terça-feira, 27 de junho de 2017

Consegues escolher uma bebida em menos de dez minutos?

Se nos lembrarmos do início dos anos 90, pensamos automaticamente que vivíamos na idade da pedra. A televisão tinha dois canais e não dava para parar ou recuar sete dias. Qualquer pessoa que tivesse um computador parecia vinda do futuro e muito mais inteligente do que as demais, e só a ideia de poder ligar os computadores em rede podia provocar um esgotamento ao cidadão comum. Telefone, só ligado à corrente e, para mandar uma mensagem, ia-se aos CTT e mandava-se um telegrama. Uma viagem entre Braga e Lisboa demorava uma eternidade e implicava uma tamanha distorção no eixo espácio-temporal que era como aqueles filmes do espaço, em que uma personagem regressa de uma missão e reencontra um familiar demasiado envelhecido. Ir a Espanha tinha qualquer coisa de filme de James Bond, uma vez que implicava controlo fronteiriço.

Apesar de todas estas enormes desvantagens, havia uma simplicidade apaixonante naqueles tempos. Por exemplo, quando as pesssoas iam ao café, era fácil escolher. Hoje, há tantas opções possíveis que para ir ao café em Junho, é melhor começar a estudar a gama de produtos em Abril.

(Camila Tamara Silva Sepúlveda/Flickr)

- Boa noite.

- Boa noite. Queria um café, por favor?

- Normal, duplo, mocha, cappuccino, pingado…?

- Um café, café, por favor.

- Prefere um lote arábica, robusta ou uma mistura?

- Ah?!

- O café arábica tem menos cafeína, mas tem um sabor mais intenso. O robusta, por seu lado, fica mais cremoso.

- Pode ser um arábica.

- Prefere espresso, curto ou ristretto?

- Qual é a diferença?

- A quantidade de líquido. O expresso tem…

- Olhe, traga meia chávena, seja lá qual for o nome.

- Prefere um café sem início?

- Ah?

- Há pessoas que preferem que o café não tenha a primeira porção de líquido que sai da máquina.

- Olhe, comece a deitar na chávena logo ao começar a sair da máquina. Sabe que mais? Desisti do café. Quero um chá.

- Branco, verde, preto, limão, cidreira, camomila, tília, menta?

- Nem sei… Tem água com gás?

- Sim. Com muito ou pouco gás?

- Há águas com pouco gás? Tem águas com quase nenhum gás?

- Não, só com muito ou com pouco gás.

- Quero com muito gás. Traga a que tiver mais bolhinas. Pode contá-las.

- Com ou sem sabores?

- Pode ser com sabores.

- Limão, framboesa, pepino?

- Olhe, tem cerveja?

- Claro. Prefere industrial ou artesanal?

- Qual é a diferença?

- A cerveja artesanal é mais intensa e aromática.

- Pode ser artesanal.

- Loira, ruiva ou preta?

- Só três cores? Não há gamas intermédias? Que desilusão… Se calhar, prefiro um gin.

- Tem preferência por alguma referência?

- Qualquer um.

- Que tipo de botânico quer a acompanhar? Quer lima, limão, laranja?

- Olhe, traga-me um copo de vinho.

- Branco ou tinto?

- Tinto.

- Verde ou maduro?

- Maduro.

- Tem preferência por região?

- Douro.

- Alguma casta preferida? Touriga nacional, touriga franca, tinta toriz, tinta barroca?

- Chega! Desisto! Traga-me um copo de água.

- Mineral ou da torneira?

sábado, 17 de junho de 2017

A revolta dos designers

Há dias, vi um anúncio de um concurso, no qual se solicitavam propostas para a identidade gráfica de incubadoras municipais de empresas, sendo a proposta vencedora premiada com … um iPad. Sim, o trabalho de dezenas (ou centenas?) de criativos será premiado com um iPad. Eu sei que aquelas pessoas que são incapazes de distinguir um ábaco de um computador poderão dizer “Eh pá, é um iPad Pro, que tem uma caneta toda gira e que até pode ser uma ferramenta de trabalho útil a um designer”. A estas alimárias eu responderia: “Então podemos contratar um carpinteiro e pagar-lhe com um martelo”.

(Simone Bosotti/Flickr)

Não interessa revelar qual é a Câmara Municipal que fez isto, até porque foi a de Guimarães e, como eu sou de Braga, os trolls que estiverem de serviço, na Internet, nos próximos dias, poderão acusar-me de estar a fomentar querelas bairristas. O que não corresponde à verdade, uma vez que enunciei este concurso a título de exemplo. Não é uma novidade, é só mais uma, no imenso conjunto de iniciativas que tratam os designers como mercadoria.

Quando vi o anúncio, tive o cuidado de confirmar que o concurso não era promovido por uma empresa que comercializa carne ou lacticínios. Se fosse, a explicação para este caso poderia estar no facto de o responsável pelo concurso, afectado pelo cansaço e pelo stress da vida empresarial, ter confundido os designers com gado bovino. Até se aceitava, porque o homem andava cansado e confuso, ele fazia um pedido de desculpas, ou era queimado em público, dependendo de quem analisasse a situação, e a vida seguia.

Mas não. Isto foi objecto de uma decisão consciente (?!). Depois da vaga de pessoas que acham que “Isto o que era preciso era um Salazar para pôr ordem”, e das pessoas que acham que os direitos dos animais só farão sentido quando todos os seres humanos forem felizes, o nosso maior problema é a malta que diz” “Arranja aí 1,5Kg de bom design e 200g de texto, por favor. Ah, e 150 de fiambre, que o meu Gonçalinho gosta de uma sande ao lanche.”

Mas isto não vai ficar por aqui. As empresas estão sempre a reinventar-se e a adaptar-se aos novos desafios. Não faltará muito tempo para que os anúncios possam ser algo como:

- Cria a identidade gráfica da Câmara Municipal e ganha um presunto pata negra (não ia haver autarquias a premiar designers com um iPad Pro e nós a oferecermos presuntos normais, não, nós damos um pata negra!);

- Cria o logótipo da nossa empresa e ganha um voucher com 10% de desconto num fim-de-semana no melhor hotel do Mónaco;

- Cria o cartaz da nossa festa e ganha um bilhete duplo para um concerto do A.G.I.R. (éramos para escolher algo que se parecesse mais com música, mas o nosso contacto só nos arranjou do A.G.I.R.)

- Cria a mascote do nosso evento e ganha um like na tua página.

Nem faltará muito tempo para que, em sede de Concertação Social, os representantes das empresas proponham a criação de um zoo de designers, no qual os empresários possam atirar comida aos criativos, em troca de trabalho.

Amigos designers, revoltem-se. Proponho uma solução, que passa por todos os participantes enviarem propostas do mesmo calibre dos seguintes desenhos (eu sei, sou óptimo a desenhar no Paint, mas garanto que não fiz isto para promover o meu talento; coloco legenda, porque a minha arte foge para o abstracto e alguns leitores poderão não compreendê-la).~

Menino 
Menina
Sol

Flor

Confrontados com tamanha qualidade, os empresários começariam a pensar em fazer algo que desonraria as suas famílias e colocaria em causa o futuro das suas empresas: pagar devidamente pelo trabalho dos designers.

sábado, 3 de junho de 2017

A culinária é a nova pornografia

O aparecimento da televisão por cabo, em Portugal, no início do século XXI, permitiu, entre outras coisas, que o acto de ver animais a copular freneticamente deixasse de ser exclusivo de quem assistia aos documentários sobre vida animal. Na caixinha mágica, onde podíamos ver o babuíno ou o pavão nos seus rituais de acasalamento, passámos a poder ver a senhorita que, tendo ido buscar o seu carro à oficina, e tendo-se esquecido da carteira, aproveitou para se envolver sexualmente com um profissional da reparação automóvel. Quem diz isto diz o profissional de entrega de um determinado tipo de comida italiana que faz uma relaxante pausa num difícil dia de trabalho, desenvolvendo actividades de cariz sexual com uma cliente possuidora de seios proeminentes. Foram anos de glória, sobretudo para quem estava na sua adolescência. Ávidos de narrativas capazes de exprimir a complexidade do ser humano, de mamas grandes e de sexo desenfreado, milhares, para não dizer milhões, de adolescentes encontraram o que acreditavam ser o sentido da vida.

Porém, depois da revolução, veio a banalização. A facilidade de encontrar conteúdos deste nível de romantismo, espontaneidade e penetração, em qualquer esquina da Internet, veio retirar-lhes a vertente de fruto proibido.

Logo vieram os “reality shows”, para que fosse possível espreitar para uma casa cheia de pessoas desinteressantes. Banalizado o sexo, o ideal era banalizar a privacidade e a falta de cultura geral. Uma fórmula inaflível, portanto. A possibilidade de assistir, em directo, ao envolvimento emocional e sexual de outros seres humanos foi demasiado boa para resistir. Só que também isto se banalizou. O número de programas aumentou, o número de concorrentes capazes de articular duas frases desceu drasticamente, e o tédio aumentou de novo.

Mas a indústria da televisão não dorme, e descobriu qual era o novo fruto proibido: a comida. Numa era em que não se pode comer açúcar, glúten, sal e nada que não seja verde, que não seja uma espécie de farelo ou que não pareça massa de tapar buracos na parede, mostrar a confecção de comida saborosa aos seres humanos é apelar aos seus instintos mais reprimidos. É impossível não resultar.

(Markus Spiske/Flickr)

Antigamente, os programas de culinária eram transmitidos à hora do almoço, não só, para nos abrir o apetite, mas também para encherem chouriços (não literalmente) naquele período entre o programa da manhã e o telejornal da uma da tarde. Actualmente, os programas da manhã estão demasiado ocupados, durante esse período, a contar a bonita história da pessoa a quem partiram o pára-brisas com um piano de cauda, ou da pessoa a quem nasceu um bonsai no ombro direito. É isto ou promover concursos telefónicos que envolvem números, rodas, tômbolas e pessoas a cuspir fogo, e nos quais se pode ganhar muito dinheiro.

E ainda bem, porque se os programas de culinária colonizaram o resto do horário televisivo, é urgente preencher aquele tempinho antes do telejornal da uma da tarde.

Viveremos tempo suficiente para que os canais eróticos sejam livres e os de culinária sejam pagos. Viveremos tempo suficiente para que as pessoas estejam a ver programas de culinária e, surpreendidos por alguém que chega a casa, mudem para a pornografia.

- O que estás a ver, querido?

(Mudança rápida de canal.)

- Eeeeh, um filme.

- De que é?

- É esta senhora de mamas grandes que decidiu saltar para cima daquele canalizador.

- Parece giro. Faz pausa, venho já ver.

- (Merda, agora que ia ver como é que aquele carpaccio ia ficar…) OK, querida.

Viveremos tempo suficiente para que os adolescentes se esgueirem pela porta do quarto, durante a noite, para verem meia horinha de 24 Kitchen. Só o tempo de o Rudolph confeccionar uma tão deliciosa, quanto proibida, tarte de maçã.

Viveremos tempo suficiente para vermos maior facilidade em legalizar uma loja de venda de drogas do que um restaurante que venda arroz de cabidela.

Viveremos tempo suficiente para que a comida saborosa e com bom aspecto seja matéria do canal História.

Viveremos tempo suficiente para que os governantes sejam escolhidos num programa em que o Gordon Ramsay os insulta aos berros, enquanto cozinham risoto e vieiras.

Tendo em conta alguns resultados de eleições recentes, até pode nem ser má ideia. O que é perdermos as liberdades e fomentarmos o ódio entre pessoas, em comparação com um naco de porco preto, em redução de vinho, com puré de maçã?