terça-feira, 27 de setembro de 2016

Teremos "apps" de conversação suficientes?

A Google vai lançar o “Allo”, uma aplicação móvel de mensagens. E isso é espectacular! É que um sistema de mapas detalhados de todo o Mundo, que nos permite chegar a qualquer lado, é coisa pouca. Um carro que anda sozinho é uma invenção perfeitamente banal, qualquer chafarica inventa coisas dessas. Um sistema para levar Internet grátis a todo o lado é coisa para se fazer em qualquer loja de reparações de electrodomésticos.

Agora, uma aplicação móvel de mensagens é algo que apenas uma empresa capaz de mudar o Mundo pode fazer. É que nunca ninguém tinha pensado em fazer aplicações que permitam que as pessoas comuniquem. Pronto, há o Messenger. Mas não há mais nada. OK, há o WhatsApp. E o Skype. E o Viber. Mas nada mais. Tudo bem, há o FaceTime. E o Hangouts. Mas são poucos. E há o Kik, também. E o Yahoo Messenger. E o We Chat. Mas o Allo vem mudar tudo. Porque… permite… mandar mensagens! Isso, sim, é completamente inovador!

(David Stanley/Flickr)

Mais uns meses e teremos mais aplicações de conversação instaladas no telemóvel do que pessoas com quem comunicar. No médio prazo, teremos que ter mais do que um telemóvel, para podermos ter memória RAM suficiente para termos tudo instalado.

- Liguei-te no FaceTime?

- A sério? É que eu estava a ligar-te no WhatsApp.

- E eu a pensar que não tinhas atendido porque estavas no Skype.

- Nabo, eu tinha-te avisado no Messenger que não ia estar no Skype.

Convidar uma mulher para uma conversação pode tornar-se arriscado.

- Alinhas num Hangout?

- Alinho num quê? Pensas que eu sou dessas? Seu ordinário!

Um dia, teremos que ter um pequeno robô para trabalhar como “assistente pessoal para a área das aplicações de conversação”.

- Tens duas chamadas não atendidas e oito mensagens por ler. Uma das chamadas é da tua avó.

- Não tenho nenhum chamada.

- Ligou pelo Skype.

- A minha avó tem Skype?!

- Parece que aprendeu num fórum no Tapatalk.

- A minha avó tem Tapatalk?

- Diz que se cansou de falar, à janela, com a vizinha do lado.
Apesar de haver múltiplas plataformas para falar com as pessoas, há um lado perigoso: começam a ser tantas que não sabemos como encontrar alguém. Podemos estar em seis plataformas, mas a pessoa com quem queremos falar encontra-se numa sétima. O Allo, por exemplo. Quando criamos uma conta no Allo, essa pessoa cansa-se e regressa ao WhatsApp. Que entretanto tínhamos deixado.

O número de aplicações de conversação usadas poderá conferir algum estatuto social. Imagina o nível que teria o Manel, a ligar ao Silva, através do Messenger. E depois através do WhatsApp. E do Viber. E depois a não conseguir ligar pelo Skype, por suposta falta de rede. O que seria estranho, uma vez que o Silva não tinha falta de rede. E estava sentado na mesma mesa.

Pode tornar-se mais difícil encontrar a aplicação certa para falar com uma pessoa do que encontrar uma maneira sensata de dizer ao vizinho do lado que tocámos à campainha dele às cinco da manhã porque não estávamos a conseguir abrir a porta, com a bebedeira. Sobretudo se o nosso vizinho não tiver e-mail.

Imagina um homem que tenta arranjar forma de falar com uma mulher que lhe foi apresentada há dias.

- Eh pá, se tivesse o Facebook dela. Ou o WhatsApp. Quem me dera ter um Hangout com ela. Bastava-me um Skypezinho… Olha, nem que fosse o mIRC!

Perdido nestes pensamentos, o homem acaba por ter uma ideia luminosa, capaz de mudar a sua sorte. No início, ainda duvida. Parece bom de mais para ser verdade. E parece incrivelmente revolucionário. De qualquer forma, decide avançar.

Levanta-se, anda três metros e cumprimenta-a.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Alguns tipos de convidados de casamento

Seja qual for a proveniência dos noivos, um casamento tem sempre alguns tipos de convidados que podemos encontrar em qualquer casamento. Elencar todos os tipos seria impossível, mais difícil do que elencar todas as espécies de pássaros, mas vou tentar apresentar algumas das aves menos raras dos casamentos.

(águahotels/Flickr)
Decadente – Geralmente, homem. Começa o casamento em óptimo estado, mas a primeira gota de álcool vai iniciar uma vertiginosa descida ao fundo do pântano. Vai tentar seduzir todas as convidadas (até aquela tia solteira de 62 anos) e vai acabar a festa a cantar, desafinado e fora de tempo, o tema “Depois de Ti Mais Nada”, para uma das empregadas de mesa.

Sentimental – Geralmente, mulher. Chora quando chega a noiva, quando se trocam alianças, quando um pombo faz cocó no chapéu da tia Esmeralda, quando se tira a fotografia de grupo, quando felicita os noivos pela 6.ª vez, quando se queima com a sopa (perdão, “creme de legumes”) e quando ouve o Decadente a cantar, desafinado e forma de tempo, o tema “Depois de Ti Mais Nada”, pensando que é para si, quando, na verdade, é para uma das empregadas de mesa.

Sobrevivente – Geralmente, homem. Temendo um desastre nuclear ou uma obra na quinta, que o impeça de sair durante três dias, este convidado come 26 rissóis, 34 camarões, 12 panados, uma chamuça (estavam demasiado picantes), 15 croquetes, 19 pedaços de broa com outras tantas rodelas de chouriço, um prato de sopa (perdão, “creme de legumes”), dois pratos de bacalhau, um de tornedó, doces diversos, fruta, não, que faz mal, bolo da noiva, não, que é muito doce, queijos, e depois de ter engordado 3 Kg num dia, acaba a festa a comer bifanas e caldo verde.

Cronista Social – Geralmente, mulher. Critica tudo. O vestido da noiva, o fato do padrinho do noivo, o chapéu da tia Esmeralda, a celulite (?!) daquela convidada muito bonita que está a arrasar corações, a comida, a decoração, a nódoa na camisa do Decadente (neste caso, a crítica até se pode aceitar) e a música. Está ali por obrigação. Festas a sério são em Paris. Sabe-o sem ter ido a nenhuma.

O tio de todos nós – Como o nome indica, é homem. O bigode é opcional. É a estrela entre os convidados. Tem piada, brinca com a família “do lado de lá” (toda a gente sabe que, em alguns casamentos, existe uma barreira invisível entre família/amigos do noivo e família/amigos da noiva; nos casamentos mais à antiga, pessoal dos dois lados até anda à chapada), faz brindes, dança com todas as mulheres (com a noiva, três vezes, e também com aquela velhota que quase deslocou a bacia a dançar kizomba). O tio de todos nós tem participação em tudo. Ou seja, está, para o casamento, como a Isabel dos Santos, para a economia portuguesa.

Mártir – Geralmente, homem. Não chega ao fim da cerimónia, por “cansaço” (na verdade, é por excesso de álcool, mas a desculpa é sempre o cansaço). Se chegar ao fim do casamento, é “ligado à máquina”, num canto qualquer.

Big Ben – Geralmente, a mãe da noiva. Está sempre a stressar. “Temos que ir para a igreja”, “Temos que tirar a fotografia”, “Temos que ir para a quinta”, “Temos que cortar a álcool àquele convidado que está a tirar a camisa”, “Temos que ir para as mesas”, “Tem que vir o bacalhau”, “Temos que dizer àquele convidado que não pode tirar as calças”, “Temos que abrir o bolo da noiva”… Depois do casamento, os noivos vão de lua-de-mel, enquanto que a mãe da noiva vai de férias, porque começou a stressar um mês antes da cerimónia e está exausta.

Trovador – Pode ser homem ou mulher. Canta, de forma épica, os feitos do noivo quando era criança. O falar e o andar cedo, as traquinices, aquele infeliz cocó no sofá, a ida para a escola, as vezes em que os professores fizeram queixa dele, aquela vez em que ele colou à carteira os cadernos de um colega de turma, aquela vez em que ele ficou, injustamente, com as culpas pelo carro do vizinho ter aparecido com os pneus furados… Se o trovador for um amigo do noivo, é melhor não o deixar beber, senão ele vai contar histórias comprometedoras. Caso ele já tenha começado a beber, matá-lo é a única solução.

As Spice Girls – Grupo de amigas histéricas da noiva. Não aguentam a emoção de ver a amiga casar. Ficam tão histéricas que, se pudessem, casavam no dia seguinte. Nem que fosse com um desconhecido.

Os Power Rangers – Grupo de amigos malucos do noivo. Sabem todos os podres do noivo. Sabem o que aconteceu na despedida de solteiro. Estão felizes, mas já estão a pensar em maneiras de tirar o amigo de casa, à Sexta-feira à noite.

Corcundas de Notre-Dame – Homem ou mulher. Trata-se do convidado que não tem educação nem se sabe comportar em sociedade. Fica horrível em roupa de gala. É como se o corpo dele entortasse, para protestar por causa da roupa. A única altura em que a roupa lhe fica bem é quando cai a primeira nódoa.

Feliz – Homem ou mulher. Sempre terminou e sempre terminará os casamentos com a frase “Correu tudo bem”.

sábado, 17 de setembro de 2016

Pessoas que só comem maçã

O que mais admiro na Apple é o facto de ter mudado, várias vezes, a forma como utilizamos a tecnologia. Fizeram-nos com os computadores, fizeram-no com os leitores de música, fizeram-no com os telemóveis e ainda criaram um objecto que, a princípio, parecia ridículo, mas que muita gente usa, nos dias de hoje: o tablet. Também admiro que, à pala da vontade de ter um iPhone, muitos burgessos se tenham tornado burgessos 2.0, com acesso à net e conta de e-mail. Foi como se a Apple tivesse reinventado o fogo e muitos burgessos tivessem saído da caverna para o Facebook.



À custa deste potencial disruptivo, a Apple conseguiu um estatuto que poucas empresas têm: tem uma legião de fãs de tal forma fiéis que, o que quer que se lhes apresente, eles elogiam. Se um verdadeiro fã da Apple tiver que cortar um braço para defender a sua dama, a única preocupação que ele terá será pousar o telefone, para que este não caia ao chão com o braço cortado.

Enquanto que o utilizador comum de telefone (mesmo o utilizador comum de Apple) tem o seu telefone e não quer saber se mais alguém tem um igual, o utilizador fanático da Apple tenta vender um Apple a todos os outros utilizadores, como se fosse um tipo das televendas. Ainda assim, prefiro os tipos das televendas, porque me falam de ficar com abdominais espectaculares e de tupperwares com lâminas que cortam frutos e legumes. O “vendedor” Apple, mais aborrecido, fala-me de hardware e de iOS X.

Na apresentação do iPhone 7, Phil Schiller, vice-presidente para a área do marketing da empresa, anunciou que este era o melhor iPhone alguma vez feito. Isto é, claramente, um golpe de génio, digno de um especialista em marketing, porque toda a gente esperava que uma das empresas mais valiosas do Mundo, depois de um ano de um intensivo processo de investigação e desenvolvimento, apresentasse um produto igual ao do ano anterior, mas com um nome e um aspecto diferente. Nada disso, Phil Schiller causou o espanto ao anunciar que o melhor telefone da Apple era, curiosamente, o mais recente.

O iPhone 7 tem melhor processador, mais memória, melhor ecrã, melhor câmara e um revolucionário programa de lavagem de roupa a 60º. Esperem, há aqui uma característica que não sei se faz parte. Já sei: acho que não tem mais memória.

Eu gostaria de fazer uma espécie de experiência social, que consistiria em fazer um lançamento fictício de um iPhone e testar a reacção dos fanáticos. Seria, mais ou menos, assim.

Apple – “O processador é igual ao do ano passado. Para além disso, tirámos a agenda e a calculadora. O telefone traz um bloco de notas e um ábaco, para quem quiser fazer contas.”
Fanáticos – “É bom, porque nos obriga a racionalizar os recursos de processamento e a desenvolver a memória e o cálculo mental.”

Apple – “O telefone não tem memória. Os utilizadores terão que ter um MacBook para armazenar tudo.”
Fanáticos – “É bom, assim o telefone nunca fica lento. E eu já tinha que comprar um MacBook e já…”

Apple – “O telefone não terá câmara incorporada. Terá seis tipos de câmara, vendidas separadamente, que poderão ser ligadas ao aparelho através da entrada lightning.”
Fanáticos – “É bom, porque quem não gostar de fotografia não tem que andar com câmara no telefone. E quem quiser câmara, também pode escolher uma ao seu gosto.”

Apple – “A navegação na net será mais lenta.”
Fanáticos – “É bom, porque poupas tráfego de dados.”

Apple – “O ecrã terá menos resolução.”
Fanáticos – “É bom, porque assim valorizas mais o conteúdo do vídeo e menos o aspecto.”

Apple – “O telefone só pode ser carregado com o cabo de alimentação que vem de origem, mais nenhum funciona. Não vale a pena pedir um a um amigo que tenha um igual.”
Fanáticos – “É bom, porque assim não corres o risco de ligar um cabo danificado. Só te ajuda a manter o telefone em segurança.”

Apple – “Apesar de ser pior do que o anterior, o telefone vai custar 800 paus.”
Fanáticos – “Justifica, o design é excelente.”

Os fanáticos da Apple são como membros de uma claque de futebol. Só que enquanto o tipo da claque te atira pedras, o fanático da Apple apaga-te da cloud.

domingo, 11 de setembro de 2016

Sabes o que é um "wellness advisor"?

No ginásio que frequento, há funcionários com uma função cujo nome considero bastante interessante: “wellness advisor”. Traduzindo, "conselheiro de bem-estar". Basicamente, a função do “wellness advisor” é contribuir para um maior bem-estar. Da conta bancária do ginásio. Peço desculpa, posso ter-me precipitado. A função do “wellness advisor” é contribuir para um maior bem-estar das pessoas. Das pessoas que contribuem para o bem-estar da conta bancaria do ginásio. Numa empresa sem qualquer tipo de classe, poderia ser um “comercial”. Mas, justiça seja feita ao meu ginásio, a pinta da casa não admite comerciais. Só “wellness advisors”.

(Michael Havens/Flickr)
Dir-me-ão: o teu ginásio é todo moderno. De facto, é, mas não nestas coisas: estou em condições de afirmar que quem introduziu o “wellness advising” em Portugal não foi o meu ginásio. Foi a dona Rosalinda Pedrouços, natural de Godinhaços, que escreveu, em 1952, o livro “Conselhos para o Bem-Estar e Mezinhas Diversas”. Mãe de cinco filhos, avó de doze netos, esta senhora está para o “Wellness Advising” como o Einstein para a Física, Steve Jobs para a electrónica de consumo, ou Gustavo Santos para as cenas da vida, em geral.

Fiquemos com alguns dos conselhos mais emblemáticos desta adorável senhora.

"De finais de Agosto a finais de Maio, leva um casaquinho, se saíres à noite"
"O meu Armando estava sempre doente e nem era por andar pelo meio do milho, com a Joaquina, porque o Manel também andava. Não era com a Joaquina, era com outra moça. Mas levava sempre o casaquinho e nunca estava doente."

"Não andes ao sol sem chapéu"
"Uma vez, o meu marido andou a tarde toda ao sol, no campo, sem chapéu. Ficou tão atarantado das ideias que, a caminho de casa, apalpou a nossa vizinha a pensar que era eu. E nós nem somos parecidas."

"O mar e o ar do mar fazem bem aos ossos"
"Passeia junta ao mar e molha os pés, que os ossos ficam mais rijos. Só tem cuidado com o f**** da p*** do peixe-aranha."

"Deitar cedo e cedo erguer…"
"O meu Jorge gosta tanto de se deitar cedo que, quando vai à tasca à noite, no caminho de volta já nem chega a casa e fica a dormir na rua, no chão. Só não percebo porque é que vomita sempre que faz isso."

"O pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia"
"O meu Joaquim gosta tanto do pequeno-almoço que toma três. Ao segundo já mete bagaço na cevada, ao terceiro come bacalhau frito."

"Come fruta"
"O meu Manel sempre foi muito forte. Come seis maçãs por dia. E quatro bananas. E uma garrafa de vinho, para enrijecer. Porque o vinho, ao fim e ao cabo, é uva."

"Come sopa"
"O meu Manel come a sopa toda. Deita-lhe muito vinho, mas isso é só porque lhe custa a digerir a cenoura."

"Não comas muitos fritos"
"O meu Tone comia muitos fritos, andava a engordar. Passou a comer a sopa com vinho que o Manel come e agora está com problemas de fígado. É porque é o moço é frágil."

"Não durmas ao fim de comer, que te faz mal à digestão"
"O meu marido às vezes, adormece ao fim do almoço e depois fica mal disposto. Mesmo que tenha comido pouco. Na última vez em que isso aconteceu, só tinha comido um frango e meio e bebido uma garrafa de vinho."

"Não durmas de janela aberta, nem no Verão"
"Podem entrar mosquitos. No quarto da minha Esmeralda até chegou a entrar um moço cá da vila com quem ela andava a namoriscar."

"Pratica desporto"
"O meu Joaquim pediu a pai para o deixar jogar à bola no clube da terra. O pai, orgulhoso, perguntou-lhe se ele gostava de exercício físico e o rapaz respondeu que sim. O pai pôs-lhe logo uma enxada na mão."