terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Espere dois minutos sem explodir

Antes de elaborar sobre um tema que está no centro do debate político e, até filosófico, nos nossos dias, solicito ao leitor que aguarde dois minutos. Durante esse período, não pode fazer coisas que se fazem em dois minutos. Como abrir outra página. Ou  jogar no telemóvel. Ou limpar o pó, aspirar, mudar a cama, tirar os cortinados para pô-los a lavar, levar um casaco à lavandaria, pagar as contas do mês e arrumar aqueles papéis que estão na sua secretária desde 1932.

O tema que está a marcar a actualidade é, como toda a gente sabe, a incapacidade que o ser humano de hoje tem para esperar. Sim, esperar. Vivemos num tempo em que o Homo Sapiens Sapiens se está a transformar em Homo Sapiens Sapiens Non Esperens.

(Doug Waldron/Flickr)

Antigamente, os seres humanos viviam em pacatos aglomerados, muitas vezes sem luz eléctrica, e os cerca de 17 minutos por dia que tinham em que não estavam a trabalhar ou a cuidar dos seus 12 filhos, eram passados a contemplar a Natureza, a conversar à luz do candeeiro a óleo ou a assassinar o vizinho por causa de uns palmos de terreno. Tratavam-se, portanto, de seres humanos fundamentalmente contemplativos.

Hoje, o ser humano vive em aglomerados cheios de luz, onde há cada vez menos filhos e cada vez mais aparelhos eléctricos cheios de potencialidades, que permitem consultar a Internet e, com isso, aprender em vários campos do conhecimento científico, jogar, ver filmes e séries, ouvir música ou, num ou noutro raríssimo caso, quase já sem expressão estatística, ver pornografia.

Com tantos estímulos à sua inteligência, o Homo Sapiens Sapiens perdeu a capacidade para esperar e, por isso, tem que estar permanentemente a ser estimulado. Vou fazer uma pequena pausa, para que as mentes mais elaboradas façam um trocadilho sexual de qualidade fraca a moderada em torno da expressão “ser estimulado”.

[Início de pausa – Fim de pausa]

O ser humano moderno vai a um centro comercial e há fila para entrar no parque: pega logo no telemóvel para verificar se, nos oito minutos e meio em que esteve longe do aparelho, aconteceu algo extraordinário. Aparece um lugar para estacionar mas há alguém à sua frente que vai ficar com o lugar: o ser humano moderno pensa logo em quatro maneiras de matar essa pessoa, só para poder estacionar o carro. Entra numa loja e todos os funcionários estão com outros clientes: o ser humano moderno tem uma perda selectiva de memória, que apaga, fundamentalmente, as memórias relativas às normas de educação, e começa a ser arrogante e a dissertar sobre a gestão da loja, que passa a precisar, segundo os seus conhecimentos sobre gestão, de cinquenta funcionários adicionais.

O ser humano moderno vai viajar e tem que esperar no aeroporto. Felizmente, existem telemóveis com câmara e redes sociais, meios através dos quais o ser humano moderno passa o tempo a avisar os outros seres humanos modernos de que vai viajar de avião. O código usado para o efeito é incrivelmente simples: fotografa um avião. Se quiser ser mais misterioso, fotografa só a asa. E assim passa o tempo que, caso estivesse livre de ocupação, poderia levá-lo a iniciar uma série de homicídios na sala de embarque.

O computador demora um bocadinho mais e o ser humano moderno começa a barafustar, cuspindo assim em dezenas de anos de evolução tecnológica e esquecendo-se de que, há meio século, um computador ocupava um bairro inteiro, tinha menos memória do que um dente do siso do seu telemóvel e demorava seis semanas a calcular o resultado de seis a multiplicar por quatro.

O problema não está só nos seres humanos modernos adultos que desaprenderam de esperar: as próprias crias dos seres humanos modernos já são tranquilizadas com o seu ecrã táctil, onde podem sorver conteúdos da net, ao contrário das crias antigas, que passavam o seu tempo a destruir coisas de que os adultos precisavam, a olhar para caixinhas de música foleiras ou a ingerir ranhos.

Estamos a criar bombinhas-relógio. A próxima guerra mundial não se dará por divergências ideológicas ou por falta de recursos: vai acontecer porque alguém se vai cansar de esperar.

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