segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Partilha e não ganhes um iPhone

Todos os anos, é a mesma coisa. Chegado o Outono, as andorinhas partem em busca de um lugar onde tenham um clima agradável, uma vida mais tranquila e uma taxa de desemprego menos preocupante.

Peço desculpa, inadvertidamente, acabei por utilizar um parágrafo que estava planeado para um texto no qual iria dissertar sobre a migração da andorinha. Vou recomeçar.

Todos os anos, é a mesma coisa. Chegada a altura das promoções de Natal, os parques de estacionamento dos centros comerciais parecem saídos do filme do Godzilla, com pessoas a correr de um lado para o outro em pânico, carros a circular sem rumo e um adorável dinossauro a devorar pessoas na zona do parque denominada “Margarida Azul”. Mas esta parte do dinossauro é um pouco aborrecida.

Do que eu gosto mesmo, na altura das promoções de Natal, é da onda de partilhas que surge, no Facebook, de fotografias publicadas por páginas falsas de empresas de comércio de tecnologia que, supostamente, estão a oferecer iPhones. Basicamente, temos que colocar “Gosto” nessas páginas falsas e partilhar uma fotografia com a indicação, na legenda, da cor que queremos para o telefone. Depois, há um sorteio, realizado na cave do Centro Comercial de Engodos de Cima, situado ao lado do Supermercado “Oh Tário”, com presença de membros dos extintos governos civis e um gajo bruto que, caso alguma coisa corra mal, telefona a meia dúzia de amigos violentos.

(www.apple.com)

E aqui, a Internet desilude-me, não porque as pessoas sejam inocentes ao ponto de acreditarem numa trafulhice destas, mas porque ninguém escolhe cores exóticas. Toda a gente diz “Preto”, “Branco”, “Dourado”. Não se encontra uma alminha que escolha um telefone “verde ranho”, “azul cueca” ou “dourado dente d’ouro”. Nada. Esperava mais da Internet.

Voltando à inocência: acreditar que empresas da dimensão da Worten, da FNAC ou da Media Markt, que gastam fortunas em publicidade, nos mais diversos meios (entre eles, o Facebook), estariam na disposição de oferecer um iPhone em troca de partilhas, é o mesmo que acreditar que um país que tenha bombardeiros, caças, navios de guerra e mísseis esteja disposto a pagar por uma fisga. Ainda que a fisga seja de pau-brasil, bastante bem cotado no mercado, não justifica.

Meus amigos, quando uma empresa como estas quer divulgar uma mensagem, põe-na na televisão, na rádio, no Facebook, no YouTube, e ainda paga a uma velhinha adorável que irá tocar à tua campainha, para te oferecer um fresquinho bolo de chocolate e te avisar de que vai haver promoção no fim-de-semana.

Confesso que também esperava mais da parte de quem inventa estas páginas falsas. Não se vê uma página falsa de produtos de bricolage. “Partilha a foto e vamos sortear um jogo de chaves de fendas espectaculares, para desmontares o teu Opel Corsa de 98 ao Sábado de manhã.” Não se vê uma página falsa de produtos de higiene. “Partilha a foto e vamos sortear 286 sacos grandes de papel higiénico de seda, tripla folha.” Não se vê uma página falsa de serviços de acompanhamento emocional. “Partilha a foto e vamos sortear uma pessoa afável para te dar um ombro amigo.” Nadinha. É só iPhones.

Espero que esta moda acabe e que avancemos para um nível diferente: páginas de boas pessoas. Eu explico. As publicações dirão sempre “Eu sou uma boa pessoa e, se me deres todos os teus dados do cartão de crédito, para um estudo que estou a fazer e que visa determinar quantas pessoas têm um número do cartão terminado em 82, eu dou-te um iPhone".

De cor “dourado dente d’ouro”.

Aponto para 22 mil seguidores, na primeira semana.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Questionário para encontros sexuais de uma noite

Há dias, um amigo meu passou por uma situação muito complicada. “Foi assaltado?”, perguntam vocês. Não, não foi. “Foi atropelado?”, perguntam vocês, tão chatos que estão hoje, sempre a interromper, sempre a interromper. Não, não foi atropelado.

O meu amigo teve uma aventura sexual de uma noite e acordou, no dia seguinte, sem bateria no telemóvel e sem carregador compatível. Segundo o próprio, estava sozinho numa casa que não conhecia, situada numa rua que não conhecia, e onde não havia carregador de iPhone. O meu amigo confessou ter-se sentido completamente isolado no Mundo, sem saber se estava em Braga ou na Eslováquia, e deu por si perante uma decisão difícil: ir embora e parecer um insensível ou esperar pela miúda com quem tinha estado, mesmo não podendo contactar ninguém durante várias horas. Com o sentido de humor que o caracteriza, disse-me que, a partir daquele dia, iria perguntar sempre a uma miúda se tinha carregador de iPhone, antes de passar a noite com ela.

(jinterwas/Flickr)

A pensar neste caso, e em muitos outros que, infelizmente, acontecem todos os dias, sem que o Manuel Luís Goucha ou a Júlia Pinheiro dêem conta disso, ignorando completamente este flagelo, decidi criar um questionário. Depois de muito ter pensado, e de ter reduzido ao máximo o número de palavras, decidi dar-lhe o nome de “Questionário que deve anteceder um encontro sexual de uma noite que implique dormir em casa de uma pessoa estranha”. É um bom nome, tem algo de poético. Eis algumas das questões-chave.

De que marca é o teu telefone?
Não vale a pena explicar a importância desta pergunta.

Qual a tua opinião sobre o Governo?
Pode, aqui e ali, surgir um tópico sobre política em conversa de circunstância (a quem nunca aconteceu?) e é importante saber o que podes dizer sobre o Governo sem estragar o ambiente.

Qual o teu grau de preocupação com as questões ambientais?
Podes ir beber um copo de água ou comer uma peça de fruta e constatas que a pessoa com quem vais passar/passaste a noite não separa o lixo. Fica logo aquela sensação de repulsa no ar.

Qual a tua posição sobre as políticas relacionadas com a fiscalidade?
Imagina que, a dada altura, te apetece dizer que “Isto era taxar os ricos, que só sabem andar aqui a meter pó bucho” e não sabes se os pais da pessoa com quem vais passar/passaste a noite são magnatas.

Qual é o teu clube de futebol?
Imagina que, na jornada anterior, houve um lance polémico que dividiu o país a meio, nas discussões sobre arbitragem. É importante saber se te vais chatear por causa da opinião da pessoa com quem vais passar a noite.

Preferes cereais com leite quente ou com leite frio?
É uma questão que já vários pensadores colocaram e que deve manter-se na agenda, se queremos uma sociedade mais recomendável. Há pessoas que tomam cereais com leite quente e pessoas que tomam cereais com leite frio. Mesmo que não comas cereais (é o meu caso), deves ter uma opinião clara sobre o tema (na minha opinião, aquecer o leite é uma cobardia para com os cereais e quem o faz deveria ser punido). Não deves passar a noite com uma pessoa que não partilha a tua opinião sobre este tema.

Tencionas realizar alguma tarefa doméstica amanhã de manhã?
Imagina que te apetece dormir e a pessoa até se quer levantar cedo e aspirar. Vai dar chatice.

Tens lugar para estacionar? A tua rua é segura?
Ideal para evitar multas e/ou assaltos.

Tens alguma cadeira onde possa colocar a minha roupa?
Imagina que és muito picuinhas e não gostas de deixar a roupa no chão. Providenciar-te uma cadeira é o mínimo que a pessoa com quem vais passar a noite pode fazer.

Tens animais em casa?
Há pessoas que não ficam muito à vontade com animais por perto. Há pessoas, como eu, que adoram animais, mas são alérgicos (no meu caso, ao pêlo de gato). Aviso já que uma pessoa com o nariz a pingar perde uma boa parte da sensualidade. Pode nenhuma destas hipóteses se verificar, mas podes querer apenas precaver-te de que a pessoa com quem vais passar a noite possa ter um imponente Labrador que, para além de querer dormir contigo, tente ter relações sexuais com a tua perna. Ou mesmo contigo todo. Pode, ainda, nenhuma destas hipóteses se verificar e a pessoa com quem vais passar a noite fazer uma criação de tarântulas ou de cobras e esquecer-se de te dizer que duas delas desapareceram do terrário, no dia anterior.

Tens TV no quarto?
Importante para quem não dispensa cinco minutos de televisão antes de dormir.

Estas ou outras perguntas que te pareçam pertinentes devem estar gravadas no teu telemóvel e, uma vez que podes ficar sem bateria, numa grelha de Excel impressa, que podes usar nessa e noutras noites. Se isto não é serviço público, então não sei o que é.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Não queremos direitos a mais

O mundo, caro leitor, caminha para um futuro assustador, no qual estaremos entregues à nossa sorte, abandonados perante os caprichos do destino. Imaginem o que um tribunal do Reino Unido teve o desplante de fazer: condenou a Uber a pagar salário mínimo e férias aos seus motoristas.

(Nicki Mannix/Flickr)

Que horror. Como é que, em pleno século XXI, um tribunal comete a barbárie de atacar, com tamanha violência, uma empresa que trabalha de forma séria para garantir a sua sobrevivência. Mas esta canalhice não se fica por aqui: o tribunal, não contente com o grau de violência do seu ataque, foi mais longe, e determinou que o tempo de trabalho fosse contado atendendo ao tempo em que o motorista está disponível na aplicação, e não através da soma das durações das viagens. Sim, senhor, que bonito exemplo, senhor tribunal.

Quer dizer, uma empresazinha avaliada em mais de 40 mil milhões de euros esforça-se para ganhar a vida e vem um tribunal inventar regras tão século XX. Uma empresa “trendy”, com uma aplicação móvel toda “fancy” e carros todos “cosy”, voltada para o futuro, ainda tem de lidar com regras tão do passado.

Como é óbvio, a Uber quer recorrer. Estou a torcer para que consiga ser bem sucedida. E para mostrar como estou a torcer, vou tentar ajudar a Uber, propondo algumas ideias por cuja implementação a empresa deve lutar. Por um futuro melhor!

Horário
Para não dizerem que estamos a ser tendenciosos, o tempo de trabalho deve ser contado tendo em conta um qualquer factor externo. Por exemplo, o tempo de rotação de um planeta. Assim à sorte, Neptuno, que demora 16 horas a girar sobre si mesmo. A sério, foi mesmo à sorte. O horário deve ser tão flexível quanto possível. Ser flexível é ser capaz de dobrar. Logo, o horário deverá, por princípio, ter horas a dobrar. Mas ser flexível é, também, ser capaz de dobrar sem partir. Logo, o trabalhador deve dobrar as horas sem partir para férias. E deve estar contactável 24 horas por dia. Tipo James Bond, mas sem as mulheres bonitas e as armas sofisticadas.

Remuneração
O trabalhador tem direito a uma remuneração digna e deve receber tudo até ao último cêntimo. No entanto, e como as empresas modernas se preocupam com os seus trabalhadores, o trabalhador irá receber numa conta bancária que só a empresa controla e que será gerida por um grupo de gestores espectaculares. Desta forma, os trabalhadores não gastarão o dinheiro em coisas inúteis, como em jantaradas, copos ou água canalizada.

Aumentos salariais
Os aumentos serão alinhados, não só, com a inflação, mas também com a Bolsa de Tóquio, o casino Bellagio, em Las Vegas, o valor de mercado do ouro, dos diamantes e do passe do Cristiano Ronaldo. Mesmo que todos estes indicadores apontem para um aumento, este só acontecerá se a empresa tiver crescido, no ano anterior, 15000%, de forma a evitar problemas de tesouraria que coloquem o futuro da empresa em risco. Nenhum trabalhador quer que a empresa feche…

Negociações
Os trabalhadores poderão, em qualquer momento, negociar com a administração da empresa que os emprega. Porém, para garantir que transmitirão a mensagem da melhor maneira, a empresa contratará um assessor de comunicação. Este irá convencer os trabalhadores de que terão mais benefícios, por exemplo, ao emitirem um comunicado a dizer que estimam as qualidades pessoais e profissionais dos administradores, do que a fazerem coisas sem qualquer sentido, como pedir melhores condições de trabalho.

Greve
Os trabalhadores têm direito à greve. Já as manifestações, como dão cabo do trânsito (e a Uber preocupa-se, particularmente, com a questão do trânsito), deverão ser realizadas no “Manifestódromo”, um recinto que será construído pelas empresas, nas Ilhas Phi Phi (Tailândia), para garantir todas as condições necessárias a uma manifestação como deve ser.

Baixa
Quando um trabalhador estiver doente, receberá o salário na íntegra. Mas, como a doença poderá diminui-lo das suas faculdades mentais, o dinheiro será gerido por um “gestor de desgraças”, que comprará medicamentos, mantinhas, bolachas e chá, entre outros bens, e que fará companhia ao doente, enquanto este vê o futebol ou a novela da noite. O dinheiro que sobrar, no fim da baixa, ficará guardado pela empresa, durante 30 anos, porque o trabalhador poderá ter uma recaída.

Despedimento
Sempre que uma empresa quiser despedir trabalhadores, os trabalhadores poderão lutar pelo seu posto de trabalho. Nomeadamente, num concurso televisivo, tipo “Jogos sem Fronteiras”. Ganham todos: o trabalhador pode safar-se do despedimento; a empresa consegue uma boa fonte de rendimento, ao vender os direitos televisivos.

Eu sei, eu sei, estas ideias são utópicas. Mas eu não desisto de lutar por um mundo melhor, por um mundo em que uma empresa modesta, com o a Uber, pode trabalhar sem ser incomodada. Não desistamos, camaradas, até porque o nosso camarada Donald Trump pode vencer as eleições.