Amemos os nossos "trolls"

Quando andares pelo Facebook e encontrares um rasto de baba, numa determinada página, não te assustes: não adormeceste e começaste a babar. Provavelmente, foi só um “troll” que passou por ali e desatou a libertar dejectos verbais na caixa de comentários. Desde que não leias mais do que dois comentários, não corres o risco de contaminação. Entre três e dez comentários, podes ficar diminuído intelectualmente durante algumas horas. Se leres mais do que dez comentários, começas a concordar com o “troll” e isso é como o mundo dos zombies: não há caminho de volta.

Outra forma de detectares um potencial “troll” é encontrares “você” escrito na forma “voçê”, ou uma confusão entre “há” e “à”. O “troll” é, hoje, um dos maiores flagelos da Internet mas, felizmente, deixa vestígios por todo o lado, sob forma de erros ortográficos, pelo que, podes facilmente evitar pisar o cocó que eles deixam por onde passam.

(aimee rivers/Flickr)

O “troll” é um ser que sabe tudo sobre todas as coisas. Como o Miguel Sousa Tavares, mas mais agressivo. Sendo assim tão sábio, o “troll” comenta tudo o que é notícia colocada online. Apesar de saber tudo, sobre todas as coisas, os seus comentários revelam frequentemente ignorância e preconceito. A comunidade científica vai tentar descobrir como pode um ser sábio comportar-se tendencialmente como um ignorante mas, para já, está a dedicar-se a produzir novos tipos de farelo sem glúten. Um dia, talvez saberemos como pode o “troll” saber tudo menos detectar a própria estupidez.

O “troll” vive mal com a diferença (seja ela de natureza política, religiosa, sexual ou étnica), sobretudo, porque tem pouca memória RAM. Uma vez que o seu cérebro tem, em média, menos 35% de massa encefálica do que o do ser humano normal, quando confrontado com a diferença, o “troll” sofre um ciclo infinito de informação e entra em colapso. Os neurónios deixam de comunicar entre si e o sistema só pode ser reiniciado com a colocação de um comentário preconceituoso na Internet. Depois disso, o cérebro volta ao normal.

Já que refiro esta caracterísitca, vou ser mais rigoroso com a linguagem científica: o ser humano normal tem cérebro e cerebelo; o “troll” tem cerebelo e cerebelito. É tudo uma questão de tamanho.

Uma vez que têm dificuldade em orientar-se sozinhos neste mundo tão complicado em que vivemos, os “trolls” agrupam-se em bandos, como os pombos. Basta um levantar voo para um lado qualquer que os outros seguem-no. Nem que, chegado ao destino, o pombo diga: “Calma, só vim ver as horas, não precisavam de vir atrás de mim”. Em conjunto, os “trolls” que hoje assolam a Internet são como uma infestação de baratas. Com uma diferença: a barata, quando vai à lixeira, sabe encontrar o caminho de volta.

Apesar da dimensão do problema, não embarco na tese de que a Internet é que fabricou o “troll”. Este espécime sempre existiu. Só que agora tem voz pública. Tem um palco. É como aquele tio bêbado que, nos casamentos, rouba o microfone e desata a dissertar sobre os voluptuosos seios de uma convidada, sobre a frequência com que o seu intestino liberta os detritos do processo digestivo ou sobre as belíssimas strippers que abrilhantaram a festa de despedida de solteiro.

Se a Natureza não eliminou o “troll”, é porque ele faz falta ao ecossistema. Se ainda não eliminou a ténia, ou “bicha solitária”, que é um bicho que se instala no intestino para ingerir cocó, por que razão haveria de eliminar o “troll”?

O ser humano deve aprender a conviver com este espécime. Não entrando em discussões com ele, porque vai ser arrastado para a lama e perder o combate, mas tentando complexificar, de tal maneira, a discussão, que os “trolls” só poderão ficar sossegadinhos a falar entre si. Quando falo complexificar a discussão, não pretendo torná-la imperceptível ao cidadão comum. Noto que basta construir devidamente um argumento, ao mesmo tempo que se respeita a concordância entre sujeito e verbo, para que o “troll” já considere o nosso texto “Literatura” e o rejeite liminarmente.

Amemos os nossos “trolls”. Eles são apenas animais revoltados, que precisam de atenção.

Comentários

  1. O João Dias percebe muito do que fala será o João um Ogre?

    ResponderEliminar
  2. Well...im a troll..e faz-me muito bem á saude, proporciona-me a oportunidade de regrugitar comentarios ofensivos racistas e xenofobos , provocando uma reacção biliar ás pessoas que reagem aos comentários, sem sequer perceberem que estão a ser troladas,é muito refrescante, proporciona-me ainda a oportunidade de ignorar completamente as regras gramaticais, tornando-me assim num hippie literário , eu gosto.

    ResponderEliminar
  3. Primeiro texto que leio deste blogue. Teve a minha total atenção! Gostei - não sou a única a tropeçar nos trolls.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário