segunda-feira, 27 de março de 2017

Amemos os nossos "trolls"

Quando andares pelo Facebook e encontrares um rasto de baba, numa determinada página, não te assustes: não adormeceste e começaste a babar. Provavelmente, foi só um “troll” que passou por ali e desatou a libertar dejectos verbais na caixa de comentários. Desde que não leias mais do que dois comentários, não corres o risco de contaminação. Entre três e dez comentários, podes ficar diminuído intelectualmente durante algumas horas. Se leres mais do que dez comentários, começas a concordar com o “troll” e isso é como o mundo dos zombies: não há caminho de volta.

Outra forma de detectares um potencial “troll” é encontrares “você” escrito na forma “voçê”, ou uma confusão entre “há” e “à”. O “troll” é, hoje, um dos maiores flagelos da Internet mas, felizmente, deixa vestígios por todo o lado, sob forma de erros ortográficos, pelo que, podes facilmente evitar pisar o cocó que eles deixam por onde passam.

(aimee rivers/Flickr)

O “troll” é um ser que sabe tudo sobre todas as coisas. Como o Miguel Sousa Tavares, mas mais agressivo. Sendo assim tão sábio, o “troll” comenta tudo o que é notícia colocada online. Apesar de saber tudo, sobre todas as coisas, os seus comentários revelam frequentemente ignorância e preconceito. A comunidade científica vai tentar descobrir como pode um ser sábio comportar-se tendencialmente como um ignorante mas, para já, está a dedicar-se a produzir novos tipos de farelo sem glúten. Um dia, talvez saberemos como pode o “troll” saber tudo menos detectar a própria estupidez.

O “troll” vive mal com a diferença (seja ela de natureza política, religiosa, sexual ou étnica), sobretudo, porque tem pouca memória RAM. Uma vez que o seu cérebro tem, em média, menos 35% de massa encefálica do que o do ser humano normal, quando confrontado com a diferença, o “troll” sofre um ciclo infinito de informação e entra em colapso. Os neurónios deixam de comunicar entre si e o sistema só pode ser reiniciado com a colocação de um comentário preconceituoso na Internet. Depois disso, o cérebro volta ao normal.

Já que refiro esta caracterísitca, vou ser mais rigoroso com a linguagem científica: o ser humano normal tem cérebro e cerebelo; o “troll” tem cerebelo e cerebelito. É tudo uma questão de tamanho.

Uma vez que têm dificuldade em orientar-se sozinhos neste mundo tão complicado em que vivemos, os “trolls” agrupam-se em bandos, como os pombos. Basta um levantar voo para um lado qualquer que os outros seguem-no. Nem que, chegado ao destino, o pombo diga: “Calma, só vim ver as horas, não precisavam de vir atrás de mim”. Em conjunto, os “trolls” que hoje assolam a Internet são como uma infestação de baratas. Com uma diferença: a barata, quando vai à lixeira, sabe encontrar o caminho de volta.

Apesar da dimensão do problema, não embarco na tese de que a Internet é que fabricou o “troll”. Este espécime sempre existiu. Só que agora tem voz pública. Tem um palco. É como aquele tio bêbado que, nos casamentos, rouba o microfone e desata a dissertar sobre os voluptuosos seios de uma convidada, sobre a frequência com que o seu intestino liberta os detritos do processo digestivo ou sobre as belíssimas strippers que abrilhantaram a festa de despedida de solteiro.

Se a Natureza não eliminou o “troll”, é porque ele faz falta ao ecossistema. Se ainda não eliminou a ténia, ou “bicha solitária”, que é um bicho que se instala no intestino para ingerir cocó, por que razão haveria de eliminar o “troll”?

O ser humano deve aprender a conviver com este espécime. Não entrando em discussões com ele, porque vai ser arrastado para a lama e perder o combate, mas tentando complexificar, de tal maneira, a discussão, que os “trolls” só poderão ficar sossegadinhos a falar entre si. Quando falo complexificar a discussão, não pretendo torná-la imperceptível ao cidadão comum. Noto que basta construir devidamente um argumento, ao mesmo tempo que se respeita a concordância entre sujeito e verbo, para que o “troll” já considere o nosso texto “Literatura” e o rejeite liminarmente.

Amemos os nossos “trolls”. Eles são apenas animais revoltados, que precisam de atenção.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Balelas nos sites de emprego

O que mais me fascina na frase “Vergonha é roubar e ser apanhado” é o facto de o ponto final não estar colocado logo a seguir a “roubar”. Segundo este dizer, senhoras e senhores, roubar não é mau. Mau é ser néscio, laparoto, neca, babana ao ponto de se ser apanhado. Uma pessoa que rouba é uma pessoa que faz pela vida. Mas uma pessoa que é apanhada a roubar é alguém com quem não gostaríamos de casar um/a filho/a.

Bom, a avaliar pelo histórico português de eleições autárquicas, mesmo ser apanhado não quer dizer que se perca popularidade e que se seja um mau partido. E se o nosso/a filho/a estiver encalhado/a há muito tempo, até podemos esquecer o facto de a pessoa com quem o/a vamos casar ter sido apanhada a roubar. No caso de o pretendente se tratar de um banqueiro, a comunhão de bens pode ser uma óptima solução.

Vem esta introdução algo desinteressante e um pouco fatalista a propósito de uma tendência que acho preocupante nos sites de emprego: muitas empresas não dizem o que querem. Há uma espécie de complexo que leva a que não se diga qual a função para a qual há uma vaga. É como se se tivesse vergonha de dizer qual a função. É como quando alguém quer acabar uma relação e não sabe como: anda-se ali à volta com coisinhas e não se diz logo tudo de uma vez. Exemplifico.

(Véronique Debord-Lazaro/Flickr)

Precisa-se vendedor porta-a-porta
Trabalho tão respeitável como qualquer outro, e infinitamente mais respeitável do que roubar (ser apanhado é opcional), para este tipo de trabalho, as empresas anunciam vaga para algo como “comunicadores” ou “dinamizadores comerciais, junto do cliente final, de marcas, bens e serviços”. Pergunto eu: se pedissem vendedores porta-a-porta, não teriam uma melhor triagem dos candidatos? Candidatava-se quem queria, quem não queria não ia ao engano. Até porque os “dinamizadores comerciais, junto do cliente final, de marcas, bens e serviços” podem não estar interessados no porta-a-porta.

Precisa-se de funcionário da limpeza
Para as empresas que, imagine-se, vendem serviços de limpeza, trabalhar na limpeza não é digno. É tipo vender droga: dá dinheiro, mas é feio. Nada mais errado: a limpeza é essencial, na vida, no trabalho, nas zonas púbicas ou num bordel. Sendo assim, podem pedir “funcionários de limpeza” nos anúncios, e não “operadores de logística higiénica”. Facilitavam a vida a toda a gente.

Precisa-se de canalizador
A canalização é como o intestino: só lhe damos valor quando a matéria empanca. Sendo assim, as empresas que vendem serviços de canalização podem solicitar, nos sites de emprego, canalizadores, em vez de “pipelining problem solvers”. É a mesma coisa, mas facilita a vida a um canalizador que procure trabalho. Por vezes, a um canalizador desempregado, é mais difícil encontrar trabalho do que um objecto que esteja a obstruir um cano. Tudo por culpa do pipelining das empresas.

Precisa-se de construtor civil
O que seria de nós se não houvesse gente de fibra que, à chuva e ao sol, com calor e com frio, nos construísse as casas e as infraestruturas necessárias à nossa vida? Pois bem, colocar um anúncio para “construtor civil” seria uma boa ideia para as empresas de construção civil. Mas há sempre alguém com uma ideia melhor: porque não pedir um “operário concretizador de concepções arquitectónicas”?

Outra tendência tem a ver com o facto de haver muitos jornalistas desempregados. Por este motivo, toda a gente desatou a pedir o seu jornalista, nos sites de emprego, para desempenhar as mais diversas funções, todas elas respeitáveis, mas que nada têm a ver com jornalismo. Deixo alguns exemplos.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para fazer telemarketing, mas as suas “skills” ao nível da escrita podem ajudar a escrever alguns e-mails.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para trabalhar como “operário concretizador de concepções arquitectónicas”, mas pelo meio, sempre pode dizer notícias aos colegas, como se estivesse na rádio. E fazer relatos de futebol.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para motorista de pesados. Mas as suas capacidades de comunicação podem ajudar na relação com os clientes.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para trabalhar no “Correio da Manhã”.