terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Quando não havia emojis, mas havia música na MTV

Como dizia Lavoisier, “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Dizia Lavoisier, mas também o senhor Alfredo, da tasca “O Pepino”, em Guilhofrei, que recolhia cirurgicamente os restos de vinho das mesas para um recipiente grande, onde esses restinhos de vinho misturados davam origem a novas e, por vezes, deliciosas “castas”, capazes, não só, de embebedar com eficiência, mas também de destruir um fígado em seis semanas.

Vem isto a propósito de eu não ter grandes ideias sobre como iniciar este texto, mas também desta nova moda de, do velho, se fazerem velhos em quantidade suficiente para vender. Não, não estou a falar sobre cirurgia plástica, esse domínio da Medicina que tanto faz pessoas velhas com aspecto jovial como, em casos de menor acerto, excelentes bonecos de cera para museus. Eu sei, estou a ser injusto, com esta comparação: há bonecos de cera com uma vida demasiado activa para serem comparados com pessoas velhas.

Do que eu quero mesmo falar, quando parar de engonhar, é desta tendência recente da tecnologia para recuperar aparelhos do passado. No Natal, foi a Nintendo NES que fez as delícias dos nostálgicos. Vivemos um tempo que as consolas são tão evoluídas que, se jogarmos FIFA e tivermos o Cristiano Ronaldo na nossa equipa, durante aquele tempo, deixamos de saber dizer “oleosidade” e fotografamo-nos abundantemente em cuecas. Mesmo assim, muita gente comprou a Nintendo NES, cujos jogos são uma mistura de quadradinhos coloridos e música foleira. Ou seja: parecem aquelas discotecas que abrem ao Domingo à tarde. Ou um casaco do Goucha.

O mesmo está a acontecer com os telemóveis: a Nokia anunciou que vai relançar o 3310 e a Internet explodiu. Num tempo em que os telemóveis têm ecrãs maiores do que um espelho de casa-de-banho e mais RAM do que a que existia nos computadores todos de Portugal, em 1990, preparamo-nos para o sucesso de uma carcacinha com botões.

(raindog808/Flickr)

Apesar de tudo, há uma diferença fundamental entre estes dois exemplos: enquanto que muitos vão conseguir reeditar os êxitos que tiveram na Nintendo NES, na sua juventude, poucos irão repetir os êxitos que tiveram aos comandos de um Nokia 3310, nomeadamente no envio SMS de cariz romântico. No máximo, irão recuperar o recorde do jogo da cobra.

[Durante esta pausa, fica no ar a ideia de que eu poderia fazer um trocadilho de cariz sexual, com a expressão “jogo da cobra”, mas importa reforçar que eu não sou tão ordinário como vocês pensam.]

Pegando nesta moda de recuperar coisas do passado, passo a propor algumas que gostaria que voltassem.

Quem gostava de comer comida tradicional podia fazê-lo abertamente
Hoje, se quiseres comer arroz de cabidela ou papas de sarrabulho, tens que o fazer às escondidas. Caso contrário, podes ser apanhado e punido por grupos extremistas incrivelmente perigosos, como os “Caçadores do Glúten”, a “Brigada do Tofu”, o “Esquadrão Curgete”, a “Força de Intervenção Alface” ou os “Cortadores de Tomates”. (Como é óbvio, esta sequência de nomes ia acabar com um que desse para um trocadilho de cariz obsceno, mas eu não sou assim tão ordinário.) Caso sejas um destes grupos, vais desejar ter nascido frango do campo e ter acabado numa panela de arroz de cabidela.

Os seres humanos conseguirem pensar em mais do que 140 caracteres
Isto do Twitter é muito bonito, mas é bom para pessoas com pouca memória RAM. Eu sei, hoje em dia, ter pouca memória RAM não impede ninguém de ser, por exemplo, Presidente dos Estados Unidos, mas houve um tempo em que um ser humano sabia, em média, mais do que 36 palavras.

Não era preciso usar emojis
Em tempos, os seres humanos tinham palavras que designavam coisas. Por estranho que pareça, os seres humanos recorriam a essas palavras, e não a bonecos, para se fazerem entender. Para encontrarmos emojis na nossa linguagem, temos que recuar ao tempo das pinturas rupestres. Mas, nesse tempo, os seres humanos andavam semi-nus, pelo que se perdia na comunicação, mas se ganhava na interacção.

A MTV passava música
Eu sou do tempo em que a MTV era arrojada ao ponto de, não só, passar música, como também de transmitir programas sobre música. Não se entendia, de facto. Felizmente, alguma mente mais atenta mudou essa estratégia e hoje a MTV só transmite “reality shows”. Ainda assim, enquanto que a TVI tem a Teresa Guilherme, a MTV tem miúdas giras em bikini em locais paradisíacos. Por outras palavras, a MTV ainda não desceu ao nível TVI.

Quando um amigo viajava, mostrava-nos fotografias só quando voltava        
Hoje, começamos logo a ver uma fotografia da asa do avião, no nosso Facebook, ainda o veículo se encontra no chão. Para além disso, os seres humanos, nas viagens, contavam experiências. Hoje, contam likes em selfies. Agora que penso nisso: os seres humanos, hoje, passam mais tempo de costas para os locais que visitam, por causa das selfies. Mas isso não muda grande coisa: dantes, as pessoas diziam “Que fixe, fui ao Louvre!”, enquanto que hoje fazem tudo nas redes sociais para que lhes digam “Que fixe, foste ao Louvre!”.

Nas discotecas, os slows eram do Prince
…e outros artistas do mesmo nível. Hoje, os slows são kizombas. Nada contra, para quem pratica os slows, até fica uma parte dos preliminares já feita. Mas para quem, como eu, não dança slows, perde-se na qualidade musical. Mas quem vai a uma discoteca por causa da qualidade musical não merece nada. É como ir a uma sucata procurar arte contemporânea. Mau exemplo: muita da arte contemporânea é feita de sucata. Enfim, vocês entenderam-me.

Podem acrescentar outras sugestões, nos comentários a esta pequena dissertação. Eu prometo que leio, quando acabar este programa que estou a ver na MTV.