quinta-feira, 30 de junho de 2016

Facebook: avisos muito sérios

Estão novamente na moda os avisos legais no Facebook. Refiro-mo àqueles textos que as pessoas copiam e colam nos seus murais, avisando que, a partir do dia “x”, ninguém pode aceder indevidamente aos seus conteúdos nem copiá-los. Estes avisos vão surgindo, de longe a longe, e quando aparecem tornam-se quase virais. São como a gripe: sazonais e contagiosos. E aborrecidos.

Eu acho lindo, fofo, quase poético, que as pessoas acreditem que um texto publicado num mural possa impedir que alguém aceda à informação colocada online. Esta ideia de um texto fazer lei pode ser pretexto para criarmos uma linha de t-shirts a dizer “Declaro que sou o primeiro a ser atendido” ou “Declaro que aquele lugar de estacionamento é meu”.

(Theen Moy/Flickr)

No Facebook, as pessoas mostram tudo: a namorada, o namorado, a família e os amigos, o cão, o gato e o piriquito. Mostram o piriquito do piriquito. Este último exemplo parece ordinário. Mostram os passeios e as férias, as borbulhas (nas fotografias em grande plano), a semi-nudez (nas fotografias na praia), a barriga e aquele dente chumbado (mesmo assim, um sorriso fica sempre bem).

Apesar de mostrarem isto tudo, a privacidade é assunto sério! Expor-se no Facebook e querer privacidade é a mesma coisa que ter consulta com o nutricionista numa barraca do Festival da Francesinha.

Uma vez que me preocupo com a gestão que os meus leitores fazem das redes sociais, proponho o próximo aviso legal a colocar no Facebook.

“A partir do dia ‘x’, o Facebook vai mudar a sua política de privacidade, deixando toda a informação publicada nesta rede social à mercê de pessoas coscuvilheiras sem escrúpulos. Sim, porque há pessoas coscuvilheiras com escrúpulos, que são aquelas que coscuvilham mas arranjam sempre uma excelente justificação para isso. Eu não autorizo que, a partir do dia ‘x’, as pessoas visitem o meu perfil sem consulta prévia do meu advogado e sem o pagamento de uma caução de 2376€ (valor que será acrescido de IVA). Esta caução será retida por mim caso algum comentário depreciativo/constrangedor seja feito a uma publicação minha. Para além disso, eu não autorizo que me identifiquem em publicações que publicitem a inauguração de bares, a ocorrência de festividades diversas ou de encontros gastronómicos. Por cada publicação que diga que este mês terá cinco Sextas, cinco Sábados e cinco Domingos, e que isso não acontece há 800 anos, eu peço uma indemnização por publicidade enganosa, uma vez que isso é tão banal que acontece em qualquer mês de 31 dias em que o dia 1 calhe à Sexta-feira. É tão verdade que isso acontece já neste mês de Julho. Acrescento que processarei, ao abrigo do artigo 5.º do Código dos Avisos Legais no Facebook, qualquer pessoa que partilhe vídeos cujo título comece por “Você não vai acreditar no que..”, porque isso não são vídeos, são vírus. Declaro, também, que quem partilhar publicações supostamente noticiosas, de sites que não são de nenhum entidade que exerça jornalismo, será punido com a obrigação de me comprar o jornal, todos os dias, durante um ano. Devido à nova política de produtividade do Facebook, dedicada às pessoas que consultam esta rede social no trabalho, todos os que publicarem fotografias na praia, irritando, dessa forma, quem está a trabalhar, serão obrigados a contar todos os grãos de areia da referida praia, até voltarem a poder publicar no Facebook. Eu denunciarei quem publicar fotografias na praia, de maneira a fazer respeitar esta nova norma. Ao mesmo tempo, exigirei junto do Facebook que quem fizer publicações de ódio seja obrigado a cantar, vestido de Winnie the Pooh, o tema “Imagine”, do John Lennon, num estádio de futebol cheio. Sem mais a acrescentar, termino declarando que o meu mural será, a partir do dia ‘x’, um espaço totalmente privado, o qual eu acredito ter perfeitamente controlado, com a publicação de um simples texto sem qualquer valor legal, mas ao qual muitos dos membros da minha rede terão acesso. Como sempre tiveram e como sempre terão.”

Com isto, espero ter ajudado. E gostava que se criasse uma corrente de partilha deste texto. Mesmo que não tenha valor legal, pode ajudar a tornar o Facebook um lugar mais aconselhável. Para a referida partilha, proponho a “hashtag” #avisoquaselegal.