços de diversão nocturna, existem bengaleiros, onde podemos deixar o casaco. Mas isso é para fraquinhos. O verdadeiro folião mantém o casaco e o cachecol durante toda a noite. Isto acaba por fazer com que, no meio da pista, entre bêbados eufóricos e casais que se vão formando, em dinâmicas de sedução pura, há um roupeiro que se movimenta. Só nos apercebemos de que é uma pessoa pela mão que segura o copo, porque não se vê mais nada.

(Sheila in Moonducks/Flickr)

Há várias hipóteses que podem explicar o facto de alguém manter de casaco e cachecol, numa discoteca. A primeira é o desconhecimento da existência de um bengaleiro. Esta hipótese surge aliada a um reduzido poder de dedução: há pessoas em t-shirt, camisa, top ou em sutiã, como aquela moça jeitosa cujo decote deixa ver o umbigo (embora eu ainda não tenha reparado no umbigo), em pleno Inverno, o que pode constituir um forte indício de que há um lugar para deixar os casacos.

Outra hipótese é a preguiça. O que não faz sentido: passam-se horas de pé, de um lado para o outro, entre uma multidão aos encontrões, mas ir pousar o casaco é cansativo.

O magnetismo também pode explicar muita coisa: à quinta bebida, o balcão torna-se um íman poderosíssimo, que atrai irresistivelmente a nossa barriga metálica.

Pode ainda ser uma questão de gosto. Estava a brincar. É impossível ser uma questão de gosto.

E assim se passa uma noite: um copo, dois copos, três copos, uma porta de um roupeiro, não, é um braço, uma troca de olhares, um sorriso, uma piada, uma dança parva, uma porta de um roupeiro, não, é um braço outra vez.

Às tantas, o roupeiro estabelece interacção com uma mulher. A coisa promete. Um pouco de conversa e há fortes probabilidades de haver sexo ocasional.

Na hora da verdade, surge uma pergunta: “Eu sei que vamos ter relações sexuais, mas preciso de tirar o casaco e o cachecol?”.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Um segundo a mais

O ano de 2015 vai ter um segundo a mais. Isto porque o International Earth Rotation Service calculou que esse segundo será fundamental para que não haja discrepância entre o Tempo Atómico Internacional (dado pelos relógios atómicos) e o tempo astronómico (dado pelos gajos que leem o futuro nos astros). Mentira, eu queria dizer “tempo dado pelos próprios astros”.

(Ricky Thakrar/Flickr)

Que o resto do Mundo tenha mais um segundo, até acredito. Em Portugal, vai ser mais complicado. Isto porque vai ser necessária uma justificação desse segundo, por parte de meia dúzia de departamentos de Física das nossas universidades. Depois de um intenso debate, com direito a uma edição do programa “Prós e Contras”, em que as pessoas vão aplaudir ambas as partes, de cinco em cinco minutos, vai surgir uma decisão: enviar a decisão para a Assembleia da República.

Os partidos não vão chegar a acordo, porque uns vão querer decidir, outros vão querer um referendo. Feitas as contas, vão impedir que o ano tenha mais um segundo.

Perante esta decisão, algum deputado vai acabar por enviar a questão para o Tribunal Constitucional. Os juízes desta instância vão ratificar o segundo a mais, mas a questão não fica por aqui.

O segundo terá que entrar em vigor, mas algum funcionário público vai enviar a questão ao chefe do departamento, que a vai remeter para o director regional, que a vai remeter para o director-geral, que a vai remeter para o ministro da tutela.

Este, confuso, vai pedir um relatório ao Tribunal de Contas. O Tribunal de Contas diz que o segundo está certo e o Tribunal Constitucional pergunta se vai ter que se chatear.

Um requerimento especial do ministro vai ser enviado ao director-geral, que o vai passar ao director regional, que o vai passar ao chefe do departamento, que o vai passar ao funcionário. Este vai dizer que com ele não há maroscas, o pedido fica com a senha 153 e ele ainda vai no utente com a senha 98.

O segundo a mais acaba por entrar em vigor, estamos já em 2017.

Medina Carreira vai comentar: “Estamos mais atrasados em relação à Europa”.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O melhor amigo otário

Há dias, um amigo meu referiu-se a alguém usando a expressão “o meu melhor amigo otário”. Quando questionado, explicou: “Dos meus amigos otários, ele é o melhor”. Faz sentido.

(Laila X/Flickr)

Desafiado por esse meu amigo, decidi elencar alguns tipos de melhores amigos.

O melhor amigo mentiroso
É um gajo porreiro e a sua mentira não se dá por maldade, mas por uma lógica de entretenimento. Ele inventa para melhorar as suas histórias. É um “entertainer” e vai sempre exagerar. Porque sabe que gostamos de o ouvir. Porque sabe que, se não o fizer, a sua vida não vai parecer tão interessante.

O melhor amigo rigoroso
Corrige a gramática, corrige as datas e as horas, corrige os nomes dos filmes. É muito culto, mas extremamente aborrecido, porque vai ao pormenor do pormenor. Ninguém sabe explicar por que gosta dele, mas a verdade é que, por vezes, ele dá jeito. Sobretudo, quando não temos uma calculadora à mão.

O melhor amigo chato
Não se cala e tem tendência a repetir a mesma história. Neste caso, há duas hipóteses: ou a história tem sempre piada e até vale a pena ouvir, ou as pessoas vão ouvi-la por não quererem dizer “Já contaste essa merda!”.

O melhor amigo teimoso
Se lhe falas de futebol, dá asneira. Se lhe falas de política, dá asneira. Se lhe falas de trabalho, dá asneira. Se respirares, dá asneira. Dá asneira pelo simples facto de que este amigo costuma dividir a Humanidade em dois grupos: as pessoas que estão erradas e ele. Nenhum grupo sobrevive bem com dois amigos deste tipo, uma vez que eles são capazes de desencadear uma guerra civil.

O melhor amigo fixe
Toda a gente gosta dele, porque a festa persegue-o até aos lugares mais recônditos do planeta. Chega atrasado e ninguém repara. Não trouxe dinheiro e alguém lhe paga o jantar. Não quer sair e vão buscá-lo a casa. Se o Mundo fosse composto apenas por pessoas como ele, era sempre Sábado. Mas ainda viveríamos nas grutas e desconheceríamos a roda.

O melhor amigo engatatão
Convives com ele em intervalos, porque ele tem o tempo todo ocupado, entre miúdas giras e festas. Parece que está permanentemente em missão, mas quando o encontras, tem sempre boas histórias para contar.

O melhor amigo responsável
Trabalha muito, é casado e tem filhos. Já ninguém consegue conversar com ele. Na verdade, já ninguém gosta dele. Mas temos pena da vida dura que ele leva e, nas duas vezes por ano em que o encontramos, tratamo-lo bem.

Estes são apenas alguns dos tipos de amigos. Muitos mais haveria a elencar. Isto é, também, um tipo de amigo: o que só diz metade das coisas, completando a frase com “E outras merdas”.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A cassete do fim do Mundo

Não passava de uma suposição mas, agora, a história está confirmada: a CNN tem uma cassete com um vídeo para ser transmitido quando o Mundo acabar. Ted Turner, fundador da cadeia televisiva, já tinha afirmado que a CNN emitiria até ao fim dos dias.

(H.P. Brinkmann/Flickr)

 O vídeo em questão mostra a banda do exército dos Estados Unidos a tocar o tema que terá sido tocado a bordo do Titanic, enquanto este afundava.

Acho interessante esta ideia. Primeiro porque, caso o Mundo esteja para acabar, a primeira coisa que nos vai passar pela cabeça é correr para a televisão, para assistirmos à emissão da CNN. Isso depois de saber quem saiu da Casa dos Segredos, como é evidente.

Segundo porque há sempre aquele viciado em televisão que vai ficar em frente ao aparelho até não poder mais. Mesmo depois do conteúdo da cassete ser emitido, ele vai ficar no sofá, em transe. E quando a casa começar a ruir, com o fim do Mundo, ele vai dizer “Merda, agora que ia começar um episódio do ‘Walking Dead’…”.

Sugiro à CNN a criação de várias mensagens, a sobrepor a este vídeo, para possíveis momentos históricos da nossa civilização.

Um ataque militar em larga escala, protagonizado pela Coreia do Norte
“Senhores telespectadores, fechem as janelas. Vai ser uma espécie de queda de granizo. Uma saraivada das antigas.”

O Sporting ganha o campeonato
“Senhores telespectadores, é mesmo verdade. Até agora, o Universo não entrou em colapso. Mas nada está garantido.”

Os gajos do CSI não conseguem resolver um crime
“Senhores telespectadores, era a brincar. No próximo episódio, eles resolvem dois, para compensar.”

A Rússia torna-se um país de bem
“Senhores telespectadores, vai haver uma retaliação forte, por parte dos Estados Unidos. Só pode haver um bom da fita e nós não partilhamos esse papel com ninguém.”

Um asteróide em rota de colisão com a Terra
“Onde está o Bruce Willis, quando é preciso?”

Descoberta de vida extraterrestre
“Agora que já sabemos, quando é que abrem a Área 51 aos turistas?”

Uma invasão alienígena
“Onde está o Chuck Norris, quando é preciso?”

O fim deste blogue
“Finalmente.”

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Três portugueses quase notáveis

A revista Forbes escolheu as trinta personalidades com menos de trinta anos que mais se destacaram, em diversas áreas, ao longo de 2014. Três destas personalidades são portuguesas: o futebolista Cristiano Ronaldo, o artista plástico Alexandre Farto, conhecido como “Vhils”, e a investigadora Maria Pereira.

O Texto Incompleto conhece outros três portugueses que se inserem na categoria “Pessoas que se poderiam ter destacado, não fosse o facto de não se terem destacado”.

(Macroscopic Solutions/Flickr)

Manuel Regueza, 29 anos, heptacampeão de sueca da vila de Guelhofeses
Um jovem prodígio da sueca, é um hábil contador de cartas desde os seis anos. Diz que se orgulha de nunca ter sido apanhado numa renúncia. Já disputou alguns torneios fora de Guelhofeses, mas nunca os venceu, por se ter envolvido em cenas de pancadaria antes da final. Os seus passatempos são ver o Benfica, comer tripa enfarinhada e fazer campeonatos de “arremesso de bigornas”. Este ano, mudou de parceiro na sueca e prepara-se para defender o título. Já afirmou que está ganho, de qualquer maneira: ou ganha mesmo ou acaba à chapada com a equipa adversária.

Joaquina Fagundes, 29 anos, Presidente da Junta de Freguesia de Trapezes de Cima
Entrou na política aos 18 anos, quando, no liceu, foi eleita delegada de turma. Teve um talho. Agora, tem dois: abriu um novo em Trapezes de Baixo. Segundo conta, em tom de brincadeira, para Trapezes de Baixo só manda a carne de baixo. Foi eleita para a Junta de Freguesia com 98% dos votos. Captou o eleitorado, fundamentalmente, com os seus ideais, com a sua história de vida e com as propostas para a freguesia. Os burgessos que não compreenderam os seus discursos, votaram nela, na mesma: trata-se de uma mulher extraordinariamente bonita. Não gosta de futebol, porque, segundo afirma, “é um jogo muito suave”. Gosta de boxe e de artes marciais.

Alberto Podeira, 29 anos, dono da tasca “Casa do Marmelo”, na aldeia de Burgeses
Abriu a tasca com 20 anos. Em menos de cinco, já tinha, associados ao estabelecimento, uma fundação e um estaleiro cultural (o estaleiro era só ao fim-de-semana, durante a semana era uma oficina do Tone Chapeiro). Recebeu, no seu estabelecimento, as mais altas personalidades das aldeias limítrofes. Algumas delas foram expulsas, devido a comportamento inadequado. Não sem antes pagarem a despesa. Criou uma rede de tascas chamada “Pataniscas com poesia”, através da qual promove o intercâmbio cultural entre aldeias. Esse intercâmbio consiste em grandes jantaradas e torneios de sueca. “A poesia era para dar cagança, mas costumamos avançar essa parte”, explica. Manuel Regueza está proibido de entrar na tasca, por ser, segundo ele, “um javardo das cartas”. Como passatempo, restaura carros antigos. O seu preferido é um Fiat 600 que, depois de muito trabalho, passou de todo empenado para moderadamente empenado.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Números primos afastados

Há 76 anos que os matemáticos se debruçavam sobre esta questão. Alguns, debruçaram-se de tal forma que caíram.

(Desculpem, não resisti. Vou recomeçar.)

Há 76 anos que os matemáticos se debruçavam sobre esta questão: qual a maior distância possível entre dois números primos?

(Daniel Kulinski/Flickr)

Números primos são números apenas divisíveis por si próprios ou por 1. Ou são dois números em que um dos progenitores de um é irmão de um dos progenitores do outro.

(Desculpem, não resisti. Vou continuar.)

O primeiro matemático a debruçar-se sobre esta questão debruçou-se pouco, porque já não ia para novo e as costas já não deixavam.

O segundo matemático era novo e achou que aquele tipo de cálculo era um pouco aborrecido. Precisava de um tipo de cálculo que tivesse gajas e sol. Passados sessenta anos, ainda está numa praia em Miami a contar grãos de areia. Não se sabe em que número vai, não porque a sua história tenha caído no esquecimento, mas porque o próprio já se perdeu na conta.

O terceiro matemático a enfrentar este problema desinteressou-se dos números primos. Passou a estudar primas: nomeadamente, uma prima de um amigo, que era bem jeitosa, e que ele conheceu num casamento.

Em Maio de 2013, Yitang Zhang provou que os números primos nunca podem ter, entre si, mais de 70 milhões de números. E que não podem comer feijão, porque incham, com os gases.

Com base nesta descoberta, os matemáticos Terence Tao, Kevin Ford e Sergei Konyagin tentaram descobrir a fórmula que calcula a distância máxima entre dois números primos.

Conseguiram e, agora, preparam-se para revelar a verdade ao Mundo. Mais do que saber qual o sentido da vida, se há vida extraterrestre ou quem vai ganhar o campeonato de futebol da Estónia, precisávamos de saber isto.

Tanto quando o Texto Incompleto apurou, quando estes três matemáticos perguntaram a Yitang Zhang como descobriu que dois números primos não podiam distar mais de 70 milhões de números, Zhang respondeu que tinha recorrido ao cálculo integral, à álgebra e à aritmética, à acupunctura e ao chá de loureiro.

Depois de tudo ter falhado, perguntou ao avô, que era mestre de Kung Fu. Como toda a gente sabe, os mestres de artes marciais sabem tudo.

Quando lhe perguntaram por que demorou tanto tempo a revelar, se bastava perguntar ao avô, ele respondeu: os mestres de artes marciais demoram muito tempo a dizer qualquer coisa.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Resoluções de Fevereiro

No fim do ano, toda a gente faz resoluções para o ano seguinte. Se aquilo a que as pessoas se propõem, na mudança do ano, fosse tornado realidade, teríamos um Mundo melhor. Sobretudo porque, em poucos anos, as resoluções de Ano Novo desapareceriam. Seríamos todos perfeitos.

Eis as principais diferenças entre os meses de Janeiro e Fevereiro, sob o prisma das resoluções.

(KIHONG KIM/Flickr)
Exercício físico/dieta
Em Janeiro, há perspectivas de termos uma sociedade cheia de pessoas saudáveis e sensuais. Fernando Mendes seria o último gordo do planeta. Se todas as resoluções de exercício físico e dieta fossem respeitadas, a natalidade subiria 1000%: sairíamos à rua e a sensualidade envolver-nos-ia, como uma brisa marítima que nos convida a um mergulho. Faríamos sexo a cada cinco minutos, tal seria a quantidade de estímulos sexuais provocados pela beleza. Em Fevereiro, muitas pessoas já passaram mais tempo a comer porcarias do que a correr. Muitos correram apenas entre o carro e o restaurante, para não apanharem chuva, e outros já desistiram de perder peso, tentando, por isso, livrar-se da roupa de tamanho mais pequeno que compraram para quando aqueles quilos a mais se tivessem ido embora.

Acabar com alguns vícios
Todos querem deixar de fumar e beber menos. Em Fevereiro, apenas alguns ainda aguentam esta resolução, chegando mesmo a passar o Carnaval. Desses, alguns chegam ao Verão, mas poucos restam, no final da estação. Apenas dois aguentam até Dezembro. Depois, nos jantares de Natal e na passagem de ano, embebedam-se e fumam um cigarrinho, só para comemorar. Em Janeiro recomeçam do zero.

Gestão do stress
No início do ano, toda a gente pretende ser mais tolerante, reagir melhor às adversidades, procurar um estilo de vida que facilite o relaxamento. No fundo, ser parecido com o Dalai Lama. Em Fevereiro, já muitas pessoas se passaram da cabeça na fila para pagar no supermercado, andaram à chapada por causa de um penalty mal marcado, disseram mal dos vizinhos todos (menos da vizinha do quinto andar, que é mesmo jeitosa) e insultaram, pelo menos uma vez, alguém que tenha demorado mais a arrancar, depois de o semáforo ficar verde. No fundo, ficaram mais parecidas com o líder de uma claque de futebol.

Organização
Fazem-se listas de objectivos a atingir e planos de actividades. Em Fevereiro, algumas pessoas já não sabem onde puseram as listas. Nem as chaves de casa.

Criar hábitos culturais
Em Janeiro, fazem-se listas de livros a ler, filmes e concertos a assistir, museus e outros locais a visitar. Em Fevereiro, já muitos desesperam pela próxima edição da Casa dos Segredos.

Aparentemente, só pensamos em mudar de vida perto do fim do ano. Se, um dia, tivessem eliminado o mês de Janeiro, ainda estávamos à espera que alguém inventasse a roda.