quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O Facebook é um creme de notícias

O Facebook, para mim, é uma espécie de creme de notícias. Passo a explicar: estão a ver aquela sopa passada, cheia de nível, que servem nos casamentos, antes do prato de peixe, do prato de carne e daquele primo da noiva deixar cair um bocado de vinho na camisa? Sim, o creme de legumes. O Facebook é um creme de notícias. Mas sem o nível do creme de legumes.

(Silke Remmery/Flickr)

Percorrendo o nosso feed, podemos ficar a conhecer “notícias” com bem díspares graus de interesse e de credibilidade. Podemos ficar a saber mais sobre o Orçamento do Estado, sobre a situação entre os Estados Unidos e a Rússia, ou sobre o facto de um especialista em gastronomia achar que o prémio Nobel da Literatura poderá vir a ser atribuído a um funcionário de um restaurante, pelo facto de ele declamar, como se fosse poesia, quais os pratos do dia e em que consiste o “Bacalhau à Gomes de Sá”, o “Polvo à Lagareiro” ou a “Lampreia à Bordalesa”.

Antigamente, as pessoas que queriam saber as notícias eram umas malucas e iam aos sites de notícias. Agora, vão ao Facebook. Só que ir ao Facebook para saber notícias é o mesmo que ir ao talho para comprar uma escultura: no fim, não trouxemos escultura nenhuma, mas sempre se arranjaram, por excelente preço, duas costeletas e um bife da rabada.

Vamos fazer de conta que o espaço que se segue é um feed do Facebook e vamos simular uma possível sucessão de “notícias”.

“PS, Bloco e PCP chegam a acordo sobre Orçamento para 2017”

“Comer nozes ao pequeno-almoço reduz a irritabilidade”
O estudo da Universidade de Ésmesmoparvo, na Roménia, conclui que comer nozes ao pequeno-almoço também reduz a vontade de comer nozes durante a manhã.

“Empresário avança com 10% acções do Novo Banco para pagar a compra de um restaurante”
Esta nota-se logo que é falsa, porque com 10% das acções do banco, o deputado apenas conseguiria pagar as azeitonas.

“Ler ao lado de um gato aumenta os níveis de concentração”
Um estudo da Universidade de Nãotensmaisnadaparafazer, na Noruega, conclui que, caso seja alérgico ao pêlo de gato, o leitor também aumenta os níveis de concentração de muco nasal.

“Cresce a tensão entre Estados Unidos e Rússia”

“Homem descobre 82 rubis num armário no sótão”
Afinal, eram baratas.

“Escócia pondera referendar a saída do Reino Unido”

“A Apple vai oferecer 150 iPhones aos primeiros a partilharem esta publicação”
Esta é das minhas preferidas. Uma das mais valiosas empresas do Mundo precisa mesmo que as pessoas partilhem uma publicação no Facebook, para obter algum ganho de marca… A minha dúvida, quando as pessoas partilham este tipo de campanha fraudulenta, é se elas me dariam o seu dinheiro todo, se eu lhes batesse à porta a dizer que vinha aí uma invasão de espanhóis e que eu tinha um sítio seguro onde guardar o dinheiro.

“Hillary Clinton à frente nas sondagens”

“Ar de Pequim está tão poluído que um homem dissolveu-se em plena rua. Clica para que se abram seis janelas de spam, se instalem quatro spywares no teu computador e possas, enfim, ver o vídeo”
O povo depois vê um vídeo em que não acontece nada e está tão disposto a acreditar que diz “Não se vê o homem, é porque já se dissolveu”.

“Primeira-Ministra britânica anuncia plano para o Brexit”

“Abraçar pessoas gordas reduz os níveis de CO2 na atmosfera”
Um estudo da Universidade de Sóumpalermacainisto, em Itália, diz que, se todos os chineses abraçassem um gordo, todos os dias, não precisávamos de limitar a emissão de CO2. O professor que conduziu este estudo pesa 136 Kg.

“Depeche Mode em Portugal, em 2017”

“Depois de queimado com ácido sulfúrico, homem melhora com chá de cidreira”
Melhora da ardência no estômago, provocada pelos fritos que comeu, porque o braço queimado foi quase para o galheiro.

“Tesla lança o novo carro eléctrico”

“Comer cebolas de manhã reduz o máu hálito matinal”
Substituindo-o pelo máu hálito de fim de almoço.

“Jogar à malha é melhor do que ir ao ginásio”
Um estudo da Universidade de Tuquereséborga, na Alemanha, concluiu que a malha permite queimar mais calorias do que uma hora de ginásio. Se os ginásios sabem disto, acrescentam, às aulas de cycling, bodycombat, pipelining, soft printing, stupid jumping e cream cracking, as aulas de malha. Peço desculpa: aulas de “malhing”, assim é que está certo.

Partilhar, de forma acrítica, qualquer tralha que apareça no Facebook até me parece inofensivo. Sobretudo, se comparado com acender um isqueiro para encontrar uma fuga de gás.

domingo, 23 de outubro de 2016

A Loja dos Cidadãos

Se as lojas de brinquedos vendem brinquedos, a Loja do Cidadão deveria vender cidadãos. Não, não estou a falar de tráfico de seres humanos. Para isso, bastam as juventudes partidárias, que pegam em jovens imberbes inconscientes e formam-nos, até eles se tornarem barbudos inconscientes detentores de cargos públicos, com direito a assessor e ajudas de custo.

O que eu pretendia era que a Loja do Cidadão, para além de nos permitir fazer o Cartão do Cidadão, tratar de papelada, pagar contas e conhecer uma vasta gama de odores oriundos do corpo humano, vendesse pessoas artificiais. Não, não estou a falar da Maria Leal. Falo de algo que parecesse humano, mas não fosse. Não, não estou a falar do cabelo do Donald Trump. Refiro-me a robôs humanóides.

Poderíamos, em qualquer situação, e sem sair do lugar, encomendar um cidadão artificial, através de uma app. Era tipo Uber, mas sem nos arriscarmos a levar na tromba de um taxista que estivesse a passar. Para que serviria esse cidadão? Pois bem, para tarefas várias.

(Jiuguang Wang/Flickr)

Viajar ao lado de um passageiro chato
Estás a viajar de comboio e ao teu lado está uma senhora adorável que já te mostrou as fotografias dos filhos e do neto, trocou três vezes os nomes deles, falou-te do canário amarelo que canta em Dó sustenido, disse seis vezes que “isto é uma vida” e quatro que “ele dá chuva para amanhã”. Já te perguntou três vezes qual o teu nome, disseste nomes diferentes em todas elas e ela respondeu sempre que tinha um sobrinho com esse nome. Estás farto de a aturar e só querias ler o teu livro. Requisitas um cidadão artificial para a estação seguinte. Ele entra no comboio, vai para o teu lugar e tu para o dele. Três estações depois, ele atira-se à linha, mas como é um robô, pode ser reparado.

Passar a ferro
Chegas a casa e tens uma dúvida existencial profunda: será que o número de escalões do IRS é adequado para que se garanta uma maior equidade fiscal? Sem resposta a esta dúvida, avanças para outra: ver um episódio da tua série do momento ou passar a ferro? Fácil: encomendas um cidadão artificial para passar a ferro e tu vais ver a série. Importante: não deixar que o cidadão artificial passe a ferro na mesma divisão da casa em que vês a série, senão, um dia, chegas a casa e ele está a ver a série, enquanto enche o teu sofá de migalhas de batatas fritas e já depois de ter fumado dois cigarros lá dentro.

Ir às compras
Não te apetece andar de carrinho, de um lado para o outro, e passar pela secção dos lacticínios, pela das massas, pelo talho e pela peixaria, por aquele senhor gordo que ocupa mais espaço do que o carrinho, por aquele puto que está a colar ranhos na fruta, por aquela senhora que já tirou a carta de ligeiros, mas não de carrinhos de supermercado. Só tens que mandar um cidadão artificial. Mas cuidado, especifica que não queres um vegetariano. Senão vais passar uma semana a mandar tofu e soja para o bucho.

Jogar à bola
Quem já jogou à bola com amigos, sabe como é dramático faltar um jogador. Até se pode realizar o jogo, mas jogar contra uma equipa que tem um jogador a menos é como roubar fruta no quintal de uns velhotes: nem dá pica, nem te podes gabar dos teus feitos. O cidadão artificial requisitado para ser o jogador que faltasse seria como o FIFA: daria para regular o grau de dificuldade. Ou seria possível, também, pô-lo à baliza o jogo todo sem que ele se queixasse. Com tempo, poderia vir a substituir definitivamente aquele que é, notoriamente, o pior jogador do grupo (há sempre alguém assim).

Ir ao cinema
Uma das minhas convenções sociais preferidas, depois da obrigatoriedade de dizer alguma coisa, quando alguém espirra, é que não se pode ir ao cinema sozinho. A não ser que se pretenda praticar a chafurdice de cariz sexual (e mesmo assim, o cinema pode não ser o local ideal, porque ficar com pipocas na virilha deve ser desagradável), numa sala de cinema é suposto estar-se hora e meia/duas horas, em silêncio, a olhar para um ecrã. Ao lado, é igual estar uma pessoa amiga ou uma réplica da Estátua da Liberdade (com os dois braços para baixo, senão o pessoal da fila de trás não vê). Mas se, surpreendentemente, precisasses de companhia para ir ver aquele filme independente produzido na Mongólia e que retrata a colheita de arroz no Vietname, requisitavas um cidadão artificial. E poderias escolher um que não gostasse de pipocas, para não teres que as dividir.

És obsessivo-compulsivo, mas estás com preguiça
Contratas um cidadão artificial e ele organiza os teus livros por ordem alfabética, a tua roupa por cores, as tuas plantas por espécie, a tua despensa por tipo de produto e data de validade e os filmes que tens no computador por género. Só não organiza os filmes de pornografia porque estão num disco externo escondido.

Fazem-te a pergunta mais irritante de sempre que, como toda a gente sabe, é: “E de resto?”
Dizes “Espera um bocadinho” e requisitas um cidadão artificial. Activa-lo para a função “E de resto?” (todas as unidades virão preparadas para essa função) e o cidadão conta, à pessoa que te fez a pergunta, a história do Universo, com todos os detalhes matemáticos, físicos e químicos que marcaram a sua evolução, sem esquecer as diversas civilizações e dinastias que a História costuma destacar. Falará, também, um pouco de Filosofia, para dar conta das principais correntes do pensamento humano, e terminará com breves apontamentos de Economia, tão úteis para entendermos o mundo em que vivemos. Depois desta compilação de oito horas, a pessoa que te perguntou “E de resto?” nunca mais cometerá essa atrocidade.

Já sei, já sei. Está tudo a pensar “E sexo? O cidadão artificial não poderia ser requisitado para praticar sexo?”. Não, seus ordinários, pela simples razão de que, se o Estado se metesse nesse negócio, teríamos os donos dos bordéis nas ruas. E uma jornada de luta dos bordéis causaria mais congestionamento do que uma greve dos transportes.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Mundify: playlists com pessoas a debater cenas

Hoje em dia, temos acesso fácil a tudo: há milhares de vídeos de gatinhos fofos no Youtube, uma infinidade de discografias no Spotify, carradas de documentos de pessoas que fogem ao fisco, nos “Panama Papers”. E uma nova perspectiva do rabo da Kim Kardashian, todos os dias.

Uma vez que o rabo da Kim é como um dicionário, definindo-se a si mesmo, gostaria de elaborar um pouco mais sobre o Spotify. Esta bonita plataforma tem, logo à partida, a vantagem de não colocar os taxistas a varrer tudo ao pontapé. Logo aí, ganha pontos ao Uber.

Depois, permite explorar discografias de grandes nomes, como U2, Queen, Rolling Stones ou os D.A.M.A.; David Bowie, Frank Sinatra, Nina Simone ou o A.G.I.R.

Já agora: D.A.M.A. e A.G.I.R.? Que treta é esta das siglas? Não bastava os músicos da nova vaga terem música difícil de se gostar, também tinham que ter nomes difíceis de entender? Uma coisa é certa: se desaparecerem da ribalta, na música, pelo menos já têm bons nomes para movimentos cívicos. Movimentos que lutem, por exemplo, contra músicas como aquela que diz “ela é linda sem makeup”.

Inspirado no Spotify, gostaria de apresentar uma ideia para que alguém com conhecimentos técnicos, dinheiro e parvoíce suficientes possa realizar. Falo do Mundify, uma plataforma com playlists de pessoas a falar sobre todos os temas possíveis. Tudo isto, sem o pessoal que trabalha no Spotify faça um protesto em que ande com tudo ao pontapé.

(TVZ Design/Flickr)
O Mundify seria um espaço incrivelmente democrático, onde as pessoas poderiam falar até de assuntos dos quais não percebem nada. Como, por exemplo, o Cristiano Ronaldo a falar de literatura, a Ana Malhoa a falar do problema do Médio Oriente ou o Passos Coelho a falar de política. Neste ponto, Miguel Sousa Tavares não poderia de falar de um assunto do qual não percebesse nada, pela simples razão de que ele é extraordinariamente versado em todos os temas.

Poderíamos ouvir, por exemplo, Jorge Jesus a ler Shakespeare em Inglês. Do séc. XVII. Poderíamos ouvir uma aula de uma das maiores personalidades do meio académico português. Falo, obviamente, de Miguel Relvas, que tira uma licenciatura e meia enquanto Jorge Jesus lê o “Hamlet” (em Português da Amadora do séc. XXI). Poderíamos ouvir uma playlist do PCP, que consistiria em ouvir sempre o mesmo discurso, mas dito por vozes diferentes, como se fosse o Google tradutor (discurso esse que teria, muitas vezes, o mesmo sentido que as traduções feitas no Google tradutor). Poderíamos ouvir a malta do CDS a defender grandes causas do nosso tempo, como os direitos dos grandes capitalistas oprimidos pelos governos de esquerda, a importância das touradas para as ganadarias ou a crise da equitação nos colégios privados.

Mas o que tornaria o Mundify verdadeiramente democrático seria a possibilidade dejuntar os cidadãos anónimos ao coro de vozes participantes. Imagina que podias desafiar o teu tio Júlio a criar um podcast sobre temas fracturantes, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o aborto, a eutanásia, a despenalização das drogas leves ou a importância de ter um tio Júlio, sem poder utilizar expressões como “isto é tudo um bando de [completar]” ou “era metê-los num barco”. Imagina desafiares a tua tia Ermelinda a dissertar sobre as festas de “swing” e os bares de strip sem poder utilizar a expressão “pouca vergonha”.

O Mundify seria um sucesso. A Kim Kardashian talvez não achasse, mas isso é porque não é preciso falar para mostrar o rabo a milhares de pessoas. É tão fácil como ter uma conta no Instagram. Ainda bem.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Um Uber nunca será um táxi

Esta polémica entre táxi e Uber não me diz muito. Nem me dou ao trabalho de escolher um lado. Desde que se proteja a integridade física, o dinheiro e a possibilidade de o utente dar uma volta muito maior do que a necessária, caso queira conhecer a cidade, por mim, tudo bem. Nem vou escolher, porque se escolher Uber ainda levo na tromba. E isso não fica muito em caminho.

(Repara como faço um bom uso dos sentidos literal e figurado da palavra “caminho”.)

Para além disso, tinha que instalar o Uber e o meu telemóvel não tem espaço para mais aplicações. Entre os resultados da bola e meia dúzia de jogos divertidos, não sobra grande coisa.

(Paul K/Flickr)

O que quero frisar, com este texto, é que ainda não vi ninguém referir um ponto importantíssimo, nesta questão: a componente de experiência de andar de táxi não é fácil de medir. Por experiência, refiro-me às coisas que podem acontecer num táxi e que dificilmente poderão acontecer num Uber. Coisas essas que tornam a experiência do táxi infinitamente mais divertida.

Requisição do serviço
O Uber é chamado através de uma “app”, onde está toda a informação necessária ao motorista. O táxi é chamado através de um telefonema e quem está do lado de lá nem sempre compreende bem o Português. Ou qualquer língua ou linguagem humana. Às vezes, quem atende o telefone urra uma série de coisas, até perceber onde fica a rua aonde queremos que o táxi vá ter. Enquanto fazemos figura de urso, a berrar o nome do local, no meio da rua, também fazemos um esforço por comunicar com outro ser humano. E isso é sempre bonito. Cria laços.

Motorista
O motorista do Uber é uma pessoa com uma certa urbanidade e boa compreensão da tecnologia. É uma espécie de andróide com óculos de velhinha, conta de Instagram e “reviews” de passageiros chóninhas.  O motorista de táxi pode ser muita coisa. Pode ser um tipo que cospe enquanto conduz (janela aberta opcional), ou um tipo que nos pergunta se vamos ter bom tempo (sabermos se vem ou não é opcional). Pode ser um tipo que nos fala daquela vez que lhe apontaram uma faca e ele teve que resolver tudo à chapada. É o Clint Eastwood ao volante de um Gran Torino. O motorista do Uber, em compensação, fala-nos daquela vez em que o primo Gonçalo ficou sem a câmara Polaroid, numa rua manhosa.

Música
O motorista de táxi ouve rádios locais. Ouve discos pedidos. Uma cassetezinha de Julio Iglesias. Em dia de futebol, ouve relato e enxovalha o árbitro. Tudo coisas com identidade. O motorista do Uber tem uma playlist de Spotify com o nome “Relax”, com uma selecção dos dez melhores violinistas da Islândia. Se pedirmos uma música mais animada, ele ainda começa a chorar.

Destinos
Se quiseres ir beber um copo ao bar onde tudo acontece, o taxista liga para o dono para te reservar mesa. Se for uma discoteca com critério rigoroso de porta, ele faz um telefonema e vais para a zona VIP. O motorista do Uber leva-te a uma sessão de cinema independente da Mongólia, em casa do primo Gonçalo. Sem pipocas. Se quiseres petiscar à uma da manhã, o taxista sabe onde te levar a comer, por exemplo, iscas de bacalhau. Se pedires o mesmo ao motorista do Uber, ele saca-te de um “tupperware” com panados de tofu.

Já sei, já sei: vão dizer-me que o Uber é mais barato. Mas, por todas as razões que enunciei, o preço do táxi acaba por ser justo. Digo isto porque gosto de iscas de bacalhau. E porque não quero levar na tromba.