quarta-feira, 25 de março de 2015

E se a vida fosse por pontos?

Foi lançado, recentemente, um videojogo de tiros. OK, estou a ser um estúpido: deve dizer-se “First Person Shooter”.

Um jogo de tiros, portanto.

Nesse jogo, um dos rankings mais importantes é o de “skill”: acções bem sucedidas dão-nos skill, acções mal sucedidas fazem-nos perder skill.

Se Chuck Norris jogasse este jogo, atingiria skill infinita dez minutos depois de colocar o DVD na consola (isto porque cinco minutos são sempre necessários para a instalação do jogo).

Em conversa com dois aficionados deste título (digo “título” para não repetir “jogo”, que termina o parágrafo anterior, mas também para mostrar aos “gamers” que eu não sou um “rookie”), ocorreu-me esta ideia: e se a vida também consistisse em ganhar e perder skill?

(MeoplesMagazine/Flickr)

Acordas cedo, depois de te teres deitado tarde – Perdes skill.
Tens uma mensagem daquela miúda gira que conheceste anteontem – Ganhas skill.
Tens um furo a caminho do trabalho – Perdes skill.
Resolves o problema em menos de dez minutos – Não ganhas skill, mas ligam-te da equipa de Fórmula 1 da Ferrari.
Chegas atrasado ao trabalho – Perdes skill.
Está toda a gente à espera que chegues para resolver um problema e tu resolves – Ganhas skill, ligas para a Ferrari e dizes que vais para a Apple.
Tens um Samsung – Perdes skill e o contrato com a Apple.
Ligam-te do banco: compraste papel comercial do BES e estás falido. – Perdes skill.

- Mas que merda é essa do papel comercial? – Perguntas.

- Pedimos desculpa, foi engano. – Respondem-te.

Recuperas a skill.

Chegas ao trabalho depois do almoço. O sono corrói-te o cérebro. – Perdes skill e também perdeste a chave do carro, mas só vais reparar ao fim da tarde.
Cometes uma série de erros, nas tuas tarefas, mas ninguém nota. – A skill mantém-se.
Ao fim da tarde, não sabes da chave do carro. – Perdes skill.
Vais a pé para casa. – Ganhas resistência. Skill, nem por isso, porque a tua obrigação é fazer algum exercício, seu preguiçoso.
Encontras a miúda que te mandou a mensagem, de manhã. Ela fica radiante. Tu não a reconheces. – Perdes skill.
Inventas uma desculpa, algo como “Estava a brincar contigo”. Ela acredita. – Recuperas a skill. Ela perde a skill toda que tinha.
Convida-la para jantar. Ela aceita. – Ganhas skill.

Revoltas-te com o narrador deste texto.

- Vais parar com essa merda??? A vida não é só skill. Existe a saúde, a amizade, o amor. Pára de quantificar tudo como se a vida fosse um jogo!

O narrador põe a mão na consciência e pára com a conversa da skill.

Vais jantar com a miúda gira e tentas impressioná-la.

- Sabias que, no “Battlefield 4”, tenho novecentos e tal de skill?

quarta-feira, 18 de março de 2015

Até sempre, Internet Explorer

Nota prévia: este texto foi escrito em 2032 e retrata um episódio triste para todos os internautas que gostavam de uma vida tranquila.

A notícia caiu como uma bomba, a 18 de Março de 2015: o Internet Explorer ia acabar. Houve quem chorasse. O Internet Explorer não, porque ainda estava a processar uma notícia de 15 de Março.

(Matt Thompson/Flickr)

A Microsoft, que ainda não tinha acabado, estava preocupada e chegou mesmo a parar com a produção de telemóveis que ninguém queria, tablets que pouca gente queria e surfaces que ninguém podia pagar. Como não sabiam o que fazer (algo frequente, por aquelas bandas), para salvar o Explorer, voltaram ao trabalho. Produziram ainda mais telemóveis que ninguém queria, mais tablets que pouca gente queria e surfaces que ninguém podia pagar.

Contra todas, repito, todas as previsões, ninguém comprou os telemóveis, os tablets e os surfaces. A Microsoft decidiu trabalhar naquilo que melhor sabia: dejectos. Bill Gates desenvolveu uma técnica que permitia criar água potável a partir de fazes. A Microsoft ficou na merda, mas ganhou muito dinheiro com isso.

Voltando ao Explorer, ele passou alguns dias a embebedar-se, para esquecer. Como era muito lento, demorou quase duas semanas. Depois, procurou trabalho, mas o único trabalho que tivera era o de browser.

Já ninguém queria browsers, em 2015. É mentira: ninguém queria jornalistas ou professores, mas toda a gente queria um bom browser.

O Explorer desapareceu, sem deixar rasto. Aqui ficam algumas homenagens.

Passos Coelho
“Foi ainda no Explorer que preenchi os meus primeiros formulários do IRS, corria o ano de 2010.”

António Costa
“Ainda é cedo para falar sobre este assunto. Em Junho, direi o que penso.”

Alexis Tsipras
“Os históricos do poder estão todos a morrer. Depois do Explorer, será a Alemanha.”

Dalai Lama
“O Explorer procurou o caminho da paz e morreu, por isso, em paz. Sem saber nada do que se estava a passar.”

Jorge Jesus
“Foi um jogador que, em termos do que é a velocidade do jogo, era lento. Mas tinha muita qualidade, em termos técnico-tácticos. O seu posicionamento era muito importante para nós. Mesmo quando parecia que estava desposicionado, estava posicionado.”

Marcelo Rebelo de Sousa
“Era um notável caído no esquecimento. Ou seja: ideal para se candidatar à Presidência da República.”

Quentin Tarantino
“Vou fazer um filme sobre o fim do Explorer. Mas com muito sangue, porque o Mundo é violento.”

Jorge Jesus (em off)
“Onde joga o Internet Explorer?”