terça-feira, 12 de abril de 2016

Teoria dos panados infinitos

Às vezes, escrevemos textos sem nenhum tipo de conteúdo relevante e que são meros exercícios para passar o tempo. Isto só não acontece a Miguel Sousa Tavares, que até quando envia uma SMS a avisar alguém de que vai chegar atrasado exprime pensamentos relevantíssimos para a nossa vida em sociedade. Mas o Universo só admite uma vaga para Miguel Sousa Tavares. E está preenchida.

Outras vezes, escrevemos textos que nos irão definir, para o resto da nossa existência. Este é um desses textos. Numa primeira análise, poderá parecer um texto irrelevante. Numa segunda, também, mas a verdade é que este texto é mesmo importante. Para que não digam que as homenagens só são feitas depois do seu alvo ter desaparecido, vou fazer uma sentida e mais do que merecida homenagem, enquanto eles ainda estão cá.

Falo dos panados.

(http://aosdomingosnacozinha.com)

O panado é uma instituição como há poucas, na nossa sociedade. Este petisco tem implicações sociais, matemáticas, filosóficas e até místicas na nossa existência. Serve este texto para explicitar algumas dessas implicações.

Comecemos pela parte matemática: não que seja impossível, mas é altamente improvável que alguém coma só um panado. Primeiro, porque sabe sempre bem comer mais um panado. Segundo, porque sabe sempre bem comer mais dois panados. E por aí fora. A maioria de nós está condenada a ter, com os panados, a mesma relação que a banca portuguesa tem com os processos de recapitalização com dinheiro público: “só mais um, amanhã ganho juízo”.

Já a questão filosófica dos panados remete-nos para o paradoxo de Zenão. Segundo este filósofo grego da Antiguidade, o que se move alcança sempre o seu ponto médio, antes de atingir o ponto final. Mas também atinge sempre um outro ponto médio, antes de atingir o ponto médio referido anteriormente. E assim sucessivamente. Zenão queria, com isto, dizer que o que se move nunca chegará ao ponto final, porque o espaço que tem para percorrer pode, sempre, ser dividido por dois. No fundo, o infinitamente pequeno parece ser infinitamente grande.

O mesmo acontece com os panados: podes sempre dividir um panado em dois. Ou em vários. Um panado é infinitos panados. Pelo que, comer infinitos panados é infinitamente mais fácil do que comer um só panado. E ainda que tenhas enfardado seis panados, o sétimo pode ser facilmente dividido em dois. Ou em infinitos. O importante a reter é isto: cabe sempre mais um panado no estômago.

Outro aspecto que, no meu entender, importa relevar dos panados é a semelhança que o ciclo de existência de um panado tem com o ciclo de vida do ser humano. Quando é acabado de fritar, o panado está cheio de força, como um ser humano na sua juventude. Mas o excesso de panados quentes pode provocar enjoo. No fundo, como aturar, em demasia, seres humanos jovens.

O verdadeiro encanto do panado surge algumas horas depois da fritura. O mesmo acontece com os seres humanos: depois dos 30 anos, o ser humano é uma espécie de panado da refeição anterior, já sem a mesma vitalidade, mas com um paladar muito mais apurado. E menos enjoativo. Com a tirania do passar do tempo, o panado vai-se degradando. Os seres humanos também.

Há mesmo quem acredite, e este é o lado mais místico do panado, que existe uma espécie de “Fada dos Panados”, que aparece durante a noite e melhora os panados. Esta entidade é uma espécie de Fada dos Dentinhos, mas muito mais útil. Se os Maias tivessem panados, certamente fariam enormes festas, com sacrifícios humanos e tudo, em honra da Fada dos Panados.

Não há uma boa festa sem panados. Um lanche comemorativo de qualquer coisa, um piquenique, uma excursão à praia, promovida pela Junta de Freguesia, ou uma ida à Final da Taça de Portugal, sem panados, são como um concerto da Adele sem sexo, drogas e rock’n’roll. Calma: enquanto escrevo, dizem-me que os concertos da Adele não têm sexo, drogas e rock’n’roll. Então, o que é que o pessoal vai lá fazer?

Voltando à vertente social do panado, afirmo que a Assembleia-Geral das Nações Unidas até é fixe, mas contraponho que onde acho que existiria uma verdadeira sintonia entre seres humanos de diversas proveniências seria numa mesa gigante, em que os representantes de diversos países colocassem os seus tupperwares e partilhassem os panados. O panado induz o sentimento de festa e de concórdia. Um tupperware cheio de panados do dia anterior poderia ter resolvido vários conflitos históricos. E alguns menos históricos, como daquela vez em que o Sr. Horácio andou à chapada com o Sr. Alípio por causa de um muro e uns terrenos.


No fundo, o panado une os seres humanos. Com esta imagem bonita, terna, “colesterólica”, remato esta homenagem ao panado. Com um lamento apenas: ao contrário do que acontece com os panados, este texto nunca melhorará com o tempo.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Preferes cães ou gatos?

Às vezes, as pessoas perguntam se somos “dog persons” ou “cat persons”, que é o mesmo que perguntar se preferimos cães ou gatos. A verdade é que, podendo gostar dos dois, tendemos sempre mais para um dos lados. O Scooby-Doo e o Garfield são muito diferentes.



A Pantera Côr-de-Rosa, por seu lado, é diferente de tudo, não só, por causa da cor pouco usual, mas também por se parecer com um cão. Mas sobre a Pantera Côr-de-Rosa dissertarei em tempo oportuno.

Os cães são muito emocionais. A vida deles é um carrossel que, calculo eu, será extremamente cansativo. Os cães vivem tudo no limite. E sem recorrerem a aditivos. Com excepção do Piruças, do sr. Horácio, que, uma vez, lhe apanhou o saco do café e roeu aqueles grãos todos. Passou três dias atrás da cauda.

O cão vive no limite. Sais de casa para ir comprar pão, regressas cinco minutos depois. O cão faz-te tanta festa como se tivesses passado dois anos na guerra. Passas um fim-de-semana fora. Regressas e o cão faz-te tanta festa como se tivesses sido dado como morto, na guerra.

Os cães falam, mas com os olhos. Experimenta comer com um cão a olhar para ti. Ele faz olhos de quem diz: “Não, fica aí, com a tua comidinha. Que te saiba bem. Nem me dás um bocadinho. Era só um bocadinho. Achas que te ia fazer falta? Achas que me ia fazer mal? Era só um bocad…”. Dás-lhe um bocadinho. O cão está tão desejoso de provar o que estás a comer que até te morde os dedos, quando lhe dás um pedaço. Com a gula, ele quase nem mastiga o que lhe deste. Tu pensas que o cão ficou contente. Estás enganado. Ele vai recomeçar o processo, para que lhe dês mais. Alguns, se forem ignorados, usam a bomba atómica da pedinchice: começam a babar-se. Ininterruptamente.

Os cães adoram partilhar o sofá com os donos. Começam por saltar para o sofá, depois, dão quinze voltas, até o sofá ficar com uma covinha na qual o corpo deles assente perfeitamente. Finalmente, deitam-se com um olhar meigo, como quem diz “Eu vou ficar neste cantinho, sem te incomodar”. Passado dez minutos, não tens sítio para estar. O cão foi-se encostando, encostando, até te roubar todo o espaço. Para além deste problema, tens outro: tenta pegar num cão, ou simplesmente desviá-lo, enquanto ele dorme. Parece um penedo. Das duas, uma: ou o corpo do cão tem um sistema qualquer de peso morto que multiplica o seu peso real por 246, ou tem ventosas, como os polvos. Uma vez que ele tenha colonizado o teu espaço no sofá, resta-te ir para a cama.

O momento alto é a ida à rua. Se, por azar, pegares na trela sem ser com o intuito de levar o cão à rua, mas ele estiver a ver, vais ter que o levar. Isto porque o cão vai começar a saltar e a correr, histérico, vai deixar tapetes e sofás fora do sítio, vai correr à tua volta como se fosses uma presa e ele um predador, vai rebolar e só não vai cantar o hino porque nem sabe nem cantar, nem sabe o hino. Qualquer cão reage de forma histérica à trela. Tirando o Piruças, do sr. Horácio, que uma vez roeu um frasco de comprimidos para dormir e acabou por comer alguns. Esteve três dias sem ligar à trela. Depois, acordou.

Os gatos, por seu lado, serão sempre algo selvagens. Podes mimar o teu gato, dar-lhe comida a horas e respeitar o espaço deles. Arranjas um pássaro e ele vai matar o teu pássaro. Pode ficar dias ou semanas a admirar a gaiola. Um dia, vai matá-lo. E nem é para comer. É porque a existência de outros seres vivos irrita o gato. Seja um pássaro, uma mosca ou o Piruças, do sr. Horácio, que quando vê um gato desata a correr atrás dele.

Os gatos, como é sabido (embora ainda não demonstrado pela Ciência), conseguem dobrar o eixo espácio-temporal, bem como contornar as ondas da gravidade. E todas estas capacidades servem para um fim. Caçar? Não. Viajar no tempo? Não. Levitar? Não. Todas estas capacidades servem para que o gato caiba dentro de uma caixa de sapatos. Um gato até pode viver numa herdade, mas, no fim do dia, ele vai querer dormir naquela caixa na qual não cabe deste que tinha seis meses. Na ausência de uma boa caixinha, serve uma gaveta. Ou um saco.

Ao contrário do que se diz, os gatos também festejam o regresso do dono a casa. Mas, como são muito complexos, dividem este regresso em dois tipos: sem sacas de compras ou com sacas de compras. No primeiro caso, o gato aparece, roça-se nas pernas do dono, como se dissesse: “E quê? Tá tudo? Dormi a tarde toda. Arranja aí qualquer coisa para comer, antes que eu volte a dormir”. Quando o dono regressa a casa com sacas, a reacção é diferente. “E quê? Tá tudo? Eeeeeeh, sacas! O que me trouxeste? Deixa-me meter a cabeça em todas as sacas. Só para ver. Hum, nada de especial. Agora arranja aí qualquer coisa para comer, antes que eu volte a dormir…”

Os gatos dividem os sons também em dois tipos. Sons insignificantes, como a voz do dono, o som de uma porta a abrir ou de uma explosão nuclear, não perturbam o sono. Os sons que verdadeiramente importam são os sons quase imperceptíveis. O papel que caiu ao chão e saltitou duas vezes, aquela mosca que voou até à janela e lá pousou ou a aranha a fazer uma teia, são motivos para o gato estar em alerta máximo.

A expressão máxima de satisfação do gato é o ronronar. Também neste aspecto, o gato é mais higiénico que o cão: o cão só sabe expressar satisfação tentando lamber as pessoas. O gato, por seu lado, produz um som propício à meditação. Devia haver uma estação de rádio que emitisse 24 horas por dia o ronronar de um gato. Muito do stress das sociedades modernas seria, assim, dissipado.

A delicadeza é outra das características deste felino doméstico. Se o teu gato resolver dormir um soninho no meio daquelas louças que estão na tua família desde o séc. XV e que davam para pagar a dívida externa de Portugal, deixa-o estar. Ele não vai deitar nada ao chão. Nem deves, em momento algum, fazer algum movimento brusco no sentido de tirar de lá o gato. Não que ele vá fugir e deitar tudo ao chão. É só porque não se deve assustar um animal.


Sendo tão diferentes, cães e gatos caminham para destinos opostos. Uma vez terminado o seu estudo sobre as espécies do planeta, os gatos irão embarcar de volta para o planeta de onde saíram. Os cães permanecerão, até ao fim dos tempos, à espera que os donos regressem a casa e peguem na trela.