domingo, 22 de novembro de 2015

Segura a cortina, por favor

Há dias, nos vestiários de uma loja de roupa, deparei-me com uma situação que tem tanto de comum, como de caricata: muitas vezes, enquanto uma pessoa experimenta roupa, há outra, do lado de fora do vestiário, que segura a cortina, com os braços bem esticados, de forma a tapar todos os ângulos e tornar impossível ver para dentro daquele espaço.

(Juan Diez/Flickr)

Acho adequado que alguém faça isto: se levarmos muita roupa para experimentar, podemos sempre usar os braços da pessoa que segura a cortina como cabide.

A pessoa que segura a cortina é sujeita a um tremendo esforço. Sobretudo, quando tem de inventar, em poucos segundos, uma forma subtil de dizer à pessoa que experimenta roupa que aquelas calças são horríveis.

Uma coisa é certa: naquele dia, ninguém olhou para dentro do vestiário. Estava tudo a olhar para o rabo da mulher que segurava na cortina.

Há um vasto conjunto de contextos em que daria imenso jeito uma pessoa que segurasse a cortina, para que ninguém visse nada para o outro lado. Não, não estou a falar de sexo em público.

É óbvio que estou.

Mas não só.

Jantar romântico
O esparregado está óptimo, mas ficaste com um pedaço colado a um dente. Nesse momento, tens um dente verde. A pessoa que te acompanha demora alguns segundos a decidir se te avisa. Acaba por fazê-lo, constrangida. Queres remover o pedaço de esparregado do dente, mas tudo o que fizeres vai ser pouco elegante.

Jantar de família
Está tudo a correr bem, a conversa flui normalmente, o ambiente é amigável. Sentes que podes esticar um bocadinho a corda e dizes uma piada arrojada. Ninguém se ri. O pai da tua namorada está a pensar em seis maneiras de te torturar. Só vais sair dali vivo porque trouxeste a sobremesa. Chamas a pessoa que segura a cortina. O pai da tua namorada pergunta: “Mas quem é esta pessoa, a segurar uma cortina, no meio da nossa sala?”. Dizes que veio trocar os cortinados. Agora é a mãe da tua namorada quem está a pensar em torturar-te. Pensa apenas numa maneira. Mas vai colocá-la em prática.

Bar
Esta para as mulheres. Entras num bar, maravilhosa e confiante. O vestido que usas acompanha cada contorno do teu corpo. Sorris para um conhecido, mas sabes que estás a mostrar a toda a gente como o teu sorriso é bonito. Sabes que todos os homens estão a olhar para ti. Todas as mulheres também, mas é para te encontrar um defeito. O salto fica preso em qualquer sítio, desequilibras-te, cais. Não te magoas, mas dás espectáculo. Passaste da Marylin Monroe para o Pateta, em trinta segundos. Há risos. Precisas de sair dali rapidamente.

Reunião de trabalho
Estás a fazer uma apresentação. Está a ser um sucesso. A meio, há um vídeo. Mas alguém sabotou a tua apresentação. O vídeo que é mostrado foi gravado num bar de karaoke, no qual cantaste, bêbado, o tema “Taras e Manias”. Perdes o dia. Mas ganhas uma alcunha: “Marco Paulo”.

Encontro imediato
Vês, ao longe, aquele teu conhecido que é chato, que te vai perguntar pela “vidinha”, que te vai contar duas ou três coisas que são aborrecidas, tristes ou ambas. Com sorte, ainda te vai contar (outra vez) aquela anedota espectacular em que um gajo entra num bar. Não tens a tua caçadeira por perto. É, pois, um trabalho para a pessoa que segura a cortina.

Aula
Estás numa aula, num momento em que toda a gente está a falar. De repente, é como se o Universo conspirasse contra ti e todas as pessoas se calam ao mesmo tempo. Quando o fazem, ouve-se perfeitamente tu a dizeres “mamas”. Há um segundo de silêncio e vários de riso. Precisas de te esconder.

Gases
Soltas um gás intestinal num elevador. Por acaso, o teu vizinho entra dois andares depois. Cheira mal. Só podes ter sido tu. Chamas uma pessoa que segura a cortina. Ela entra no elevador, atira a cortina para cima de ti e foge. Não aguenta o cheiro.

Safari
Sais do jipe, para tirar algumas fotografias. Ficas rodeado/a de leões. Chamas a pessoa que segura a cortina. Percebes que é estúpido: primeiro, vai a pessoa, depois vais tu.

Loja de roupa
Entras num vestiário de uma loja de roupa. A cortina não fecha totalmente. Espera, esta utilização já foi inventada.

Achas que este texto foi uma perda de tempo. Chamas uma pessoa que segura a cortina. Ela tapa o ecrã, mas espreita para o texto. Chega à parte do elevador e percebe que tem que mudar de profissão.

domingo, 15 de novembro de 2015

Este texto não engorda

Os últimos tempos têm sido duros, para quem gosta de comer. Há cada vez mais alimentos conhecidos como prejudiciais para a saúde. E, como sempre, os que sabem melhor parecem ser os que fazem pior.

(Karen McAllister/Flickr)

O nosso fumeiro foi associado a malefícios para a saúde. Isto entristece-me particularmente, porque o fumeiro é uma criação com um nível de brilhantismo que rivaliza com o da criação da roda. Até a supera, porque uma roda não tem qualquer utilidade na confecção de um bom cozido à portuguesa. Num bom cozido, a única roda que interessa é o prato.

Quem inventou o fumeiro desenvolveu uma forma notável de conservar a carne. Só não conseguiu garantir que essa técnica resultasse com os seres humanos. O que é uma pena, se pensarmos que a Sara Sampaio, um dia, vai ser velhota.

É tão perigoso comer uma alheira como fumar um cigarro. Pior para a saúde, só mesmo nadar ensanguentado numa área repleta de tubarões (isto porque as alheiras não mordem).

Uma vez, um senhor comeu uma alheira e morreu logo a seguir. Mas ninguém o mandou meter-se com a mulher do vizinho, que quando descobriu, lhe deu um balázio.

Eu sempre desconfiei do fumeiro. Mas isso é porque não consigo confiar num alimento que é impossível comer pouco. Ninguém come só uma rodela de chouriço.

Mas também acho que há algum exagero quando o pessoal diz que não consegue resistir ao fumeiro. Eu resisto bem. Para quem tiver um jantar que envolva enchidos, é fácil resistir: basta tomar um sedativo. Dorme-se doze horas e, entretanto, o pessoal comeu tudo.

O açúcar, pelos vistos, faz muito pior do que imaginávamos. Cria dependência e tudo. O açúcar, no fundo, é um pó branco que faz mal e causa dependência. Por outras palavras, os gajos que inventaram a cocaína não foram assim tão originais.

Vou falar de universos paralelos. Não porque esse tema se relacione com o anterior, mas porque sinto que este blogue deve caminhar no sentido de um melhor serviço público. Nesse sentido ou no de acabar, ainda não sei bem.

Mas voltando aos universos paralelos: há quem defenda que existam. E eu espero que existam. Porque quero acreditar que, algures noutra dimensão, exista um universo onde alguns dos seguintes raciocínios sejam válidos.

Comer hidratos de carbono em excesso previne a obesidade
Enfardar arroz, massa, pão e outras fontes de hidratos de carbono permite acumular tanta energia que o corpo, para ter algo com que se entreter, queima gordura mesmo quando está em repouso.

Comer batatas fritas reduz o risco de colesterol
As batatas contêm uma substância que, entrando na corrente sanguínea, limpa a gordura toda. Se sobrar tempo, ainda limpa o fígado. Esta substância está para as paredes das artérias, e para o organismo em geral, como os banqueiros estão para a banca: onde tocam, limpam tudo.

Comer papas de sarrabulho em excesso torna o nosso estômago mais eficiente
A digestão deste alimento rico em carnes diversas, pão, tripa enfarinhada e rojões é uma espécie de ginásio para o estômago, deixando-o mais resistente e mais eficaz na digestão. Comer papas uma vez por semana torna uma pessoa capaz de digerir granito.

Comer chocolate previne a diabetes
O organismo fica tão eufórico que o metabolismo acelera tanto como aquelas pessoas que esticam muito a primeira mudança, nos carros. Ou seja, o metabolismo queima o açúcar todo. Logo, mais chocolate no organismo, menos açúcar no sangue.

Beber álcool previne as doenças infecto-contagiosas
Alguma bactéria sobrevive a vinho maduro em excesso? Bom, pode sobreviver, mas a ressaca vai ser tão grande que ela vai pôr-se andar, para não vomitar só com o cheiro a vinho.

Tomar 16 cafés por dia previne uma série de doenças
A tensão arterial baixa, porque o estado de híper-cafeína induz-nos a um estado de pré-hipnose. Qualquer doença infecto-contagiosa também será eficazmente combatida, porque até as bactérias precisam de dormir. Ninguém dorme com 16 cafés.

Por enquanto, no nosso universo, caminhamos para o dia em que quem não comer apenas sopa de nabos será nabo.

Peço desculpa pelo fim abrupto deste texto, mas estou a ressacar por comer qualquer coisa.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Desportistas: os clássicos e os modernos

Hoje em dia, ao entrarmos num ginásio, temos a sensação de estarmos nos Jogos Olímpicos. A julgar pela qualidade da roupa, os desportistas que encontramos no ginásio parecem ser de alta competição. Depois, olhamos para o desempenho de muitos deles e sentimos que estamos numa aula de hidroginástica. Sem água.

(Maurizio Mori/Flickr) 

Mesmo assim, ainda se encontram desportistas clássicos. Por desportista clássico, entenda-se um gajo com uma t-shirt extraordinariamente desbotada, rasgada debaixo dos braços. Na frente, uma inscrição de respeito: “II Encontro do Porco no Espeto de Burgeses”. Uma espécie de medalha em forma de nome de um evento. Uma mancha de vinho, quase imperceptível, anuncia-se junto da inscrição. É uma t-shirt de guerra.

Os calções ostentam o emblema do Atlético de Burgeses e o número 9, o que deixa antever estarmos na presença de uma avançado temível. Mesmo com uma ligeira barriga, é menino para marcar uns 20 golos por época. Isso ou enfardar um cozido sem pedir ajuda a ninguém.

As sapatilhas são brancas, um clássico, tão gastas que a única zona com algum relevo é a dos cordões.

O relógio é uma relíquia, do tempo em que dizer “100m water resistant” era uma mais-valia (hoje, os relógios até respiram debaixo de água).

Do outro lado, temos o desportista moderno. A t-shirt é invariavelmente justa e sem mangas. Adidas ou Nike, de preferência. Até os gordos usam t-shirt justa. Um gordo de roupa desportiva é um gordo a caminho de deixar de o ser, pelo que a barriga, ainda que se note bastante, parece que nem se nota.

Os calções são de licra, tão justos que só há uma maneira de os vestir: deixar os testículos no cacifo.

Na maior parte dos casos, as sapatilhas são fluorescentes. Parecem ter resultado do cruzamento de uma laranja com um limão (arraçado de lima).

O relógio está ligado às sapatilhas, que estão ligadas a uma fita que é usada no tórax, para medir as pulsações, fita essa que está ligada ao telemóvel, que está ligado a um satélite, que está ligado a outro satélite, que está ligado ao telemóvel da amiga com quem o desportista moderno está a falar, pelo Facebook Messenger. Ou seja: um gajo corre com outra pessoa, mas sem ser a que está na passadeira do lado (até porque o gajo da passadeira do lado tem uma t-shirt estranha, que fala de um encontro qualquer de porco no espeto).

O desportista moderno consegue sempre cumprir o que planeou fazer no ginásio. Depois, pousa o telemóvel e faz algum exercício físico.

O desportista clássico faz flexões e agachamentos. O desportista moderno faz “push ups” e “squats”. Os nossos músculos sabem a diferença entre uma flexão e um “push up”, entre um agachamento e um “squat”, respondendo de maneira diferente. Por isso é que o treino dos desportistas modernos rende mais.

No fim, o banho também é diferente. O desportista clássico toma banho, veste-se e vai embora. O desportista moderno bebe uma mistela qualquer, no fim do treino, que parece Nestum, mas com pouco Nestum, faz a barba e a depilação, toma banho, põe creme, seca o cabelo, põe cera no cabelo, tira a roupa que vai vestir de dentro de um plástico (tipo aqueles da lavandaria), põe perfume e está pronto. Resultado: uma hora e quinze minutos de treino, uma hora e quarenta e cinco minutos de banho.

Os desportistas clássicos estão em vias de extinção. De cada vez que um espécime deste grupo compra uma t-shirt justa e sem mangas, a espécie fica mais perto do fim. E os encontros de porco no espeto perdem um adepto.

domingo, 1 de novembro de 2015

Ases do volante

Há quem conduza e quem faça competições na estrada. É bem diferente. Muito do que fazemos, a conduzir, define-nos, enquanto seres mais ou menos pensantes, mais ou menos aptos para sermos possuidores de título de condução. A carta de condução chama-se “carta” porque muitos parecem tê-la obtido por correspondência.
(Chris/Flickr)
Ao fim de alguns quilómetros, já todos encontrámos algumas destas personagens do asfalto.

Velocidade Furiosa
Ultrapassam até numa garagem. Para estes condutores, a linha contínua é arte urbana, é um risco no chão, nada mais do que isso. Duas rodas chegam perfeitamente para curvar. E assim até se dá espectáculo. Para eles, passar no verde é para fracos, no amarelo é fixe, no vermelho é a loucura. A inversão de marcha faz-se com um pião. Arriscam a vida deles e dos outros por uma ultrapassagem. Por dois segundos de vantagem. Conduzem sempre pela esquerda. Mesmo quando não há faixa da esquerda. O problema deles é matemático: dois segundos de vantagem podem chegar para ganhar o Mundial de Fórmula 1, mas neste desporto não há carros em sentido contrário, na outra faixa. Em muitos casos, depois de nos ultrapassarem, encontramo-los parados no semáforo seguinte. Nunca olham para o lado. São inconscientes, mas conseguem perceber quando acabaram de ultrapassar a linha contínua da estupidez. Vivem como se fossem constantemente perseguidos por espiões inimigos. Nem que partilhem a estrada apenas com um velhinho num carro eléctrico (cuidado com os velhinhos nos carros eléctricos: não que eles conduzam depressa, mas às vezes não dão pisca).

GPS
Sabem sempre o melhor caminho. Não, não sabem. O truque, muitas vezes, está na argumentação, mais do que na sabedoria. “Este caminho é mais curto”; “Não é mais curto, mas tem menos trânsito”; “Não tem menos trânsito, mas não há semáforos”; “Por aqui, o piso gasta menos os pneus”; “Por aqui, é a descer, poupas gasolina”; “Por aqui é mais bonito”; “Por aqui, passamos naquela pastelaria que tem uns pastéis de nata muito bons”; “Por aqui, entras num portal para outra dimensão”; “Por aqui, vamos por aqui. É o único caminho em que essa condição se verifica”. Se um destes condutores fosse a Marte, acabariam por expulsá-lo da nave, por ele querer corrigir permanentemente a trajectória.

Coruja
Estes condutores são particularmente irritantes, porque conduzem muito lentamente, enquanto olham para todo o lado. Por vezes, a cabeça deles dá uma volta de 360º, tornando-os estranhamente parecidos com corujas.

Tartaruga
Só ultrapassam os 25 km/h em casos de emergência. Aí, perdem a cabeça e chegam a atingir uns impensáveis 50 km/h. A direcção, a suspensão e os pneus destes condutores praticamente não sofrem desgaste. Até a dentição é impecável. A não ser que abram o vidro e mandem umas bocas a um condutor “Velocidade Furiosa”. Aí perdem um retrovisor e dois dentes da frente.

Tartaruga Ninja
São iguais aos anteriores, excepto se alguém os ultrapassar, enquanto olha para eles com ar de gozo, ou se acelerar num semáforo, indiciando que vai arrancar com força. Aí, os condutores “Tartaruga Ninja” passam do estado “Tartaruga” ao “Velocidade Furiosa”, mais depressa do que passam dos 0 aos 100 km/h.

Houdini
Conseguem estacionar um jipe numa banheira. Em três manobras. Sem sensores e sem espelho de um dos lados.

Velho do Restelo
São o inverso dos “Houdini”. Podem ter um campo de futebol para estacionar, que acabam sempre por achar que não cabe. Costumam ser magros, uma vez que estacionam sempre muito longe e fazem, por isso, longas caminhadas.

Alexandre, o Grande
O Mundo é o parque de estacionamento deles. Nem que seja em terceira fila, há sempre lugar à porta.

Cristóvão Colombo
Nunca sabem o caminho, mas chegam sempre aonde querem. Nem que queiram ir à Índia e acabem na América. Estes condutores beneficiam do facto de a Terra ser redonda. Se fosse plana, acabariam por cair numa das extremidades. Se fossem tão bons a adivinhar números, como são a adivinhar caminhos, o Euromilhões teria os dias contados.

D. Sebastião
Demoram seis meses a memorizar o caminho para o trabalho. Alguns, na primeira vez em que saem da cidade, perdem-se. Para sempre.

O que é aquilo?
Nunca olham para os sinais de trânsito. Geralmente, passam a olhar quando um “Stop” corre mal.

Luzes, só no pinheiro
Pisca? LOL.