Partilha e não ganhes um iPhone

Todos os anos, é a mesma coisa. Chegado o Outono, as andorinhas partem em busca de um lugar onde tenham um clima agradável, uma vida mais tranquila e uma taxa de desemprego menos preocupante.

Peço desculpa, inadvertidamente, acabei por utilizar um parágrafo que estava planeado para um texto no qual iria dissertar sobre a migração da andorinha. Vou recomeçar.

Todos os anos, é a mesma coisa. Chegada a altura das promoções de Natal, os parques de estacionamento dos centros comerciais parecem saídos do filme do Godzilla, com pessoas a correr de um lado para o outro em pânico, carros a circular sem rumo e um adorável dinossauro a devorar pessoas na zona do parque denominada “Margarida Azul”. Mas esta parte do dinossauro é um pouco aborrecida.

Do que eu gosto mesmo, na altura das promoções de Natal, é da onda de partilhas que surge, no Facebook, de fotografias publicadas por páginas falsas de empresas de comércio de tecnologia que, supostamente, estão a oferecer iPhones. Basicamente, temos que colocar “Gosto” nessas páginas falsas e partilhar uma fotografia com a indicação, na legenda, da cor que queremos para o telefone. Depois, há um sorteio, realizado na cave do Centro Comercial de Engodos de Cima, situado ao lado do Supermercado “Oh Tário”, com presença de membros dos extintos governos civis e um gajo bruto que, caso alguma coisa corra mal, telefona a meia dúzia de amigos violentos.

(www.apple.com)

E aqui, a Internet desilude-me, não porque as pessoas sejam inocentes ao ponto de acreditarem numa trafulhice destas, mas porque ninguém escolhe cores exóticas. Toda a gente diz “Preto”, “Branco”, “Dourado”. Não se encontra uma alminha que escolha um telefone “verde ranho”, “azul cueca” ou “dourado dente d’ouro”. Nada. Esperava mais da Internet.

Voltando à inocência: acreditar que empresas da dimensão da Worten, da FNAC ou da Media Markt, que gastam fortunas em publicidade, nos mais diversos meios (entre eles, o Facebook), estariam na disposição de oferecer um iPhone em troca de partilhas, é o mesmo que acreditar que um país que tenha bombardeiros, caças, navios de guerra e mísseis esteja disposto a pagar por uma fisga. Ainda que a fisga seja de pau-brasil, bastante bem cotado no mercado, não justifica.

Meus amigos, quando uma empresa como estas quer divulgar uma mensagem, põe-na na televisão, na rádio, no Facebook, no YouTube, e ainda paga a uma velhinha adorável que irá tocar à tua campainha, para te oferecer um fresquinho bolo de chocolate e te avisar de que vai haver promoção no fim-de-semana.

Confesso que também esperava mais da parte de quem inventa estas páginas falsas. Não se vê uma página falsa de produtos de bricolage. “Partilha a foto e vamos sortear um jogo de chaves de fendas espectaculares, para desmontares o teu Opel Corsa de 98 ao Sábado de manhã.” Não se vê uma página falsa de produtos de higiene. “Partilha a foto e vamos sortear 286 sacos grandes de papel higiénico de seda, tripla folha.” Não se vê uma página falsa de serviços de acompanhamento emocional. “Partilha a foto e vamos sortear uma pessoa afável para te dar um ombro amigo.” Nadinha. É só iPhones.

Espero que esta moda acabe e que avancemos para um nível diferente: páginas de boas pessoas. Eu explico. As publicações dirão sempre “Eu sou uma boa pessoa e, se me deres todos os teus dados do cartão de crédito, para um estudo que estou a fazer e que visa determinar quantas pessoas têm um número do cartão terminado em 82, eu dou-te um iPhone".

De cor “dourado dente d’ouro”.

Aponto para 22 mil seguidores, na primeira semana.

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