segunda-feira, 18 de maio de 2015

O melhor bar do Mundo

Abriu, em Lisboa, o “Red Frog”, um bar que, segundo dizem, poderá tornar-se um dos melhores bares do Mundo. Tendo em conta as suas características, este espaço não difere muito de uma tasca que existe em Rebordelos de Fora, a “Barata Vermelha”.

(Thomas Hawk/Flickr)

O bar funciona à porta fechada, numa cave
A tasca funciona num anexo, situado no quintal do Venâncio (o proprietário). Entra-se pelas traseiras da casa, passa-se pelo galinheiro e se, no bar, tem que se tocar à campainha, para entrar, na tasca é preciso ser mesmo da casa, caso contrário, o Adamastor, um imponente cão da raça Serra da Estrela, é menino de atacar o cliente.

O bar tem um espaço secreto, a que se acede empurrando uma das paredes do fundo
A tasca não tem parede, na parte de trás, porque dá directamente para a oficina onde o Venâncio faz consertos de electrodomésticos diversos.

O bar vai estar em “soft opening” até Setembro, depois abirá em definitivo
A tasca está em “soft opening” há quinze anos, porque nunca teve licença de funcionamento, embora alguns agentes da autoridade petisquem qualquer coisa por lá. O conceito de “soft opening” também se aplica pelo facto de a “Barata Vermelha” não ter horário de funcionamento. Basta o Benfica não ganhar um jogo que o Venâncio já não abre a porta a ninguém.

O bar terá uma carta com trinta cocktails de autor
A tasca tem uma ementa variável, de acordo com a vontade da esposa do Venâncio. Às vezes, há panados, outras vezes, pataniscas. O vinho varia consoante o que o pai do Venâncio lhe traz de outras aldeias. É tudo de autor: os panados, as pataniscas, os vinhos e as manchas de vinho nas toalhas aos quadrados. A instalação eléctrica também é de autor, já o que Venâncio fez uma “puxada” de um poste de iluminação dali perto.

No bar, a rede de telemóvel é muito limitada
Na tasca, há bastante rede, mas ninguém usa os telemóveis. O Facebook tem poucos utilizadores, em Rebordelos de Fora. O Venâncio tem e-mail há menos de um mês. E criou um para se registar num site de pornografia. Pensou que tinha que se registar, para ver os filmes.

O bar poderá vir a ter “bartenders” nacionais e internacionais como convidados
A tasca teve, uma vez, um convidado, o Manuel dos Presuntos, que foi lá ensinar a cortar presunto. Nesse dia, o Porto ganhou ao Benfica e, como o Manuel é portista, foi corrido à chapada pelo Venâncio.

No bar, os clientes recebem um copo de água aromatizada com gelo, à entrada, para limparem o palato
À entrada da tasca, os clientes são brindados com o cheiro do galinheiro, para que não se importem com o cheiro a fritos.

O bar terá o nome de “Red Frog”, por causa de uma espécie de sapos vermelhos que um dos proprietários conheceu no Panamá
A tasca chama-se “Barata Vermelha” porque, segundo o Venâncio, até as baratas são do Benfica. O “Red Frog” tem sapos vermelhos de louça. A tasca tem baratas. Verdadeiras.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Nunca digas "Sem falta"

Adoro quando alguém começa uma frase com a expressão “Não te quero pressionar”, ignorando que, ao fazê-lo, já está a pressionar. Adoro quando alguém começa uma frase com a expressão “Não me quero intrometer”, ignorando que, o que quer que diga a seguir será uma intromissão.

Acontece algo parecido quando alguém promete algo recorrendo à expressão “Sem falta”: está meio caminho andado para que a promessa não se cumpra.


(JD Hancock/Flickr)

Um dia, um homem foi ao mecânico e este disse-lhe: “Na Sexta-feira, sem falta, o carro está pronto”. Entretanto, o homem envelheceu, aquele modelo de carro desapareceu de circulação, o homem teve filhos e netos, a indústria automóvel sofreu uma revolução e, certo dia, um dos netos foi buscar o antigo carro do avô. Estava pronto e valia uma fortuna, porque se tinha tornado um clássico.

Uma vez, um homem pediu a um pintor para dar um jeito na parede da sala de estar. O pintor disse: “Para a semana, sem falta, passo lá”. Entretanto, o homem mudou de casa, a casa apodreceu, abandonada, e no seu lugar nasceu um prédio. O neto do pintor acabou por lá ir e ficou furioso. “É sempre a mesma coisa, mandam-me pintar uma casa, chego aqui, encontro um prédio. Vou precisar de um camião para trazer os baldes de tinta todos!”

Certo dia, um homem levou o computador a uma loja de informática, para uma reparação. O técnico disse: “Na Quarta-feira, sem falta, a máquina está pronta”. Depois disso, surgiram os computadores portáteis, os smartphones e os tablets. Surgiram ainda novas superfícies tácteis, a holografia e a tecnologia controlada pela mente. Até que o homem voltou à loja de informática e reparou que esta já não existia. No seu lugar, surgira um spa mental: um espaço onde as pessoas relaxavam, através do recurso a uns capacetes que induziam pensamentos agradáveis. Mas, à porta desse spa, estava o antigo computador do homem. Reparado e com um papel colado, onde estava a conta.

Quando fundou a Apple, Steve Jobs convidou um designer para criar uma linha de computadores. O designer respondeu: “Até ao fim desta semana, sem falta, apresento-te alguma coisa”. Entretanto, passaram quase quarenta anos, a Apple tornou-se numa das marcas mais valiosas do Mundo e o designer dirigiu-se às instalações da empresa, para apresentar a sua ideia. “Antes de mostrar o meu projecto, quero deixar bem claro que acho que vocês fizeram tudo mal. Tudo, tudo mal. Os vossos produtos são muito foleiros. Podiam ter esperado notícias minhas. Tiveram pressa, lixaram-se.”

Ao longo dos anos, várias personalidades recorreram à expressão “Sem falta”, com os mesmos resultados.

D. Sebastião: “Vou ali ao norte de África e volto daqui a seis meses, sem falta”.

Fidel Castro: “Vou só implementar o socialismo e, daqui a dez anos, sem falta, abandono o poder”.

Vários os presidentes americanos: “Na próxima década, sem falta, vamos deixar de invadir países por causa do petróleo e dos interesses políticos”.

Vocalista de uma qualquer banda de heavy metal: “Para o ano, sem falta, tomo banho”.

Vários primeiros-ministros portugueses: “Na próxima legislatura, sem falta, atingiremos o caminho do sucesso”.

Armando Rebordeira, Presidente da Junta de Freguesia de Burgeses: “Para o ano, sem falta, deixo de beber álcool. E pavimento as ruas todas”.

Não quero pressionar mas, no próximo parágrafo, sem falta, acabo este texto.

Só mais um.

Outro.

Agora sim.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Pessoas que sabem tudo no trabalho

Todas as empresas têm um funcionário que sabe tudo sobre tudo, sem ninguém saber como. É uma espécie de James Bond, mas sem ser cool. E sem os carros. E os “gadgets”. E as Bond Girls. E isso tudo.

(Andrew Becraft/Flickr)
Esse funcionário sabe tudo porque alguém lhe dá a informação e, no fim, lhe diz: “Não contes a ninguém. Para já, ninguém pode saber”. Partilhar uma informação relevante com alguém e pedir segredo tem a mesma eficácia que um alpinista tentar escalar o Everest usando luvas de boxe e patins, com um gorila abraçado a ele. Pronto, sem o gorila, que larga muito pêlo, mas com uma mochila cheia de chumbo, às costas.

OK, deixemos o alpinista em paz: tem a mesma eficácia que pedir ao Jorge Jesus para dizer a primeira estrofe dos Lusíadas sem se enganar.

E assim se espalha um segredo, em qualquer empresa, até que toda a gente o saiba, sem que ninguém fale disso. Surgindo o primeiro comentário, já toda a gente fala abertamente sobre o “segredo”. É como nos casamentos, quando está tudo à espera que alguém pegue no primeiro rissol.

No fim, tenta-se saber quem foi que espalhou o segredo. Assim, de repente, essa empresa torna-se numa comissão parlamentar sobre o BES: “não sei”, “não me lembro”, “nunca falei no assunto”, “ninguém me disse”, “não deveria ter sido dito, ao abrigo do artigo 32 do código das sociedades comerciais”. Se calhar, esta última expressão é mais rara. E eu nem sei qual é o artigo 32 do código das sociedades comerciais.

É impossível surpreender a pessoa que sabe sempre tudo.

- O Armando do armazém vai ser despedido.

- Eu sei.

- A Manuela tá grávida.

- Eu sei.

- O António vai ser promovido.

- Eu sei.

- Um asteróide vai colidir com a Terra. O impacto será em pleno Oceano Pacífico e vai dizimar 89% da vida no planeta.

- Eu sei.

- Vai haver um terramoto, daqui a dez minutos.

- Eu sei.

- O chefe vai reformar-se.

- Eu sei, o Armando do armazém disse-me, quando eu lhe disse que ele ia ser despedido.

- Disseste ao Armando do armazém que ele ia ser despedido???

- Ei, merda!

As pessoas que sabem sempre tudo podiam ter tido um papel importante na História. Segunda Guerra Mundial: “Já sabes o que a Alemanha vai fazer? Vai invadir a Polónia. Isto vai acabar mal”. Queda do Muro de Berlim: “Acho que vão deitar o muro abaixo. O Sr. Ulrich diz que o muro atravessa a propriedade dele e que acabou a brincadeira. É por isso ou por coisas lá da política”. Descoberta de vida inteligente extra-terrestre: “Eu já sabia. O Armando do armazém é extra-terrestre”.