domingo, 27 de setembro de 2015

Alguns tipos de relações amorosas

Há namoros intensos e namoros aborrecidos. Há namoros sentidos e namoros ocasionais. Enquanto houver seres humanos, haverá novos tipos de namoros, uns mais comuns, outros mais originais. Seria impossível elencar todos os tipos de relações amorosas, mas vou deixar aqui alguns dos mais comuns.

(uditha wickramanayaka/Flickr)

Romeu e Julieta
Partilham tudo, menos a escova de dentes. OK, subamos a parada: partilham a escova de dentes. E as gengivites. Partilham todas as viagens, todos os passeios, todos os pores-do-sol, todas as diarreias. Quando um fica doente, o outro toma a medicação. Não resulta e acaba por ter que ser o que está doente a tomá-la. Mas é romântico. São o complemento perfeito, um para o outro. Ao fim de algum tempo, um inspira e o outro expira. Respiram a meias, no fundo. O que é bom, porque se poupa no oxigénio. No médio/longo prazo, deixam de existir para outros seres humanos. São o monstro de Loch Ness dos namoros: volta e meia, aparecem, mas estão quase sempre “debaixo de água”. Uns dizem que eles existem, outros não acreditam.

Faixa de Gaza
Discutem por causa dos ciúmes. Discutem por causa do tampo da sanita. Discutem por causa dos cortinados. Discutem por causa da Coreia do Norte e da Coreia do Sul. Discutem por causa do sentido da vida. Discutem por causa da toalha molhada em cima da cama. Discutem por causa do calçado desarrumado. Por causa da comida. Por causa do restaurante. Do filme que vão ver. Do filme que viram. Discutem por não se lembrarem de nenhum motivo para discutir. “Nunca te lembras de um motivo!”, “Ainda ontem fui eu que comecei a discutir”, “É isso, atira coisas à cara, adoro quando fazes isso…”. Discutem sobre tudo e sobre nada, mas estão destinados a viver um com o outro.

Ioió
Namoram com toda a intensidade. Chateiam-se e desejam a morte um do outro. Reencontram-se e recomeçam a namorar. Não vivem um sem o outro. Chateiam-se e dizem “Nunca mais”. Reencontram-se e começam “uma cena sem compromisso” (no fundo, namoram, mas como da outra vez não resultou, resolvem dar-lhe um nome diferente). Chateiam-se e prometem que vão casar com a primeira pessoa que aparecer na rua. A primeira pessoa não corresponde, a segunda também não. Recomeçam a namorar, até se chatearem de novo. No fundo, eles só gostam do sexo de reconciliação, mas ainda não se aperceberam.

Salto em Altura
Estes namoros são uma competição, para ver quem é mais lamechas. Um oferece flores. O outro planta um jardim. Um cria uma escultura. O outro faz um museu com tudo o que eles partilharam. Um escreve um poema. O outro escreve, também, e divulga-o em papéis, atirados por um avião. Um corta um braço, por amor. O outro pega nesse braço e coça as costas do primeiro. Basicamente, eles estão juntos pela competição. O amor é secundário.

As palavras que nunca te direi
Não há demonstrações de carinho, em público. Nem em lado nenhum. Estão juntos por falta de opções. Espera: mas são namorados? Esperemos que eles se pronunciem sobre o tema. São como pessoas presas num elevador: não sabem por que motivo o elevador parou, não queriam que ele tivesse parado, mas acabam por conviver.

Eclipse
Um deles é alegre, divertido/a, extrovertido/a. Tem sempre uma piada, faz sempre qualquer coisa parva. Excepto na presença da namorada/o. Nessa situação, transforma-se numa estátua, tão desinteressante que nem as pombas a procuram. Se conheces alguém assim, despede-te: essa pessoa só voltará a existir se a relação acabar.

24 Hour Party People A
Vale tudo: no sexo, no dia-a-dia, no sexo, nos passeios, nos jantares, no sexo e nos encontros com amigos. Nos cinco dias que sobram, por mês, para a namorada/o, também vale tudo.

24 Hour Party People B
Vale tudo: no sexo, no dia-a-dia, no sexo, nos passeios, nos jantares, no sexo e nos encontros com amigos. Só não vale com a namorada/o.

Agentes Secretos
Namoram sem ninguém saber. Em alguns casos, sem os próprios saberem.

domingo, 20 de setembro de 2015

Fases de um dia de sono

Às vezes, esticamos um bocadinho a corda e cortamos nas horas de sono. Enquanto o fazemos, divertimo-nos. O problema é o dia seguinte. Vamos sofrer, dizer mal de nós mesmos e prometer que, nesse dia, nos vamos deitar cedo. Mesmo sabendo que é mentira. Eis as fases por que passamos, num dia com sono.

(Tambako The Jaguar/Flickr)
Fase Che Guevara
Acordamos com muito sono e o primeiro sentimento que temos é uma espécie de fúria revolucionária. “Logo, vou deitar-me às nove da noite. Nunca mais me deito tarde.” Nesta fase, queremos mudar os hábitos, ser mais saudáveis, mais sensatos, valorizar mais o descanso. No fundo, queremos ser pessoas melhores: ajudar mais os outros, ser mais compreensivos, cuidar melhor da saúde, atravessar na passadeira, separar o lixo, não coçar os genitais em público. É mentira: com a camada de sono que temos, queremos, não só, que os outros se lixem, como também que não falem connosco. Queremos apenas dormir mais horas e sentimo-nos capazes de fazer uma revolução: deitar cedo.

Fase Pedro e o Lobo
Ocorre a meio da manhã, quando o nosso corpo se adaptou ao estado de sono, também com ajuda da cafeína, e começamos a acreditar que não estamos cansados. Sentimos que foi falso alarme. “Pessoal, calma, podem regressar às vossas casas, não há lobo nenhum, foi impressão minha.” Sentimo-nos fortes, capazes de resistir ao sono; ao vizinho chato do 5º andar, que nos pediu que respirássemos mais baixo, de noite, porque ele tem sono leve; ao gajo que não arrancou, quando o semáforo abriu; ao gajo que não acelerou, antes que o semáforo fechasse; ao chato que vai a falar ao telemóvel aos berros, no autocarro, e que diz que o carro dele está a fazer um barulho esquisito e que lhe pediram 150 euros para o arranjar, quando um amigo dele arranja aquilo por 20 paus; ao perfume horrível que aquela senhora deixou no elevador. 

Fase Urso
Antes do almoço, o sono que sentimos, mesmo sem o sabermos, mistura-se com a fome. Os nossos níveis de agressividade tornam-se semelhantes aos de um urso. Apetece-nos atacar qualquer ser vivo que apareça nas nossas imediações. A simples existência de outros seres humanos irrita-nos. Para além disso, temos o apetite do urso: carne, peixe, bagos, um alce em decomposição ou um salmão que vai a subir o rio (estes, mais difíceis de encontrar, mas nunca se sabe), qualquer coisa serve, desde que a fome passe. Nesta fase, até um vegetariano come arroz de pato (depois de ter matado e esfolado o pato). Algumas pessoas também coçam as costas, roçando-as nas árvores, como os ursos, mas isso não tem nada a ver com o sono e a fome: é porque não chegam às costas com o braço.

Fase Lesma
Depois do almoço, cada célula do corpo está em agonia. Não nos mexemos, arrastamo-nos. Há pessoas que, tendo que descer escadas, atiram-se. O que são alguns hematomas e uma possível fracturinha, comparados com o terror de descer umas escadas? Quando a questão é subir escadas, há quem faça a fractura antes, só para não subir. Há quem aproveite uma viagem de elevador ou de escadas rolantes para um retemperador sono de seis segundos. 

Fase Kamikaze
No pico do sono, queremos morrer, o sofrimento é tanto que, se nos dessem um avião, para o atirarmos contra qualquer coisa, nós equacionaríamos a possibilidade. Nem era pela destruição, mas pela possibilidade de acabar com aquele sono.

Fase Obama
“Yes, We Can”, falta uma hora para acabar o trabalho. Sentes, não só, que o teu longo dia está quase a acabar, como também que o Mundo vai ser, depois da saída, um lugar melhor, cheio de esperança, liberdade, igualdade e fraternidade. Depois, recebes uma tarefa difícil para fazer e sentes que o Mundo é uma merda e que ser um extremista não é assim tão errado.

Fase Olímpica
Sais do trabalho. Ouves uma música épica, corres em câmara lenta, à volta do edifício do teu local de trabalho, tal e qual os maratonistas, que dão a volta à pista, depois de terminarem a prova. És indestrutível. És uma máquina. Já nada te pode incomodar. Assim que acaba o trabalho, estás em equilíbrio com a Natureza e não vais chatear-te com mais nada. Excepto com o vizinho chato do 5º andar, que te pediu que respirasses mais baixo, de noite, porque ele tem sono leve; com o gajo que não arrancou, quando o semáforo abriu; com o gajo que não acelerou, antes que o semáforo fechasse; com o chato que vai a falar ao telemóvel aos berros, no autocarro, e que diz que o carro dele está a fazer um barulho esquisito e que lhe pediram 150 euros para o arranjar, quando um amigo dele arranja aquilo por 20 paus; ou com o perfume horrível que aquela senhora deixou no elevador. Já agora, também com o facto de te teres esquecido da carteira no trabalho e teres que voltar para trás.

Fase Coyote
Tens o plano delineado há doze horas e não tencionas deixar escapar o “Beep-Beep”, que é como quem diz, queres deitar-te a horas. Como sempre, o “Beep-Beep”vai escapar, ou seja, algo vai correr mal e o teu plano vai ter um resultado desastroso. Por algum motivo, não te vais deitar cedo.

Fase Que se lixe
Vais dormir poucas horas outra vez. Tens vergonha só de pensar no assunto.

domingo, 13 de setembro de 2015

Terminar relações: algumas desculpas originais

Todos nós já recorremos a desculpas para acabar uma relação. E esse hábito é tão comum que acabamos por recorrer àquelas que toda a gente usa. Clássicos como “O problema não és tu, sou eu”, “Preciso de tempo”, “Preciso de espaço”, “Preciso de me encontrar”, “És a pessoa certa na altura errada” ou “Não estou pronto/a para assumir um compromisso” são muito úteis, quando queremos comunicar uma decisão drástica, minimizando os estragos.

(Alex/Flickr)
Acho que isto é pouco original. Se é para ficarmos na memória de alguém, que seja por sermos disruptivos na hora de nos justificarmos. Em mais um momento de verdadeiro serviço público, proporcionado por este blogue (ou, apenas, através de mais uma parvoíce que decidi partilhar), deixo algumas sugestões de desculpas para terminar relações.

“Este ano, Júpiter vai alinhar com Saturno, o que afecta a minha energia. Vou ficar insuportável. Gosto tanto de ti que tenho que te proteger deste problema.”
Óptimo para usar com pessoas que se informam pouco acerca do movimento dos planetas mas que, ao mesmo tempo, acreditam na Astrologia.

“És a minha terceira relação desde que houve um acidente na central nuclear de Fukushima [podem escolher outro desastre qualquer]. Sou obsessivo-compulsivo e gosto de números pares. O 3 é impar. Temos de terminar já, sob o risco de causarmos um desastre nuclear global.”
Recomendado para usar com pessoas obsessivo-compulsivas, porque vão entender-te na perfeição: elas sabem como o Universo depende do que nós fazemos.

“Não estás verdadeiramente comprometida com a defesa do lince ibérico.”
Resulta na perfeição com pessoas que não gostam muito de animais.

“Não tens opinião formada acerca dos mercados de dívida pública.”
Ideal para usar com qualquer pessoa, porque ninguém tem opinião sobre este assunto, nem mesmo as pessoas que trabalham nestes mercados.

“Nunca quiseste saber onde fica a Macedónia, o que é uma falta de respeito para com as minhas origens, porque um bisavô meu esteve lá.”
Parecida com a anterior: dá para usar com toda a gente, porque ninguém sabe onde fica a Macedónia.

“Vou alistar-me no exército. Quero dedicar-me só ao meu país.”
Esta mentira durará pouco tempo, porque poderás ser encontrado regularmente nos mesmos locais que frequentavas. Nesse caso, tens que dar a entender que estás numa missão ultra-secreta. Mas sem o dizeres directamente. Senão, a missão torna-se menos secreta e a tua desculpa menos credível.

“Tenho material radioactivo no braço, em resultado de uma cirurgia mal feita. Ao fim de alguns meses em contacto comigo, podes ter problemas.”
Convém usar com uma pessoa não perceba nada de radioactividade, mas que seja capaz de intuir que é uma coisa perigosa.

“Falo a dormir. Falo muito. Digo ‘Os Lusíadas’ de uma ponta a outra.”
Esta desculpa tem uma grande desvantagem: só pode ser usada com alguém com quem ainda não tenhas dormido. Mas nem tudo é mau: vais parecer muito culto/a.

“Nasceste em Fevereiro. Não posso confiar em alguém que nasceu num mês que nem trinta dias tem”.
Não sei se resulta, mas dá para quando estiveres sem ideias.

Se tiveres alguma intenção, ainda que reduzida, de não excluir um futuro envolvimento com a pessoa com quem vais acabar a relação, não uses nenhuma desculpa deste género: poderá afectar a tua credibilidade.

Agora vou terminar o texto. O problema não é o leitor, sou eu. Preciso do meu espaço.

domingo, 6 de setembro de 2015

E se o multibanco falasse?

O multibanco fez trinta anos, esta semana, e as televisões deram grande destaque. Eu faço trinta e um, brevemente. Quero ver se as televisões se vão lembrar. Tudo bem, eu não permito levantar dinheiro em qualquer lugar. Mas se um amigo me pedir vinte euros emprestados, nem é preciso código. E sou bom rapaz, o que já deveria ser digno de nota.

(Sean MacEntee/Flickr)

Talvez seja altura de repensarmos o multibanco. O boneco não deve ser mudado, em circunstância alguma: a máquina sem aquele boneco não será a mesma coisa. Será como a “Prova Oral” sem o Fernando Alvim, o “Preço Certo” sem o Fernando Mendes, ou a TVI sem os casacos do Goucha e os berros da Cristina Ferreira.

Bom, fiquemos apenas pelos exemplos da “Prova Oral” e do “Preço Certo”.

Uma das grandes inovações que poderiam (e deveriam) ser implementadas seria a capacidade da máquina nos tentar demover de levantarmos dinheiro quando tivéssemos pouco. Assim que tentássemos realizar a operação, ela perguntaria “Tem a certeza?”. Caso respondêssemos afirmativamente, a máquina continuaria a fazer perguntas e só quando respondêssemos a todas é que poderíamos levantar dinheiro. “Tem mesmo a certeza?”, “Quem foi o inventor do multibanco?”, “Em que ano foi inventada a lâmpada?”, “Quem foi o primeiro Presidente da República da Estónia?”, “Qual é a capital da Macedónia?”, “89+53=?”, “Qual a raiz quadrada de 289?”.

Para além desta capacidade, a máquina poderia ter uma outra, exclusiva do fim-de-semana: se uma pessoa levantasse dinheiro, a máquina diria, no fim: “Agora gasta-o mal gasto…”. Se voltássemos àquela máquina, no mesmo fim-de-semana, a máquina diria: “Andas numa rica vida, andas…”.

Outra grande alteração estaria relacionada com as filas. Quando estivesse muita gente, a máquina contaria anedotas, serviria amendoins e cerveja, de forma a tornar a espera mais agradável. Claro que estes factores iriam distrair a pessoa que estivesse a usar a máquina, tornando a utilização mais demorada, mas ninguém se importaria com isso, uma vez que o importante seria o convívio. O povo já iria ao multibanco só para beber um fino e ouvir duas anedotas. Ao fim de vários finos, as anedotas teriam muito mais piada e o pessoal já levantaria dinheiro para as outras pessoas. Como dizem os bêbados: “Somos amigos ou não somos?”. A economia girava.

Quando alguém estivesse mais do que cinco minutos na máquina, seria activada uma bazuca de notas, que as dispararia como se fossem confetes. Importante: o dinheiro disparado seria, obviamente, da pessoa que estivesse a monopolizar a máquina.

Para as pessoas que até são rápidas na máquina, mas depois ficam a conferir o talão durante vários minutos, impedindo que outra pessoa utilize a máquina, existiria um chuveiro. Com água fria. Esta funcionalidade iria fazer com que, no Verão, os homens recomendassem às miúdas giras que conferissem detalhadamente o talão, várias vezes, antes de abandonarem a máquina. “Nunca se sabe se houve um erro informático, menina. Convém conferir bem. Já agora, pode conferir virada para aquele lado?” Tudo isto em nome do civismo, como é óbvio. Nós não somos esses ordinários que vocês pensam, meninas. Claro que somos.

Nos pagamentos ao Estado, teríamos oportunidade de jogar, na própria máquina, um jogo de boxe, no qual enfrentaríamos o actual ou anteriores primeiros-ministros. O jogo teria uma particularidade: o nosso adversário teria as mãos atadas. Pelo menos, ali, poderíamos derrotar o Estado.

Quando a máquina comesse o cartão, arrotaria. Esta função não teria utilidade nenhuma. Só piada.

Quando alguém tentasse levantar dinheiro sem o ter, ocorreria o seguinte diálogo: “Deves pensar que eu ando a dormir. Vamos fazer um jogo. Eu dou-te o dinheiro, mesmo sem teres saldo, mas tens que adivinhar em que número estou a pensar”.

Quando alguém se esquecesse de retirar o cartão, o dinheiro ou o talão, em vez dos avisos enfadonhos do costume, teríamos avisos como: “Deixa ficar isto aqui, deixa, que o próximo utilizador vai mesmo avisar que te esqueceste”. Quando a máquina estivesse mal disposta, acrescentaria, no fim do aviso: “Estúpido/a!”.

Todas estas funções tornariam mais eficiente e agradável a utilização das máquinas multibanco. Mais estúpida, também.